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Rilke

HAAR, Michel. Le Chant de la Terre. Heidegger et les assises de l’histoire de l’être. Paris: Herne, 1985 / The song of the earth : Heidegger and the grounds of the history of being. Tr. Reginald Lilly. Bloomington: Indiana University Press, 1993.

  • A interpretação heideggeriana de Rilke, ao situar sua poesia na prolongação da história da metafísica e equipará-la a um nietzschianismo “amainado”, reduz os temas fundamentais do poeta, como o “Aberto”, a “percepção pura” e o “coração”, à subjetividade e interioridade tradicionais, o que é contestado por uma leitura mais atenta dos textos.
    • Heidegger baseia sua argumentação na conformidade dos nomes rilkianos para o ser dos entes com a metafísica da subjetividade, mas a centralidade do poema, como um excesso de palavras sobre o sentido, torna todo debate sobre a filosofia de um poeta inevitavelmente redutor.
    • O sentido de um poema não pode residir em outra parte que não no próprio poema, e Rilke, assim como Valéry, reconhecia que o poeta não está em melhor posição do que qualquer outro para alcançar a verdade de suas próprias obras.
  • A afirmação de Heidegger de que a “salvação” rilkiana seria a reconquista de um caminho que leva à interioridade do sujeito, um retorno ao “coração” como fundamento de toda verdade, é questionada pela análise dos poemas que mostram uma dupla efusão do eu e do próprio poema.
    • O poema que define as relações opostas que os animais e os humanos mantêm com o “Aberto” não estabelece uma identidade simples entre a natureza animal e o solo primordial do nosso ser, mas uma analogia, e o “mais” que nós somos parece ser uma transcendência radical em relação à “vida”.
    • A afirmação da metamorfose do mundo no “coração” não é um puro e simples recolhimento para a interioridade de um sujeito, pois a Terra, e não “nós”, é que requer nossa transformação no invisível, e o invisível não se reduz à interioridade humana nem ao poema.
  • A poesia de Rilke, longe de consolidar as certezas da interioridade, as abala, ao afirmar que nosso coração mais profundo não nos pertence, e o “espaço interior do mundo” é uma unidade que não é a do coração-sujeito, mas a unidade coração-mundo.
    • O “espaço interior do mundo” atravessa todos os seres e os une num cosmos, e não é o espaço neutro e universal da ciência, mas um “espaço puro” que é um apelo, uma espera, um elemento soberano que recebe tudo o que surge no crescimento do que acontece.
    • A percepção, para Rilke, não se reduz ao ato contemplativo de um sujeito diante de um objeto, mas participa do movimento e do espaçamento próprios das coisas, e o “dentro” possui as características do “fora”, e o “fora” os poderes de um “dentro”.
  • O “coração” rilkiano, como espaço interior do mundo, realiza a reversibilidade completa entre interior e exterior, e a experiência do coração ou do espaço interior do mundo, favorecida pela noite, dá acesso a uma exteriorização ou desnudamento da subjetividade que atinge o “centro inaudito” do mundo.
    • O olhar imerso na noite dissolve a singularidade do eu, e a experiência do espaço sem rosto não é a de uma interioridade subjetiva, mas a de um desapossamento e de uma perda da voz, que se reverte num grito.
    • A redescoberta do “grito único” está para além da linguagem e do coração singular, e a expansão do coração não é a tomada de posse do Aberto, mas uma transposição e exposição do interior ao exterior, onde a exterioridade se torna interior.
  • O “Invisível” rilkiano não é redutível à interioridade humana nem à textura de um poema, mas é uma transmutação do Aberto, um centro retirado que mantém todas as coisas reunidas e unifica as tensões adversas, sendo mais próximo do ser heideggeriano do que de qualquer ente particular.
    • O “Invisível” é a unidade dos vivos e dos mortos, uma imanência “profundamente terrena” que ecoa a harmonia invisível de Heráclito, mas, ao contrário do filósofo, Rilke, como poeta, deseja e busca no poema essa unidade invisível sem considerá-la um princípio adquirido.
    • A poesia de Rilke, na Trilogia Espanhola, postula e solicita a unidade numa estranha prece, e a coisa única que o poeta invoca não é um ente particular, mas a própria chegada da presença, que é falta no poema, sendo o Invisível a ausência de ausências e a presença das coisas presentes.
  • A rosa, na poesia de Rilke, simboliza a “contradição pura” que é o prazer de uma identidade não subjetiva, o sono de ninguém sob muitas pálpebras, e sua perfeita autorreferência manifesta uma unidade de dom e reserva, uma coincidência de qualidades opostas que ocorre para além do eu poético.
    • A rosa é tanto a suprema vigilância quanto o profundo sono das coisas naturais, o uno e o múltiplo, o nome puro e o puro tecido das coisas, e sua unidade enigmática é desconhecida por nós, que somos seus “contemporâneos”, mas não sua “idade”.
    • A rosa, como “meio intangível” e “encerrada em si mesma”, possui uma autonomia e alteridade radicais, e a tentativa de estabelecer e analisar seu fundo metafísico nos torna insensíveis à voz do poeta e nos fecha ao Sagrado irreduzível que ela acolhe.
  • A celebração rilkiana da perfeição do efêmero e do “uma vez para cada coisa” não se deve à repetição eterna nietzschiana, mas à unicidade de cada momento da existência, que é o eco do coração único da Terra, e o Orfeu disperso é o deus que carrega uma lira, o centro inaudito de onde o canto nasce e escapa ao poeta.
    • O canto é o sopro de um outro, um voo em Deus, e o deus, outrora figura poderosa, agora se aproxima como se difundindo nas figuras inumeráveis e efêmeras da Terra, seu lugar não pode mais ser localizado, mas permanece uno, recolhido num único centro.
    • A divindade rilkiana é uno e difusa, um lugar que cura, o centro regenerador das coisas, mas é um lugar obscuro, silencioso e não localizável, que Rilke, numa carta, pretende deixar anônimo, chamando o abismo entre Deus e nós de “obscuridade de Deus”, seu apagamento no indizível.
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