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estudos:haar:terra-fundamento-em-lugar-de-individuos-1993

Terra fundamento em lugar de indivíduos? (1987/1993:4-5)

Antes de prosseguir, questiona-se mais uma vez: por que as coisas ou a terra constituem o fundamento em vez dos indivíduos? Não estaria o indivíduo essencialmente à margem da História? O pensamento do último Heidegger não seria estranhamente silencioso sobre o lugar atribuído ao indivíduo no cerne da História? A ipseidade e a “minidade”, tão radicais em Ser e Tempo, não fariam mais sentido? Não se poderia imaginar, no limite da época, um desmoronamento ou uma decadência da Ordem sob a pressão de uma multiplicidade de experiências individuais e marginais? De fato, tal “princípio de anarquia”, mais nietzschiano do que heideggeriano, não poderia se sustentar sem o apoio da época, portanto, da Técnica, e muito menos poderia abalá-la. Parece que, para o último Heidegger, o indivíduo está totalmente subjugado a princípios dominantes, ou mesmo dividido, dilacerado, capturado em uma tensão (que recorda a tensão entre autenticidade e inautenticidade) entre uma distância saudável em relação à tecnologia, o que significa o pensamento meditativo, e uma resposta servil, mas adequada, às exigências da época, o que significa o pensamento calculista. Heidegger não considera que a existência individual possa servir como um limite para a História. A vida privada não é o não histórico. Tampouco ele considera que o indivíduo possa encontrar sua felicidade no esquecimento, muito menos no olvido da História, como pretenderia Nietzsche. Se o Ereignis toca o a-histórico, se permite ao pensamento “deixar a metafísica entregue a si mesma”, isso ocorre apenas após ter atravessado toda a amplitude de sua História.

Assim, o Ereignis faz com que os limites e fundamentos da Ordem do Mundo, pensada de acordo com sua proveniência histórica, apareçam como fundamentos puramente metafísicos. Seriam esses fundamentos científicos e tecnológicos, derivados de modo vago e complexo dos “primeiros princípios” da filosofia, o solo sobre o qual o homem caminha, no qual ele se sustenta? Certamente não. Mesmo que o homem comece a se distanciar do planeta em termos de espaço cosmológico, a terra que ele ainda habita dificilmente possui a significação de um “planeta” entre outros planetas (“planeta” significa, etimologicamente, “corpo celeste errante”, Irrstern). Embora, na fase final da História do Ser, a Terra já tenha se tornado “planetária”, ela, no entanto, confere ao homem a experiência originária do lugar. Se existe uma altura e uma profundidade, uma morada, um centro de gravidade, um “solo para o meu corpo”, como Husserl já afirmou, é porque existe uma Urheimat, uma “pátria primordial”, uma terra. Pois não se vive no espaço abstrato e no tempo distendido (seriam eles habitáveis?) que os infelizes “viajantes” em naves espaciais experimentam. Todavia, uma tecnocultura planetária governada pelas ciências da informação, pela mídia e pelo consumo padronizado já projetou nossas representações em um espaço neutro e indiferente. É por isso que um abismo se cava entre a imagem de mundo produzida por tal cultura e a experiência da “terra” ou da “natureza natural”. A natureza tecnologicamente dominável pela ciência e a natureza natural da morada humana, que são igualmente determinadas de modo histórico, divergem uma da outra em um ritmo alucinante como dois domínios estranhos e distantes. O que é esta “natureza natural” e qual é a sua relação com o ser? Possui ela uma subsistência, um verdadeiro “reino” fora dos “espaços verdes” e parques protegidos? A Terra permanece resguardada na lei inaparente daquela possibilidade que ela própria é. Mas o que é a Terra? Seria meramente um novo nome para a imutabilidade a-histórica da Natureza? Em que sentido a Terra está “resguardada”, poupada pela História? Não parece que ela possa ser puramente não histórica, pois, por um lado, ela só se mostra através de uma época determinada, através de suas concepções, suas obras, etc., e, por outro lado, situa-se na tradição que também é determinada pelo que os primeiros gregos chamavam de physis, este florescer que guarda em si uma reserva secreta, da qual percebemos apenas um eco tênue. Não se deve compreender a Terra como uma mistura de História e não História?

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