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Natureza

HAAR, Michel. Le Chant de la Terre. Heidegger et les assises de l’histoire de l’être. Paris: Herne, 1985 / The song of the earth : Heidegger and the grounds of the history of being. Tr. Reginald Lilly. Bloomington: Indiana University Press, 1993.

  • A fenomenologia do Dasein desafia a obviedade da descendência humana da substância viva, afirmando que a natureza e a vida só são acessíveis dentro do mundo do Dasein, e que não se pode fundar o Dasein em uma “realidade viva” ontologicamente indeterminável.
    • A posição que recusa o biologismo e a ideia de uma realidade biológica fundamental como base para o homem se mantém desde os cursos anteriores a Ser e Tempo até os seminários finais, enfatizando que o corpo humano é essencialmente diferente de um organismo animal.
    • Toda experiência da natureza e do corpo se inscreve na abertura temporal e finita marcada pela morte, à qual o animal não pode se projetar, e a “proximidade ôntica” invocada por Fink não tem um sentido meramente espacial, mas de possibilidade e abertura.
  • Ser e Tempo se esforça em mostrar que o conceito de seres naturais não é originário, derivando indiretamente da experiência da disponibilidade prática das coisas que constituem a estrutura primordial do mundo.
    • A natureza é um caso-limite do ser dos entes possíveis dentro do mundo, e o conceito de mundo, no sentido existencial de rede de remissões práticas, é fundamental para a compreensão do fenômeno da natureza.
    • O conceito de uma “natureza pura” como ser simplesmente dado é derivado por uma diminuição do mais originário entendimento do ser-à-mão, que é o ser dos instrumentos e objetos de uso cotidiano, pressupondo uma “desmundanização” do mundo.
  • A relação imediata e “natural” é, na verdade, a relação com os seres equipamentais, e a natureza é primeiramente descoberta como o material do utensílio, como o elemento de suporte de um equipamento, sendo imediatamente instrumentalizada.
    • A natureza como subsistência pura se constitui num segundo momento, quando se desconsidera seu modo de ser como ser-à-mão, e apenas num terceiro momento ela é posta como força autônoma, antecipando a experiência original da física.
    • A natureza como algo que nos envolve e arrebata permanece oculta em relação aos modos de ser do ser-à-mão e do ser-simplesmente-dado, sugerindo que a mundaneidade implica uma cegueira em relação à física.
  • A natureza é inicialmente apreendida como o que beneficia ou obsta a utilização costumeira do mundo como rede instrumental, revelando-se como um sistema cultural encontrado em relação às práticas cotidianas, e não como um quadro natural autônomo.
    • O ser-à-mão das coisas do mundo não deve ser considerado uma qualidade subjetiva adicionada a um ser existente em si, mas a determinação original do mundo e dos entes, e a ciência chega a um conceito “puro” de seres subsistentes apenas através de uma abstração.
    • A “ruptura” ou “perturbação” das relações referenciais, como a inutilidade de uma ferramenta, revela o ser em si e o material bruto, e a natureza se revela como objeto de conhecimento quando o homem se desvia da preocupação direta com as coisas ao seu alcance.
  • A definição utilitária e prosaica de mundaneidade em Ser e Tempo, que reduz a natureza a um sentido derivado, é questionada pela constatação de que o Dasein nem sempre está absorvido no trabalho, e que a percepção simples e o devaneio podem não ser modos deficientes da relação equipamental.
    • A afirmação de que a percepção simples é um modo deficiente da relação com o equipamento, na qual o mundo se mostra desprovido de significação, é criticada por sua ênfase no trabalho como condição para a existência plena, aproximando-se de uma visão tecnológica do homem.
    • A experiência direta da natureza, como a beleza de um raio de sol ou o som das ondas, parece não envolver relação equipamental alguma, sugerindo que a análise de Ser e Tempo pode levar a uma visão sufocante de um mundo totalmente cego à Terra.
  • A análise da temporalidade em Ser e Tempo visa arrancar o Dasein do preconceito de sua inclusão no tempo biológico e natural, afirmando que a morte é um fenômeno fundamentalmente não natural, pois coloca o Dasein em relação com algo “não relativo”, sua própria possibilidade de não-mais-ser.
    • A morte como estrutura ontológica, o ser-para-a-morte, é perpétua e não se confunde com o perecimento biológico, sendo a capacidade de morrer como possibilidade de ser algo que só pode ter fundamento no ser, não na natureza.
    • A interpretação científica do falecimento como evento natural suprime o ser-para-a-morte e a temporalidade como junção extática do presente e do futuro, dependendo de um conceito de tempo linear e de uma compreensão inautêntica do ser.
  • A questão do fundamento do tempo natural é abordada pelo status dos relógios, e Heidegger argumenta que o relógio natural da alternância do dia e da noite, embora primitivo, não engendra o tempo mais próprio ao homem, que é sempre suspenso no presente.
    • O Dasein, ao olhar para um relógio, perde seu tempo, pois descobre apenas um tempo neutro e calculável, e a leitura do tempo num relógio solar não é a observação de um instrumento isolado, mas a projeção de um tempo para fazer algo.
    • O tempo da mundaneidade, orientado para os diversos engajamentos, é “anterior” a toda subjetividade e objetividade, e o tempo natural como série de agora é o tempo mais derivado e decadente, afastado do tempo original marcado pela presentificação e projeção no futuro.
  • A afirmação de que não há tempo natural, pois todo o tempo pertence essencialmente ao Dasein, é uma posição que, embora baseada numa desconstrução fenomenológica, permanece metafísica ao excluir a possibilidade de um tempo natural subsistente “em si mesmo”.
    • Os biorritmos, os anos-luz e as épocas geológicas, embora inteligíveis apenas em termos da nossa temporalidade, dificilmente podem ser definidos como construções exclusivamente derivadas do tempo do mundo, especialmente no que diz respeito ao ser-à-mão de galáxias.
    • A experiência de um encontro significativo com o sol ou com as sombras, independente de qualquer preocupação com o tempo do trabalho, sugere que há tonalidades no clima da hora que independem da medida ou do projeto.
    • Os anéis concêntricos de um tronco de árvore, que mostram uma estratificação do tempo visível e insondável, parecem completamente estranhos à nossa temporalidade, indicando um progresso lento e irresistível como o crescimento da física.
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