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Physis

HAAR, Michel. Le Chant de la Terre. Heidegger et les assises de l’histoire de l’être. Paris: Herne, 1985 / The song of the earth : Heidegger and the grounds of the history of being. Tr. Reginald Lilly. Bloomington: Indiana University Press, 1993.

  • O ensaio “A Origem da Obra de Arte” introduz o conceito de Terra como o suporte obscuro e que se resguarda, sendo aquilo para onde o surgir de tudo o que surge recolhe e abriga, distinguindo-se tanto da noção de um aglomerado de material quanto da noção astronômica de planeta.
    • O templo grego, ao resistir aos elementos e reunir um mundo em torno de si, revela os fenômenos naturais em seu ser e, ao mesmo tempo, faz aparecer a presença informe e obscura da Terra, que sustenta todas as coisas e é incessantemente negligenciada e reduzida a nada.
    • A Terra não se mostra por si mesma, pois necessita de um mundo para aparecer, sendo ao mesmo tempo acessível e inacessível, manifesta e encoberta na materialidade das coisas e das obras de arte, e não carrega o nome ou os nomes do ser dos entes em sua totalidade.
  • A identificação da física de Heráclito com a aletheia não visa restaurar o pensamento intemporal do filósofo, mas sim revelar seu “impensado”, segundo o qual a física é o ser, embora o ser não seja simplesmente “físico”, estando a aletheia, como essência da física, numa relação de subordinação e maior radicalidade.
    • Heraclito ocupa uma posição ambígua na aurora da metafísica, pois, ao mesmo tempo em que determina a física como o ser dos entes em sua totalidade, escapa dela ao não nomear nenhum ente individual e ao incluir o encobrimento e o conflito dos contrários na unidade original de todas as coisas.
    • A física não designa um domínio específico de entes naturais, mas a totalidade dos entes, sendo o primeiro nome metafísico do ser dos entes, embora seu pensamento do puro surgir seja anterior e condição para a aparição de todos os modelos ônticos de crescimento e emergência.
  • A leitura do Fragmento 123 destaca uma vida interior da física, na qual o retrair-se não é uma dimensão oculta e separada, mas uma reserva que alimenta e preserva o emergir, e o “favor” que rege a física é o jogo mesmo do surgir e do retrair-se, marcando uma diferença que não se situa em época determinada da História do Ser.
    • O favor é o dom mais livre que ocorre como um momento de graça, sendo a essência da física e não um atributo de um evento, e indica que o desvelamento traz em si um encobrimento fecundo e “positivo” que lhe veda o seu desdobramento.
    • O favor é o equivalente não-epochal do envio do ser, sendo imemorial e, portanto, sem memória e sem esquecimento, e a interpretação de Heidegger, ao extrair a física da física para pensá-la segundo os traços do ser, acaba por ontologizar a natureza.
  • A interpretação de Hölderlin sobre a Natureza revela uma permanência trans-epochal da física, pois o poeta redescobre a abertura grega para além de qualquer distância histórica, compreendendo a Natureza como uma unidade harmoniosa que percorre a totalidade dos entes e é mais velha que o tempo e a história.
    • A Natureza hölderliniana, identificada com o Sagrado, não se restringe a um domínio “natural” distinto, mas é a fonte do tempo e da história, e sua beleza consiste em dar a cada aparecimento isolado, especialmente aos contrários, a tensão de sua pertença mútua, mantendo os extremos afastados.
    • O Sagrado é o ser da Natureza e é anterior aos deuses, sendo o dom primordial da presença que, como tal, é inabordável, e sua ambivalência de familiaridade e estranhamento exige a mediação do poeta para tornar o imediato acessível “sem risco”, transformando o terror do imediato na ternura da fala mediadora.
  • A permanência da física no Sagrado hölderliniano ocorre porque, em seu começo original, ela nunca entra na história, fundando-a a partir de uma anterioridade enigmática que a coloca como um princípio não histórico, “mais velho que o tempo e acima dos deuses”, que decide antecipadamente sobre o homem e os deuses.
    • O “caos” hölderliniano, como princípio abismal que persiste “sob” a história, não se identifica com a Terra heideggeriana, pois esta tem sua própria ordem e limites, não sendo nem Deus, nem o caos, nem a unidade dos dois, e Heidegger rejeita a ideia de uma Natureza originalmente indiferenciada.
    • Heidegger minimiza a conotação de “pânico” do termo caos em Hölderlin, interpretando-o como “abertura” e “gap”, o que pode ter diminuído a ênfase nos elementos não-gregos presentes no pensamento do poeta, como o asiático e o cristão.
  • O primeiro sentido do conceito de Terra está ligado à dimensão do retraimento e do encobrimento que vigora no desvelamento, mas ela não se identifica com o puro retraimento, manifestando-se no Aberto como o que se resguarda ao surgir, resistindo a toda tentativa de penetração calculadora e de elucidação exaustiva.
    • A Terra é “o que abriga ao vir à tona”, e seu modo de manifestação é regido por uma dualidade paradoxal: ela aparece como impenetrável, sendo latente abertamente e manifestamente oculta, e está engajada numa relação conflituosa com o mundo, seu contrário, pois precisa do Aberto do mundo para aparecer como Terra.
    • O conflito entre mundo e Terra não resulta em uma síntese dialética, mas é uma luta permanente, pois a Terra tende a desistoricizar as “decisões” do mundo, enquanto o mundo tende a anular o “fundamento”, e este conflito depende do conflito mais original entre clareira e encobrimento.
  • O segundo sentido da Terra corresponde ao que se chama usualmente de “natureza”, mas os seres naturais não têm subsistência própria, ocorrendo apenas num mundo e em relação a uma obra humana, embora mantenham uma “harmonia” ou “uníssono” que define a Terra em seu desdobramento fenomênico fora de qualquer finalidade.
    • A Terra não é uma pura passividade a ser informada, pois possui sua própria tendência de repelir o histórico e, segundo uma certa inclinação, de atraí-lo para seu lado, como a “terra de um povo”, que parece mais inclinada a receber certas formas e estilos de existência do que outros.
    • A luta entre mundo e Terra nunca aparece em si mesma, mas apenas nas ações e obras, e a essência desse conflito consiste em que todos os fatos, entes e eventos pertencem à História, mas algo do não-histórico deve continuamente entrar nessa História e também se retirar dela.
  • O terceiro sentido da Terra aparece no interior da obra de arte, onde o “material” não é uma matéria bruta à qual se impõem formas, mas o que emerge como algo fundamentalmente inutilizável que pertence à Terra e ao seu retraimento, fazendo manifestar a dimensão do encobrimento da verdade.
    • A obra de arte, ao instaurar um mundo e pôr a Terra em relevo, é a instigadora do conflito, e o tratamento artístico do “material” difere do utensílio, que subsumi o material sob o uso e oculta seu caráter de coisa atrás de sua função.
    • A obra de arte, ao fazer emergir o “material”, revela a beleza como verdade em relevo e torna sensível o fundamento não histórico do mundo, abrindo o domínio contrastante dos seres naturais, e está situada numa espécie de meio-termo entre a Terra e o mundo.
  • O quarto sentido da Terra evocado é o “solo natal” ou “fundamento da pátria”, que não se refere a um enraizamento biológico ou a um apego natural, mas à terra da morada, do habitar, que é “preservada” e não apenas equipada ou explorada, e cujo traço fundamental é a preservação.
    • O solo natal não é o local de nascimento empírico, mas a terra que se compreende e preserva, sendo o resultado de uma aliança entre a “natureza” dada pelo nascimento e a história, tanto escolha quanto destino, e o “nativo” é feito dessa mistura que não é “natural”, mas escolhida e aprendida.
    • O “lar” não é dado de uma vez por todas, mas pede para ser escolhido e adotado, e a Terra como Heimat significa a Terra da casa, da morada, que é incorporada e “preservada”, rejeitando as ideologias racistas de “sangue e solo” e qualquer misticismo do lugar factualmente nativo.
  • Os diferentes sentidos do conceito de Terra são unificados pelo pensamento de um fundamento não fundador, que não dá “causas” ou “razões de ser” às figuras históricas, sendo uma reserva e recurso inapreensível que a tecnologia, em suas formas mais avançadas, mais persistentemente esquece por ser não formalizável e não exteriorizável.
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