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Metafísica da Arte
A obra de arte. Ensaio sobre a ontologia das obras. Tr. Maria Helena Kühner. São Paulo: Difel, 2000
III - A Época da “Metafísica da Arte”
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O tema da metafísica da arte só emerge com o romantismo, expressão devida a Schopenhauer que subentende a arte em geral vista como o supremo modo de conhecimento, acesso privilegiado do ente ao ser, atividade metafísica por excelência, sendo o tema da total adequação Arte = Verdade comum aos românticos, a Schopenhauer, Schelling, Schlegel, Hölderlin, Novalis e também a Hegel
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Hegel critica a pretensão da arte de ser um saber imediato e intuitivo do absoluto, mas, embora para ele a arte não seja mais que o primeiro círculo do saber absoluto, ela pertence efetivamente a este Saber, cujo objetivo final não pode ser senão o de revelar a verdade
A emergência da arte como saber, mais tarde, com Nietzsche, como valor supremo, é consequência da ruptura operada pelo romantismo com a limitação kantiana da experiência à ordem dos fenômenos, sendo para os românticos a intuição intelectual, solução de todas as antinomias, realizada na obra de arte, ao mesmo tempo objeto e ideia-
A intuição estética é precisamente a intuição intelectual tornada objetiva, segundo Schelling, sendo a obra de arte o resultado de uma operação conjunta da natureza e do espírito, dada no artista considerado como gênio, resultado de uma coincidência entre o impulso natural inconsciente e a atividade consciente, livre, voluntária
O artista está acima ou aquém dos contrários, na origem das coisas, semelhante a Deus, ligando-se à origem das coisas para decifrar a natureza inteira como um hieróglifo ou como uma obra cujo segredo conhece, tendendo então a apagar-se a distinção entre a natureza e a obra de arte, como em Baudelaire, para quem a natureza é um templo em que pilastras vivas deixam escapar por vezes confusas palavrasEstabelece-se uma primazia do artista sobre a obra, mais claramente afirmada em Nietzsche, para quem, numa subjetividade genial, tudo pode tornar-se obra de arte, inclusive a própria vida do artista, sendo esta exaltação do autor em detrimento da obra, para Hegel, uma das causas da morte da arte, sendo outra causa, mais profunda, o esgotamento do conteúdo religioso da arte, relegada na metafísica do artista nietzschiana à categoria de simples meio de obter a exaltação do estado criador artístico1. Schelling: a arte como busca da identidade
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A arte é concebida por Schelling, em sua definição mais geral, como a perfeita síntese ou a identidade absoluta entre natureza e liberdade, o real e o ideal, síntese que não existe abstratamente na filosofia, mas concretamente em uma obra acabada, retomando Schelling o tema kantiano segundo o qual a obra se deve exclusivamente ao gênio, a quem a natureza dita regras que ele mesmo é incapaz de conhecer ou explicar
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Enquanto obra acabada, a arte representa de maneira imediata o infinito no finito, realizando a fusão completa do universal e do particular, sua formação-em-um-só, havendo na arte indiferença entre o universal e o particular, sendo este produto particular necessariamente um símbolo, razão pela qual toda arte é simbólica, e um poema que representasse apenas o particular não seria digno de ser considerado obra de arte
A identidade dos opostos que a arte revela sobre um fundo de inconsciente natural não é uma síntese construída a posteriori, mas a identidade original dos princípios, desaparecida desde a criação do mundo, principalmente a identidade da luz e da obscuridade, daí a função quase sacramental da arte de reencontrar uma harmonia perdida, imemorial, quase divinaEsta busca da identidade original pela arte forma o fio condutor de toda a filosofia da pintura de Schelling, que atribui importância fundamental ao claro-escuro, identidade em que luz e sombra se fundem a ponto de não serem mais que um corpo e uma alma, chamado de a alma da pintura ou a pintura dentro da pintura, por realizar a fusão da luz e da matéria e constituir meio-termo entre o desenho ideal e a cor material-
O claro-escuro faz aparecer o corpo como corpo, pois a luz e a sombra lhe revelam a espessura, não se satisfazendo o olho exclusivamente nem com a luz nem com a sombra, sendo o dégradé que distribui as massas de luz e sombra o que põe o olho em um estado de indiferença nascida da diferença
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Outra identidade é a da aparência e da verdade, sendo a pintura a arte na qual a aparência deve ser verdade e a verdade, aparência, não exigindo a arte que se renuncie à verdade, pois as gradações insensíveis de luz e sombra fazem parte da experiência perceptiva e podem ser descritas como um claro-escuro natural, que dá em pintura a perspectiva aérea
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A cor é definida como indiferenciação absoluta da matéria e da luz e, de modo mais difícil de compreender, como fusão completa do mortal e do imortal, sendo transmutação da matéria em luz e reciprocamente, nada permitindo distinguir metafisicamente o estatuto estético do tratamento artístico das cores de sua essência natural, eterna, pré-artística
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Apesar desta abstração, a filosofia da pintura de Schelling é rica em análises de detalhes, referindo-se tanto a pintores como Correggio, seu favorito, Leonardo da Vinci, Ticiano, Michelangelo e Rafael, quanto aos grandes gêneros pictóricos tradicionais: natureza-morta, pintura floral, de animais, paisagens, retratos, alegorias e quadros históricos
No Discurso sobre as artes plásticas de 1807, Schelling posiciona-se quanto à questão clássica da imitação da natureza, não podendo a arte representar simplesmente as formas exteriores das coisas como cascas vazias, mas tendo que reencontrar a força criadora que as fez nascer, este espírito da natureza que o artista deve tomar por modelo, ultrapassando assim a natureza real e remontando à natureza naturante, ao Ser verdadeiro, e encontrando uma beleza viva dotada de uma realidade insondável que a torna semelhante a uma obra da natureza2. Schopenhauer: a arte como conhecimento intuitivo
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Schopenhauer está mais próximo de Kant que de Hegel, isto é, mais próximo de uma estética preocupada com as transformações que o prazer estético produz no sujeito que de uma filosofia da arte centrada nas obras, voltando-se sua reflexão para o prazer estético, resultante do desinteresse do conhecimento em relação ao querer e de uma contemplação puramente objetiva das coisas apreendidas como ideias pelo sujeito tornado puro e impessoal
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A obra de arte não é mais que um meio destinado a facilitar o conhecimento da ideia, conhecimento que constitui o prazer estético, definindo-se a arte como um modo de conhecimento intuitivo, imediato, das Ideias
Schopenhauer distingue dois tipos de conhecimento correspondentes aos dois aspectos fundamentais do mundo, representação e vontade, objeto e sujeito: do ponto de vista da representação, submetida ao princípio da razão, o mundo é uma pluralidade de fenômenos; do ponto de vista da vontade, o mundo tem uma essência única da qual os fenômenos são manifestações diversas-
Antes de objetivar-se nos diversos fenômenos e de expressar-se na multiplicidade dos indivíduos, a vontade se objetiva em formas eternas, imutáveis, que não entram no espaço e no tempo, denominadas Ideias, modelos ou arquétipos das coisas particulares, realidades intermediárias entre a vontade una e a multiplicidade das individualidades
O prazer artístico, do qual a obra de arte não é mais que um meio, não passa de uma forma de prazer estético, o de perceber estas formas puras fora do tempo, do espaço e da individualidade, permanecendo o sentimento do belo essencialmente uno e idêntico, quer seja provocado por uma obra de arte, quer diretamente experimentado pela contemplação da natureza e da vidaSchopenhauer só se refere às diferentes artes depois de elaborar sua teoria do belo, classificando-as segundo seu grau de libertação em relação à materialidade e à necessidade natural, ordenando-se a partir da arquitetura, estreitamente submetida ao peso, até a poesia e a tragédia, passando pela escultura e pela pinturaQuanto à música, a arte mais elevada, ela não se situa na série das artes, sendo de uma essência inteiramente à parte, já que enquanto o artista nos faz remontar das coisas às Ideias que nelas se concretizam, o músico remonta diretamente à vontade, dispensando suas objetivações, sendo a música uma cópia tão imediata de toda a vontade quanto o é o mundo-
Cada nota da escala corresponde a diferentes níveis de objetivação do querer, refletindo a escala musical a escala dos seres na natureza: as notas mais graves aos corpos inorgânicos, as mais altas aos vegetais e animais, e as quatro vozes, baixo, tenor, contralto e soprano, aos quatro reinos mineral, vegetal, animal e humano, havendo ainda uma analogia entre a harmonia e a sucessão progressiva das espécies, e entre a melodia e o livre desenvolvimento da vontade individual ou do desejo
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A música seria a forma pura de todos os fenômenos, exprimindo o que há de metafísico no mundo físico, a coisa em si de cada fenômeno, por isso as melodias aclaram o próprio fundo da vontade e dos sentimentos
Por mais sedutora que esta teoria se mostre, pode-se questionar se ela não está querendo provar demasiado, pois se a essência da música fosse de ordem natural e física, o trabalho do músico estaria reduzido a uma simples transcrição, em detrimento da liberdade da arte, anulando a estética de Schopenhauer a diferença entre arte e natureza, já que nada permite distinguir metafisicamente a Ideia contemplada graças a uma obra de arte e a Ideia espontaneamente descoberta a partir da bela natureza3. Os pressupostos do sistema hegeliano das artes
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A Estética de Hegel oferece uma vigorosa interpretação do desenvolvimento histórico das diferentes artes, fundamentada em certos pressupostos metafísicos resultantes do sistema hegeliano
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A arte, como tal, é um saber, havendo na arte um conhecimento do Espírito absoluto, mas este conhecimento é apenas imediato ou intuitivo, atingindo a arte a verdade absoluta mas apreendendo-a sob a forma direta da intuição ou do sentimento, sem concebê-la, ocupando assim o mesmo nível que a filosofia e a religião mas permanecendo como saber direto manifestado no sensível
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A arte é unidade do sensível e do espiritual, da natureza e do espírito, compreendendo-se a obra de arte como encarnação de um conteúdo de pensamento em uma forma sensível, não sendo a aparência artística uma ilusão, mas constituindo um momento essencial da essência, sem que a unidade do interior e do exterior signifique necessariamente adequação
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A adequação entre a forma sensível exterior e o conteúdo será característica da arte clássica, da arte grega, ao passo que a arte simbólica, oriental, asiática ou egípcia, caracteriza-se pela predominância do exterior sobre o interior, e a arte romântica, cristã, pelo triunfo do interno sobre o externo
O conteúdo da arte é a religião, sendo o divino, os deuses ou Deus, o que constitui o centro em torno do qual a arte gravita, sem que isso signifique que a arte não possa expressar mais que uma teologia explícita, participando com o cristianismo a interioridade puramente humana do divino, como no sentimento do amor, tema essencial da pintura para Hegel, seguindo o desenvolvimento da arte o da religião em seus três grandes momentos-
À religião da natureza corresponde uma arte simbólica e o primado da arquitetura, divinizando o Espírito os objetos naturais e representando-os como símbolos de uma divindade impossível de ser apreendida, ampliando-se as formas de maneira colossal e desmesurada sem conseguir expressar adequadamente o conteúdo espiritual, como testemunha a pirâmide, inadequação entre uma forma geométrica abstrata sem alma e o conteúdo espiritual que ela deve simbolizar, a imortalidade de uma alma individual
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Ao politeísmo da religião grega corresponde a arte clássica, que dá a primazia à escultura, realizando esta a identidade completa entre o conteúdo, o deus particular, e a forma corporal humana sob a qual ele aparece, correspondendo cada deus individual a um ideal — a majestade, a serenidade, a força, a beleza — representável por uma forma corporal relativamente abstrata e pouco individualizada
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À religião cristã corresponde a arte romântica, que dá lugar às três artes subjetivas — pintura, música, poesia —, fazendo do mundo exterior apenas o acidental, o simbólico em relação ao essencial, que é a subjetividade dotada de interioridade infinita à imagem de Deus feito homem, não estando o conteúdo espiritual mais limitado a um ideal, mas distribuído entre almas particulares
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Ao possibilitar a síntese suprema do Deus-feito-Homem, a religião cristã torna possível a realização da essência verdadeira da arte como síntese do sensível e do espiritual na interioridade, mas a era cristã anuncia também o fim da arte, na medida em que a subjetividade absoluta se revela tão interior que escapa à representação sensível, marcando Hegel nas três artes uma progressão no sentido de abandonar o material sensível: a pintura trabalha sobre um espaço cada vez mais abstrato, a música expressa uma interioridade igualmente abstrata, e a poesia destaca-se cada vez mais de seu suporte verbal
A célebre tese hegeliana afirma que, quanto a seu destino supremo, a arte continua sendo para nós uma coisa do passado, não sendo mais para nós a forma mais elevada pela qual a verdade afirma sua existência, o que significa que a arte perdeu a função metafísica que lhe era própria, de conciliar a natureza e a realidade finita com a infinita liberdade do pensamento, solicitando de agora em diante a obra de arte apenas o veredicto de nosso pensamento-
A arte não morre apenas por ter cedido seu lugar à filosofia, morrendo também por si mesma quando, pela lógica de seu próprio desenvolvimento, mergulha na particularidade, não se interessando mais senão pelos detalhes mais acidentais, ínfimos ou sórdidos, perdendo de vista todo interesse universal, morrendo ainda quando o artista põe a expressão de sua subjetividade acima do conteúdo, buscando simplesmente exibir seu virtuosismo e seu talento para fazer-se admirar
4. As três épocas da arte
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O sistema hegeliano das artes baseia-se no princípio do progresso das artes no sentido de uma expressão cada vez mais clara, cada vez menos simbólica, de uma verdade cada vez mais interior ao sujeito humano, resultando a perfeição de uma obra ao mesmo tempo da profundidade de seu conteúdo em ideias e da adequação da forma sensível a este conteúdo
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Desde a arquitetura, pobre em ideias e materialmente pesada, até a poesia, capaz de expressar todo e qualquer pensamento com a matéria da linguagem, a arte liberta-se cada vez mais da forma sensível, caminhando a evolução das artes no sentido de uma abstração crescente, daí o perigo que ameaça a poesia, arte mais evoluída, de perder sua base sensível, reduzindo-se as sonoridades das palavras a não serem mais que signos em vez de símbolos
Cada uma das formas de arte corresponde a uma tensão única entre o conteúdo e a forma sensível: quanto mais abstrata for a ideia, mais concreta será a forma, e quanto mais a ideia se concretiza, mais a forma se torna abstrata, estando a maior parte da história da arte marcada pela inadequação entre a aparência exterior e a significação interna, sendo das três épocas — simbólica ou oriental, clássica ou grega, romântica ou cristã — somente a clássica capaz de atingir a adequação da ideia e de sua expressão, na finitude da forma humana considerada como encarnação do divinoA arte simbólica, correspondente ao panteísmo das religiões orientais, caracteriza-se por uma inquietude, uma violência devoradora, pela qual uma ideia abstrata, a da liberdade e potência infinitas da natureza, busca encarnar-se em formas naturais insuficientes para expressar este universal, maltratando-as ao alongá-las desmedidamente até o gigantesco e o colossal, ao multiplicá-las, ou ao desfigurá-las no sentido do monstruoso ou do grotesco, não fazendo parte do belo mas do sublimeA arte clássica, da livre adequação entre a forma e o conceito, satisfaz-se com o finito, sob a dupla espécie da forma do corpo humano e da individualidade espiritual de tal ou qual deus, sendo o domínio da beleza antropocêntrica que volta as costas à natureza-
A falha e a insuficiência da arte grega são de natureza teológica: a natureza humana e a natureza divina não estão verdadeiramente reconciliadas, interiormente unificadas, sendo sua unidade apenas intuitiva e sensível, na forma do corpo dos deuses, faltando conquistar aquela unidade independentemente do sensível, na interioridade do espírito, daí uma ruptura necessária e um retorno ao simbolismo
A arte romântica tem por base a subjetividade, a unidade consciente entre o humano e o divino, repousando na consciência e no conhecimento deste em-si que se torna em-si e para-si, fazendo da interioridade concreta seu conteúdo, sua ideia, perfeita e absoluta ao contrário da ideia simbólica do infinito, por coincidir com a totalidade dos sentimentos humanos-
Sua falha é que o sensível, o externo, é tratado como elemento acidental, não-essencial, tornando-se a forma, a representação exterior, simbólica, podendo a fantasia mais desabrida ter livre curso e dar lugar a uma procura arbitrária do singular, do fantástico, do absurdo, do grotesco, estando o perigo em que esta arte se afaste de sua vocação de expressar a verdade divina da interioridade e mergulhe na pintura de excentricidades, caracteres e comportamentos puramente individuais, o que faz a arte perecer
5. O progresso das artes
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A arquitetura, arte simbólica, apresenta relação puramente exterior e inadequada entre conteúdo e forma, sendo o conteúdo duplo: oferecer ao deus uma morada e exteriorizar o querer-estar-juntos da comunidade religiosa, tomadas as formas de empréstimo à natureza objetiva, modeladas as pesadas massas de pedra segundo leis puramente abstratas do equilíbrio
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A escultura, arte clássica, realiza a identidade completa entre o conteúdo, o deus particular, e a forma corporal humana sob a qual ele aparece, fazendo o deus entrar no templo ao penetrar a massa inerte com o brilho da individualidade, expressando-se a espiritualidade do deus na imanência pura, no perfeito repouso de sua forma, mostrada a estátua encerrada na plenitude de sua unidade consigo mesma, em estado de calma serena e bem-aventurada
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A escultura clássica grega recusa-se a perder-se nos acidentes, não apresentando ao exterior mais que a forma abstrata da interioridade humana, dividida em inúmeras individualidades ideais, como as divindades do amor, da guerra, da força e da justiça
A arte romântica separa-se novamente da exterioridade, rompendo a unidade entre conteúdo e forma, assumindo como conteúdo a representação da subjetividade particularizada, fragmentando-se o divino em uma multiplicidade de individualidades concretas que podem, cada uma, pretender encarnar o absoluto-
Para expressar o imenso domínio da particularidade, a arte romântica serve-se de três elementos de subjetivação: o espaço, transformado em visibilidade abstrata pela pintura, já que as massas são simbolizadas pelo claro e o escuro, as três dimensões reduzem-se a duas, e a vida e os sentimentos são simbolizados pela cor; o tempo, transformado pela música em relações de audibilidade abstrata próprias a expressar os sentimentos; e a poesia, que se serve dos sons da linguagem não mais como símbolos, mas como signos da representação, dominando completamente o elemento sensível já submetido à abstração pela pintura e pela música, situando-se por isso no limite extremo do domínio da arte, no momento em que está a ponto de evoluir em direção ao pensamento filosófico ou científico
A interpretação da pintura dada por Hegel mostra a força, mas também os limites de uma estética do conteúdo, dando muito maior peso aos motivos e temas pictóricos, como o amor religioso em Rafael ou a alegria de viver na pintura holandesa, do que às obras em que estes motivos aparecem e à sua composição, ficando as explanações sobre a cor, o claro-escuro ou a perspectiva extremamente gerais e abstratas, de modo que a estética hegeliana, à força de isolar o conteúdo, acaba deixando de lado a forma como elemento superficial e acessórioestudos/haar/arte/metafisica.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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