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Prefácio
HAAR, Michel. Le Chant de la Terre. Heidegger et les assises de l’histoire de l’être. Paris: Herne, 1985
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Apesar da aparente justificação hegeliana pela continuidade histórica que culmina na tecnologia moderna, Heidegger sugere que a história do ser não se resume a um desdobramento lógico e totalizante, pois há uma dimensão de reserva e opacidade que escapa a essa totalização.
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A tecnologia atual realiza o antigo projeto metafísico de buscar uma presença imutável, mas essa realização não implica o fim da história como desvelamento total, já que cada época histórica, sendo um “epoché”, é marcada por uma finitude radical que retém e oculta possibilidades que não se manifestam nela.
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O que é excluído ou encoberto em uma época não é uma figura determinada, mas pertence ao destino e permanece impenetrável para a própria época, que se experiencia como plena e ilimitada, sendo impossível para ela imaginar as diferentes possibilidades que lhe são inacessíveis.
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O recolhimento mais radical não é o de algo que deixou de ter efeitos ou que é previsível, mas sim o de uma ausência inimaginável e invivível que, ao se dar continuamente, constitui a história como destino, preservando tanto o original quanto o futuro.
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O ser, como começo que não cessa de acontecer, não pode se tornar um mero momento da história, e a descoberta do limite onde a história do ser retorna sobre si mesma é o que Heidegger chama de Ereignis, o evento de apropriação que revela a não-coincidência da história consigo mesma.
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O Ereignis, sendo ahistórico e além do destino, não pertence a nenhuma época e não inaugura um novo princípio histórico, mas permite um pensamento fora da história do ser, evitando o niilismo de uma desconstrução que se limita a percorrer os limites da metafísica.
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Essa experiência não metafísica do mundo, que ocorre paralelamente à ordem tecnológica, não é uma invocação nostálgica, mas encontra seu fundamento nas coisas simples do mundo, como o jarro, que abrem um mundo e participam do brotar obscuro da terra onde o histórico encontra seu limite.
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O indivíduo não é concebido como um limite para a história, pois está subjugado aos princípios dominantes da época, e a tensão entre o pensamento meditativo e o calculista não faz da vida privada o espaço do não-histórico, sendo o acesso ao Ereignis possível apenas após a travessia completa da história da metafísica.
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As fundações científico-tecnológicas, derivadas dos primeiros princípios da filosofia, não são o solo firme sobre o qual o homem habita, pois a terra, mesmo em sua fase planetária, oferece a experiência originária de um lugar, de uma pátria primordial, que se contrapõe ao espaço neutro da tecnocultura.
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A ameaça da tecnologia à terra e a crise universal da habitação decorrem da descontextualização do homem tecnológico, que perde o senso do próximo e do distante, e o esquecimento da terra implica o esquecimento do caráter local e regional do pensamento e da ação.
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A terra, embora histórica, não se reduz ao puro ser nem ao meramente histórico, pois se resguarda como o ser, preservando uma dimensão extra-epochal, e surge como o fundamento oculto e opaco do mundo, ao qual nosso corpo está necessariamente ligado, oferecendo a mais estável estabilidade.
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A terra não possui por si mesma o poder de dar fundamento, mas necessita de uma instituição da verdade, como na obra de arte, para se revelar, opondo-se assim a uma concepção romântica da natureza como fonte autônoma de criação, pois a natureza está no ser e não o ser na natureza.
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O conceito de terra, ausente em Ser e Tempo, é elucidado pela primeira vez na interpretação da obra de arte, que, por meio de um conflito entre mundo e terra, manifesta uma terra antes invisível, fazendo comunicar as significações de material e natureza, como no exemplo do templo grego que faz aparecer a natureza como um todo.
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A obra poética ou artística ilumina a habitação humana ao fundar expressamente o solo que sempre já nos suporta, revelando a natureza como algo historicamente determinado, seja como Physis para os gregos, seja como o solo nativo de um povo.
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