Bultmann
JONAS, Hans. Entre le néant et l’éternité. Paris: Belin, 1996.
Extrato da Correspondência entre Rudolf Bultmann e Hans Jonas
1. Rudolf Bultmann resume o artigo de Hans Jonas sobre a imortalidade, que primeiro mostra a impossibilidade de uma imortalidade empírica baseada na fama ou influência, e depois a impossibilidade de argumentar por uma imortalidade pessoal com base na justiça ou na distinção entre aparência e realidade.
2. Jonas argumenta que o homem não tem um direito moral à imortalidade, mas que ela pode ser compreendida como a “aposta” (stake) de Deus na aventura cósmica, onde o destino divino está em jogo na história e as ações humanas se inscrevem em uma memória eterna, afetando a integridade da imagem divina.
3. Bultmann questiona se a responsabilidade do homem é “diante de” Deus ou “por” Deus, e se a relação entre transcendência e imanência é dialética, sugerindo que a responsabilidade do homem é por si mesmo e pelo mundo, como criatura de Deus e instrumento da relação entre o mundo e a transcendência.
4. Bultmann percebe no “mito” de Jonas uma tentativa de resolver o problema da teodicéia, onde a “serenidade” (serenity) da divindade seria o resultado da constante elevação do imanente ao transcendente, uma visão que ele compara à de Goethe, onde Deus é a unidade reconciliada de todos os contrários, um conceito estético.
5. Bultmann argumenta que a visão de Jonas sobre o eco dos sofrimentos no princípio eterno, embora atribua significado à dor, não oferece consolo ao indivíduo que sofre, pois permanece em um estágio estético, considerando o mundo de fora, como um espectador de um jogo que se desenrola harmonicamente.
6. Bultmann compara a imagem do destino de Deus com a doutrina de Heidegger sobre o “envio” (Geschick) do Ser, questionando se Jonas compreende o Ser a partir da existência, ao passo que Heidegger não coloca a questão do fundamento originário do Ser, mas sim a questão da essência do Ser em geral.
7. Jonas responde que “stake” significa uma “aposta” (Einsatz) em um jogo, e que o ser inteiro de Deus está em jogo na aventura cósmica, deslocando o acento da interpretação “estética” para a “existencial”, enfatizando que o agir depende de nós e que o espírito da decisão pode ser exigido de todos.
8. Jonas justifica sua escolha metodológica de focar na experiência da decisão moral, em vez da experiência do amor, da beleza ou do conhecimento teórico, porque esta última depende de noções clássicas de essências eternas que se tornaram problemáticas para a mentalidade moderna.
9. Jonas rejeita a acusação de “estética”, pois sua concepção de “serenidade” divina não é a harmonia dos contrários, mas a satisfação pelo sucesso do bem, que, com o advento do homem e da liberdade, torna-se um bem moral, e a possibilidade do mal é o preço necessário para a concretude temporal do bem.
10. Jonas defende que a consideração da totalidade “de fora” é uma exigência da própria ideia de totalidade e que a ética deve ser fundada na ontologia, mas a totalidade em seu mito não é estática como a dos estoicos, mas um destino em devir, onde o homem é co-determinante e absolutamente responsável.
11. Jonas admite que seu mito é um mito de encarnação não-trinitária, uma tentativa simbólica para expressar o significado do enigma do Ser e da existência, mas que a significação não é reconciliadora em si mesma, nem oferece consolo, mas impõe um dever superior de reconstrução aos sobreviventes.
