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Responsabilidade (Die Verantwortung / die Überantwortung)
- Críticas que acusam Heidegger de negligenciar exigência ética de pensar a responsabilidade ignoram que projeto da Analítica do Dasein é tentativa audaciosa de abordar origem da responsabilidade.
- Estrutura existencial da responsabilidade está inscrita desde exposição inicial da estrutura de ser do Dasein no §9 de Ser e Tempo.
- Caracterização do Dasein como sendo que somos nós mesmos e cujo ser é ser-a-cada-vez-meu.
- Determinação essencial: Como sendo deste ser, ele é entregue à responsabilidade de seu próprio ser (seinem eigenen Sein überantwortet).
- Consequência: É do ser que, a cada vez, para este sendo mesmo, se trata.
- Desta característica deriva duplo traço constitutivo do Dasein.
- A essência (Wesen) deste sendo reside em seu ter-de-ser (Zu-sein), ou seja, a essência do ser-aí reside em sua existência.
- O ser de que se trata para este sendo em seu ser é a-cada-vez-meu (je meines).
- Singularidade paradoxal do modo de ser do Dasein no interior do ente e do Ser se manifesta por esta dupla determinação.
- Ser-aí não pode ser apreendido ontologicamente como caso ou exemplar de algum gênero do ente simplesmente presente.
- Caráter existencial de seu modo de ser o subtrai desde já à captura categorial de tipo genérico.
- Para o ente simplesmente presente, o ser não pode ser nem indiferente nem não-indiferente.
- Para o Dasein, a ex-sistência implica uma relação não indiferente com seu próprio ser.
- Excepcionalidade do Dasein decorre de sua ex-staticidade temporal e abertura ao mundo, ao Ser e à verdade.
- Esta excepcionalidade confere-lhe exemplaridade para acesso à questão do Ser.
- Toda fala dirigida ao ser-aí deve, em razão do caráter de a-cada-vez-minhidade (Jemeinigkeit), incluir constantemente o pronome pessoal: eu sou, tu és.
- Modo de ser singular da ex-sistencialidade ex-stática do ser-aí expõe o humano à necessidade aí-essencial de responder por si mesmo.
- Exposição interna ao humano, entre todos os entes, implica ter de responder de si mesmo perante si mesmo em toda sua ipseidade (Selbstheit).
- Esta é a estrutura existencial da responsabilidade (Verantwortung), que é também estrutura da liberdade.
- Estrutura existencial da responsabilidade articula-se com a do ser-em-culpa e da culpabilidade do Dasein.
- No cerne desta culpabilidade faz-se ouvir distintamente a voz da consciência (die Stimme des Gewissens).
- Ser e Tempo tematiza-a como o apelo da cura (der Ruf der Sorge) nos parágrafos 56-57.
- Exame aprofundado deste aspecto da estrutura da cura é realizado no importante capítulo II da segunda seção de Ser e Tempo (§54 a 60).
- Exame visa possível atestação de um poder-ser autêntico do ente insigne que, entre todos, tem de ser no modo do ser-aí.
- Esta parte foi longamente ignorada pela recepção francófona devido à suspensão histórica da primeira tradução francesa após o §44.
- Estrutura da Überantwortung (entrega à responsabilidade) fundamenta toda a estrutura existencial da cura, mesmo com sua ausência nas traduções francesas.
- Menção à estrutura da Überantwortung no §9, decisiva e inaugural, desapareceu indevidamente das traduções francesas.
- No entanto, estrutura segundo a qual o ser-aí é entregue à responsabilidade de seu próprio ser sustenta todo o edifício da analítica existencial.
- Implicação fundamental: o humano não pode ser desonerado de sua própria responsabilidade.
- A responsabilidade de seu ser só pode, em última instância, caber a ele mesmo, em plena ipseidade.
- Consequência para a fenomenologia da consciência: o apelo da cura só pode falar a cada um no modo da interpelação e da voz da consciência.
- Este apelo fala com os acentos da própria voz do Dasein, mas de uma voz que se tornou estrangeira e estranhamente silenciosa.
- Voz impossível de não reconhecer, mesmo quando se lhe opõe uma forma de fazer ouvidos moucos que, no fundo, sempre a ouviu demasiado bem.
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