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JONAS, Hans. Entre le néant et l’éternité. Paris: Belin, 1996.

O Combate pela Possibilidade da Fé: Recordações sobre Rudolf Bultmann e Reflexões sobre os Aspectos Filosóficos de sua Obra

1. O elogio a Rudolf Bultmann exige uma reflexão sobre o homem e sua obra, pois ele vivia em acordo com seu pensamento, e a característica deste era ser um “pensamento-para-a-vida”, e sua presença iluminou a vida do autor com uma luz firme e constante.

2. O autor conheceu Bultmann em 1924, ao ingressar em seu seminário sobre o Novo Testamento em Marburg, e Bultmann o introduziu ao Novo Testamento, revelando-lhe também o ambiente intelectual do cristianismo primitivo e a Gnose, tema ao qual o autor se dedicaria por muito tempo.

3. Bultmann foi um professor e um benfeitor generoso, que apoiou a publicação dos trabalhos do autor, inclusive com uma corajosa prefácio em 1934 para o livro de um jovem autor judeu que acabara de emigrar, demonstrando sua coragem e generosidade em tempos sombrios.

4. Bultmann era um homem de pureza de alma constante, e o autor recorda um jantar de despedida em 1933, onde Bultmann se mostrou sensível e preocupado, e uma cena de humildade diante de uma criança, que revelou a “grande inocência” de sua fé e o caráter não dogmático de sua teologia.

5. A teologia de Bultmann era uma teologia da escuta e da obediência, onde a fé é entendida como uma relação de confiança e entrega, e a “possibilidade da fé” era uma preocupação central, com o esforço de desobstruir o caminho para a fé, o que é a própria essência da teologia.

6. A obra de Bultmann possui dois aspectos filosóficos: a teoria da interpretação e a relação com a ciência moderna, que se encontram no conceito de desmitologização, que visa libertar o texto para uma leitura “existencial” e remover obstáculos à fé.

7. A desmitologização serve a dois fins complementares: salvar a possibilidade da fé, removendo os obstáculos da ciência moderna, e alcançar seu conteúdo verdadeiro, libertando-a da mitologia que a obscurece, e a necessidade dessa desmitologização é atestada pelo próprio Novo Testamento.

8. A desmitologização é a aplicação radical da doutrina da justificação pela fé ao domínio do conhecimento, e o intérprete, liberto de todo “saber prévio”, deve deixar-se interpelar pela palavra, o que coloca o problema da relação entre a teologia e a filosofia no que diz respeito à compreensão.

9. A pergunta fundamental é se o significado do discurso teológico pode ser estabelecido sem recorrer a termos mitológicos, e se o caminho da interpretação não leva inevitavelmente de uma metáfora a outra, o que seria verdade também para a filosofia.

10. A filosofia da existência, em particular “Ser e Tempo” de Heidegger, fornece a chave hermenêutica para Bultmann, que vê na compreensão da existência humana o fundamento do que deve ser interpretado, mas a questão da “justa” filosofia permanece em aberto.

11. O programa hermenêutico de Bultmann, embora eficaz, tem suas limitações, e a metáfora e a mitologia não podem ser totalmente eliminadas, como sugerem as reflexões de Hannah Arendt e a própria linguagem filosófica de Heidegger.

12. A desmitologização, ao “suprair” os elementos mitológicos, também poderia, em última análise, “suprimir” a própria possibilidade de se falar sobre Deus, e o problema de se a linguagem metafórica pode ser substituída por uma linguagem direta permanece sem solução.

13. A crítica de Bultmann à mitologia baseia-se na aceitação do axioma moderno da imanência, herdado da ciência moderna, que vê o curso da natureza e da história como não interrompido por forças sobrenaturais, mas a própria ciência não pode afirmar categoricamente essa impossibilidade.

14. A tese da “honestidade intelectual” de Bultmann é um imperativo moral que exige coerência entre a fé e a compreensão moderna do mundo, e o verdadeiro problema não é o milagre físico, mas a ideia da ação divina em geral.

15. A solução de Bultmann para o dilema da ação divina é pensar a ação de Deus como “não-mundana e transcendente”, que ocorre “em” eventos mundanos, mas não “entre” eles, uma solução análoga à distinção kantiana entre fenômeno e númeno.

16. A ação divina, assim entendida, não pode ser conhecida como um evento específico, e o crente deve manter-se numa “distância crítica” da fé, vendo a ação de Deus apenas na fé, sem poder demonstrá-la como um evento objetivo.

17. O autor discorda de Bultmann ao considerar que a revelação exige uma exceção à regra da imanência, pois a iniciativa divina na revelação é um ato particular “dentro” do mundo, e não apenas uma interpretação transcendente de eventos mundanos.

18. A revelação, como um ato de Deus que se torna audível através de palavras humanas, exige uma “irrupção” da transcendência na imanência, e a palavra profética é uma voz que vem de fora e que os ouvintes devem ouvir, e a iniciativa divina é um ato particular no mundo.

19. A compreensão do autor sobre a ação divina na revelação ultrapassa a linha de separação kantiana, pois permite que a ação divina penetre na “aparência” e no domínio público, tornando a religião dependente de uma aparência publicamente original.

20. O autor argumenta que a revelação não pode ser vista apenas como uma palavra interior, pois a pregação cristã tem sua origem em um evento histórico público, e a fé na revelação está ligada à crença em um evento histórico particular.

21. O autor conclui que, ao contrário de Bultmann, o crente pode aceitar a ideia de uma iniciativa transcendente sem paradoxo, e a decisão de crer ou não crer permanece uma questão de fé, mesmo que a explicação natural seja teoricamente preferível.

22. A dificuldade para a fé reside não tanto no conflito com a ciência, mas na competição entre as diversas pretensões de revelação na história da humanidade, o que levanta o problema da intolerância em relação à “religião autêntica”.

23. O filósofo, ao contrário do teólogo, pode conceder mais à possibilidade da fé, pois a teologia está comprometida com a verdade do Novo Testamento e, portanto, não pode permitir que a fé seja identificada com uma filosofia particular.

24. Ao aceitar a possibilidade de uma revelação histórica, o filósofo não precisa defender o conteúdo dessa revelação, e a transcendência, para ser reconhecida em sua alteridade, deve ser capaz de “irromper” no curso mundano.

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