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Imitação da Natureza

A obra de arte. Ensaio sobre a ontologia das obras. Tr. Maria Helena Kühner. São Paulo: Difel, 2000

I - Imitação da Natureza

  • A depreciação ontológica da arte operada por Platão no Livro X de A República situa-se na noção de mimèsis, já que a arte é imitação de uma aparência ou de uma imagem, e não de uma realidade, encontrando-se no terceiro nível de distanciamento em relação à verdade, sendo a semelhança artística sempre falsa e a similitude enganosa
  • A tradição manterá a noção de mimesis despojando-a progressivamente de sua conotação pejorativa, de modo que em Aristóteles ela passa a significar a representação obtida segundo a regra da adequação, podendo um retrato ser verdadeiro por ser idêntico e adequado ao modelo

1. A depreciação platônica da arte

  • A imagem artística mostra-se duplamente inadequada, tanto ao ser quanto ao ente, como ilustra a comparação entre a cama feita por um marceneiro e a cama pintada por um pintor
    • O artesão que fabrica uma cama tem por referência a idéia de cama e submete-se às condições de sua utilização, enquanto o pintor contenta-se com traços e sombras que indicam apenas a aparência da materialidade, sem necessidade de remontar à Ideia
    • Platão funda-se no postulado realista de que uma cama utilizável é superior a uma cama que só pode ser olhada, sempre por um mesmo ângulo, condenando a arte como inadequada tanto ao ente quanto ao ser
  • A arte não seria ao menos respeitável por ser difícil, mas Sócrates argumenta que nada é mais simples que produzir como o faz um artista, bastando pegar um espelho e passeá-lo em todos os sentidos para fazer surgir aparências de todas as coisas
    • A teoria do espelho esvazia toda a materialidade da arte, comparando o artista a um charlatão desprovido de qualquer ofício, capaz de produzir apenas aparências e não entes de verdade, como demonstra o diálogo entre Sócrates e Glauco em A República, 596 d-e
    • O pintor produz uma cama aparente e inconsistente, enquanto o marceneiro, mesmo não produzindo a Forma em si mas apenas uma determinada cama, produz verdadeiramente uma cama
  • Estabelece-se uma hierarquia de três camas: a primeira, existente por natureza, é o Protótipo controlado pelo próprio deus; a segunda é fabricada pelo marceneiro; a terceira é pintada pelo pintor, correspondendo a imitação da natureza, para Platão, à imitação da eidos, da Ideia
    • Há três espécies de agentes que presidem aos três modos de presença do ser: o deus, chamado phytourgos, que deixa aparecer a natureza; o artesão, dèmiourgos klinès, que faz aparecer na madeira o objeto singular correspondente à idéia; e o pintor, que apenas obscurece pesadamente a eidos através da matéria da cor e do ângulo redutor sob o qual apresenta o objeto
  • O quadro constitui a terceira produção, a terceira a partir da natureza, sendo o imitador, mimetes, aquele que preside a este terceiro grau de afastamento em relação à verdade, merecendo o nome de operário da imagem por propor-se a representar a cama tal qual parece, e não tal qual é
  • Nem o artista possui saber a respeito daquilo que imita, pois assim como não se aprende a fazer uma cama com um pintor, não se aprende a curar com um poeta que cante sobre uma cura, sendo os poetas incapazes de explicar o que imitam
    • Homero fala da guerra, do comando dos exércitos, do governo das cidades e da educação dos homens sem ser capaz de fornecer qualquer princípio relativo a essas técnicas, não possuindo o poeta nem conhecimento nem opinião correta a respeito das coisas que imita
  • Este requisitório, que exclui a arte da cidade como algo inútil e incapaz de ensinar por não se fundamentar em conhecimento verdadeiro, conclui-se no que Platão chama de o mais grave dos malefícios da poesia, já que a tragédia, fazendo ter prazer com o espetáculo da desgraça, enfraquece o elemento racional presente em nós
    • Os poetas adulam o elemento desarrazoado da alma sem ensinar nada sobre o mundo nem sobre como tornar-se melhor, condenando Platão a arte em nome do realismo e do bom senso, relacionando-a com a infantilidade, ao afirmar que a imitação não é mais que uma espécie de jogo infantil desprovido de seriedade, e que a arte trágica nos faz amar a imoralidade, as paixões e os crimes
  • A animosidade de Platão em relação à arte está, segundo sugere Nietzsche em O nascimento da tragédia, ligada a uma espécie de ciúme e à vontade de criar, com seus Diálogos, uma forma literária nova capaz de eclipsar a tragédia

2. Apologia da arte egípcia

  • Platão busca lutar contra a orientação aberrante que a arte de seu tempo, sobretudo no campo das artes plásticas, cada vez mais toma pelo caminho do perspectivismo, visando a uma restituição ilusionista das aparências que faz do olhar do espectador a medida da beleza e da verdade
    • A arte grega do século V corrige as formas e as proporções segundo o ponto de vista do espectador, como no caso das partes superiores de uma estátua colocada no frontispício de um templo, aumentadas para que, vistas de baixo, não pareçam menores que as inferiores
  • O episódio do concurso entre Fídias e o jovem escultor Alcamene ilustra esse efeito de distanciamento: as estátuas de Palas Atenéia, ainda não alçadas à sua altura devida, fizeram a de Fídias parecer grosseira e provocar vaias, mas uma vez suspensas ambas, apenas a de Fídias pareceu bem-sucedida, fazendo Alcamene perder o concurso
  • Tais deformações, destinadas a compensar efeitos de ótica, eram correntes na arquitetura, na escultura e na pintura gregas, como na grossura da parte de baixo das colunas dos templos e nas formas elípticas que substituíam as circulares para manter a ilusão de círculos, sendo célebre o episódio das uvas pintadas por Zêuxis, tão naturais que enganavam os pombos
  • Ao opor, em O sofista, a arte grega e a arte egípcia sem nomeá-las, Platão distingue duas formas de arte imitativa: a arte da cópia, eikastike techne, que reproduz as verdadeiras proporções e dá a cada parte as cores apropriadas, e a arte do simulacro, phantastike techne, que renuncia a reproduzir as verdadeiras proporções em favor das que parecem belas, repousando sobre a ilusão ou a imaginação
    • Enquanto a arte grega está submissa à doxa, contentando-se com a aparência e originando-se da arte do simulacro, a arte da cópia respeita a essência do modelo, reproduzindo-o tal qual é em si mesmo, sem procurar enganar, sendo esta a arte egípcia, hierática e desdenhosa do espectador, que guardou os mesmos cânones durante milênios, como exalta Platão em As leis ao descrever templos onde pinturas e esculturas de dez mil anos não são nem mais belas nem mais feias que as atuais
  • A arte egípcia não visa a agradar o ponto de vista do espectador, pois não é o homem a medida das coisas representadas, mas as coisas elas mesmas, esforçando-se o artista egípcio por identificar-se com as figuras representadas em uma proximidade sem distância, negligenciando a perspectiva e o relevo pictorial que os gregos chamavam de skiagraphia
    • Os corpos são apresentados em repouso, submetidos a uma lei de simetria invariável, divididos por uma linha ideal da fronte ao entrepernas, em poses limitadas, fixas e por vezes totalmente anti-realistas, como a cabeça e as pernas de perfil combinadas ao peito e aos braços de frente, obedecendo o artista a cânones estritos e a uma divisão prévia da superfície em quadrados de igual dimensão, tanto na pintura quanto na escultura
  • A função da estátua egípcia não era representar uma individualidade, mas apresentar sua essência intemporal, estando ligada à crença religiosa na sobrevivência de um duplo do corpo, o ka, que podia residir na estátua do defunto até sua eventual reencarnação
  • Mais que a arte grega, a arte egípcia é profundamente religiosa, confirmando o ponto de vista de Hegel segundo o qual é a verdade divina que a arte oferece à contemplação intuitiva e ao sentimento, sendo, como diz Panofsky, não imitação, mas reconstrução da eidos do defunto, de modo que qualquer realismo ou preocupação de detalhes seria supérfluo diante da exaltação do eterno, ficando o prazer do espectador absolutamente secundário
  • À diferença dos cânones imutáveis da arte egípcia, os cânones da arte grega evoluíram consideravelmente, tendo que conciliar três exigências: a geométrica e normativa das proporções ideais e da harmonia do corpo, a do realismo quanto à fidelidade individual e às variações anatômicas, e a estética da satisfação visual do espectador
    • Em relação à exigência normativa buscada por um Policleto, foi o realismo e mesmo o naturalismo que prevaleceu, predominando a arte da aparência ilusória sobre a arte da cópia, ainda que a mimesis das aparências permanecesse temperada pela busca de um modelo ideal, terceira via não imaginada por Platão, até que na arte helênica o realismo, o sentimentalismo e a sofística do trompe-l'oeil eclipsassem a busca da beleza em si em favor do mimetismo à maneira de Zêuxis, o que permite compreender retrospectivamente a atitude reacionária de Platão como pressentimento de uma decadência próxima

3. Aristóteles: a legitimação da mimesis

  • Apoiando-se na autoridade de Aristóteles em sua Poética, uma longa tradição esforça-se por demonstrar a legitimidade da imitação, já que Aristóteles não contesta que a arte seja imitação, mas reabilita a imitação como natural e portanto verdadeira, relacionando na Poética (1448 b) a origem da poesia a duas causas naturais: a tendência a imitar e o prazer natural sentido com as imitações
    • A arte emerge de uma espontaneidade natural pré-artística, produzindo uma esfera própria que não é de forma alguma inferior à natureza, já que a fórmula da Physique segundo a qual a arte imita a natureza não significa que deva reproduzi-la ou copiá-la, mas que é capaz de rivalizar com ela, de produzir como ela, constituindo a imitação artística um modo de produção autônomo análogo à produtividade criadora de formas da natureza
  • Aristóteles não limita a imitação a uma representação do que as coisas são, sendo legítimo imitar também o que as coisas parecem ser, o verossímil, ou o que deveriam ser, o ideal, distinguindo em 1460 b 7 três maneiras fundamentais de imitar: representar as coisas como foram ou são na realidade, como parecem ou se diz serem, ou como deveriam ser
    • É legítimo que um pintor como Zêuxis tenha pintado os homens mais belos do que são, pois a semelhança não exclui o embelezamento, vindo a imitação frequentemente associada à invenção, já que não compete ao poeta narrar o que realmente aconteceu, mas o que poderia ter acontecido (1451 a 9), havendo assim um possível artístico ligado à coerência interna e à generalidade da imitação, o que faz a poesia mais filosófica que a história
  • A arte deve imitar sem submeter-se a uma exatidão factual, valendo a célebre regra da verossimilhança segundo a qual é melhor preferir o impossível verossímil ao possível inacreditável (1460 a)
  • Aristóteles é o primeiro filósofo a analisar a natureza do prazer estético, que implica uma relação de conhecimento, sendo uma satisfação nascida do reconhecimento do objeto imitado, como afirma a Poética (1448 b) ao dizer que temos prazer ao ver imagens porque aprendemos ao vê-las e deduzimos algo daquilo que representam
    • O prazer estético, natural, universal e legítimo, deve-se ao fato de que a obra de arte apela a um raciocínio que nos faz comparar o retrato a seu modelo, pouco importando que o objeto representado seja belo ou feio, sendo contrariamente a Platão a arte não ignorância, mas ampliação do conhecimento, como expresso em 1971 b ao afirmar que experimentamos prazer diante das imitações fielmente representadas mesmo quando o objeto não é por si atraente, por identificá-las através de um raciocínio silogístico que acrescenta conhecimento
    • O prazer estético não é sensação nem ilusão, mas a satisfação que acompanha o juízo pelo qual se descobre a conformidade, a semelhança entre a obra e o que ela representa
  • Apesar desta legitimação, a condenação platônica ressurgirá inúmeras vezes na cultura ocidental sob a forma de suspeita ou reprovação moral que engloba a arte, os artistas e seu modo de vida pretensamente dissoluto
    • Na Inglaterra o puritanismo conseguiu, em 1642, o fechamento dos teatros, sendo a instituição da censura extremamente antiga e persistente, já existindo desde Atenas, exercida pela Igreja e depois organizada por Richelieu como aparelho do Estado, não se podendo esquecer o processo contra Flaubert por Madame Bovary, em que foi absolvido, e o de Baudelaire por As flores do mal, em que foi condenado
    • Embora a censura teatral tenha hoje deixado de existir, a censura cinematográfica continua atuante sob o pretexto de defender a juventude contra o vício, a indecência, a irrisão e o crime, propondo sua existência a questão de saber se a arte deve ser edificante e se a moral pode legislar sobre ela e denunciá-la como imoral e perigosa
    • Platão era mais radical, admitindo em As leis, na cidade ideal, apenas a música e a poesia que fossem imitação da virtude e do bem
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