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Ética

JONAS, Hans. Philosophical Essays. Chicago: University of Chicago Press, 1980.

Problemas Contemporâneos em Ética a Partir de uma Perspectiva Judaica

1. A crise do homem moderno reside no fato de que a razão, triunfante através da ciência, destruiu a fé na revelação sem, no entanto, substituí-la na orientação das escolhas últimas, pois a própria razão se desqualificou para esse ofício ao se instalar como única autoridade em matéria de verdade, refletindo-se essa situação no fracasso da filosofia contemporânea em oferecer uma teoria ética que valide normas como parte de nosso universo de conhecimento.

2. Três determinantes inter-relacionados do pensamento moderno contribuem para o impasse da teoria ética contemporânea: o conceito moderno de natureza, o conceito moderno de homem e o fato da tecnologia moderna, todos os quais implicam a negação de certos fundamentos bíblicos, como a criação, a bondade da criação e a glória de Deus manifesta na natureza.

3. O conceito científico moderno de natureza nega a criação ao afirmar que o mundo se faz a si mesmo, nega a bondade da criação ao declarar a natureza indiferente aos valores e nega que os céus proclamem a glória de Deus, resultando em um mundo desencantado e sem propósito, onde o homem se torna o único repositório de intenções e fins.

4. A doutrina moderna do homem, através do darwinismo, nega a afirmação bíblica de que o homem foi criado à imagem de Deus, pois o homem é visto como um produto acidental de forças indiferentes, sem uma essência válida, oferecendo uma imagem “sem imagem” do homem, onde o imperativo evolutivo substitui o imperativo de santidade.

5. O historicismo, ao encontrar o homem como produto contínuo de sua própria história e de culturas mutáveis, nega o princípio bíblico de uma Torá única, sua autoridade transcendente e sua cognoscibilidade, substituindo o absoluto pelo relativo, o universal pelo particular e o objetivo pelo subjetivo em ética.

6. A psicologia moderna, especialmente a psicanálise, nega a autenticidade do espírito e a responsabilidade transcendente da pessoa, reduzindo o superior ao inferior e o imperativo moral a um disfarce de impulsos elementares, deixando o homem na miséria sem a oposição da “imagem” para a qual ele poderia se elevar.

7. O paradoxo da condição moderna é que a redução da estatura metafísica do homem, sua humilhação, anda de mãos dadas com sua promoção a um poder quase divino, pois a tecnologia coloca em suas mãos um poder imenso para ser exercido em um vácuo de normas, criando o principal problema para a ética contemporânea.

8. A tecnologia moderna, baseada na ciência, trata a natureza como um mero objeto, sem dignidade própria, e o homem, como o único sujeito e vontade, coloca seu conhecimento a serviço de sua vontade de poder sobre as coisas, uma vontade que, uma vez superada a necessidade, se torna desejo sem limites.

9. O significado moral do poder tecnológico reside no fato de que a experiência do poder, ao dissipar a reverência pela natureza e o senso de dependência e admiração, remove as barreiras que antes continham a ação humana, e a pergunta “como podemos fazer o mesmo?” despoja a natureza de uma sublimidade que poderia deter nossas mãos.

10. A perda do senso de reverência e admiração pela natureza, que antes sustentava a religião e a moralidade, tem implicações morais, pois a experiência do poder tecnológico, que expurga a reverência e a vergonha, não pode deixar de ter consequências para nossa condição ética.

11. Embora o homem possa ter ganho em poder o que a natureza perdeu em status metafísico, ele próprio se tornou envolto na desvalorização metafísica que foi a premissa e a consequência de seu triunfo, pois ele é tanto o sujeito quanto o objeto de seu conhecimento científico, podendo agora se refazer a si mesmo.

12. O homem, ao se tornar objeto de seu próprio poder tecnológico, pode se refazer “por especificação”, e o acidente de seu surgimento de uma dinâmica cega da natureza será agravado pelo acidente de segunda potência: o homem intervindo em sua própria evolução com base em seus conceitos efêmeros, onde a presença de um plano não significa a ausência de acidente.

13. Os planos mais “visionários”, por mais distantes que seja o objetivo pretendido, são filhos dos conceitos do dia, aprovados por aqueles que estão no controle, e as decisões rápidas do homem, não expostas ao longo teste das eras, substituirão os acidentes lentos da natureza.

14. A teoria ética moderna, incluindo o pragmatismo, o emotivismo, a análise linguística e o existencialismo, não tem resposta para o dilema do homem contemporâneo, pois nega a existência de princípios para a definição de metas, deixando o ato de escolha como um ato de vontade responsável apenas por si mesmo.

15. A combinação da anarquia da escolha humana com o poder apocalíptico do homem contemporâneo — a combinação de onipotência com vacuidade — exige que o judaísmo tome uma posição, desafiando as crenças queridas da modernidade e preservando o equivalente do significado das proposições bíblicas para que ainda haja uma resposta à busca moral do homem.

16. A afirmação de que não há nada além do que a ciência pode verificar é uma tautologia que se auto-confirma, e as proposições bíblicas não são “refutadas” pela ciência, mas o clima psicológico criado pela ciência é desfavorável à visibilidade da dimensão transcendente que elas reivindicam para a natureza das coisas.

17. O poder tecnológico moderno, pela mera escala de seus efeitos, força sobre nós objetivos que antes eram privilégio das utopias, e a lacuna salutar entre questões cotidianas e questões últimas está se fechando, exigindo sabedoria justamente quando menos se acredita nela.

18. O primeiro conselho da postura judaica é a modéstia em estimar nossa própria inteligência em relação aos nossos antepassados, pois a arrogância com que a razão, encorajada pela ciência, olha para a ignorância do passado é terrível em suas possíveis consequências e ímpia como atitude por falta de humildade.

19. A humildade de ouvir a tradição, justificada por nossa impotência diante dos frutos e usos de nossos poderes adquiridos, pode nos guardar de descartar as visões bíblicas como mera mitologia e nos ajudar a perceber que não somos donos de nós mesmos, mas mordomos de uma herança.

20. A recuperação do senso de reverência, informado pela ideia de criação, assume a forma de reverência pela natureza e pelo homem, com aplicações práticas, como o respeito pela integridade da criação, que deve conter a ganância e impedir a extinção desnecessária de espécies.

21. A reverência pela natureza, derivada da ideia de criação, opõe um “não” incondicional à depredação da plenitude da criação e à sua perversão por monstruosidades genéticas feitas pelo homem, uma responsabilidade que vai além do mero utilitarismo de longo prazo.

22. A reverência pelo homem, criado à imagem de Deus, implica que a educação é permitida, mas a manipulação genética não, pois a primeira ainda deixa a liberdade intacta, enquanto a segunda fixaria o homem em uma imagem de nossa própria definição, cortando as promessas ainda não reveladas da imagem de Deus.

23. A ideia da imagem de Deus também exige respeito pela pessoa, sua liberdade e dignidade, opondo-se à manipulação psicológica como a lavagem cerebral e o condicionamento subliminar, que transformam os homens em coisas, e a ênfase deve ser em critérios de rejeição, dada a situação de excesso de poder para “fazer”.

24. A promessa de prolongamento indefinido da vida, embora pareça bem-vinda, é rejeitada pela perspectiva judaica, pois abolir a morte exigiria abolir a procriação, resultando em um mundo de velhice sem juventude, perdendo a esperança e a renovação que os jovens trazem, e um judeu deve ser capaz de aceitar sua finitude sob Deus.

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