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Janus
- Transformação do Ser no Acontecimento e a questão da Kehre.
- No final do Seminário sobre a conferência Tempo e Ser, sob a estranha designação a transformação do Ser no Acontecimento [die Verwandlung des Seins ins Ereignis], é considerada a surpreendente mudança da relação com o Ser que poderia dar lugar ao outro pensar: o do pensamento de Ereignis.
- Trata-se da questão da Kehre, na medida em que concerne a configuração do caminho de 'Ser e Tempo' a 'Tempo e Ser' – e daí até Ereignis.
- A lei de curvatura desse caminho é aquela ao longo da qual se cumpre a mutação (ou metamorfose) do Ser em Ereignis.
- As palavras mutação e metamorfose (Wandlung e Verwandlung) e seu duplo uso.
- De cunho metafísico, aplicam-se primeiro às figuras cambiantes nas quais o Ser se manifesta de modo epocalmente historial, ao longo das diferentes fases (ou épocas) da história da metafísica.
- Esta sequência de épocas deve ser doravante reafirmada, na aventura da história do Ser, como uma livre sequência – eine freie Folge – e não como um encadeamento de necessidade causal.
- O retraimento do Ser e sua relação com as mutações epocais.
- Se a história da metafísica, considerada à luz da história do Ser, deve aparecer como a história do esquecimento do Ser que não cessa de crescer, é no sentido em que poderia finalmente se deixar discernir uma espécie de relação [Verhältnis] secretamente sustentada entre as mutações epocais do Ser, de um lado, e o que é preciso doravante considerar pensar como o retraimento do Ser.
- Heidegger: Entre as mutações epocais do Ser e o que dele é o retraimento [Entzug], deixa-se entrever uma relação [Verhältnis] que não é de causalidade. O que se pode dizer é que, quanto mais nos afastamos da aurora do pensamento ocidental, da aletheia, mais esta entra no esquecimento, e mais distintamente o saber, a consciência [Bewußtsein], se põem em evidência – enquanto o Ser se retrai. Este retraimento do Ser permanece, ademais, em retraimento [verborgen].
- Distinção entre mutação metafísica e metamorfose em Ereignis.
- Da acepção da mutação que se diz com respeito à perspectiva da metafísica, resta então distinguir de maneira nítida aquela que é visada quando se diz que o Ser é transformado, metamorfoseado [verwandelt] – a saber: mudado em Ereignis.
- Aqui, não se trata mais de uma manifestação comparável à das diversas figuras metafísicas do Ser, e que lhes sucedeu – como uma nova figura. Isso quer dizer antes que o Ser – e com ele o conjunto de suas revelações epocais – está aí contido, na dispensação, mas que se encontra também, como dispensação, recolhido [zurückgenommen] no Ereignis.
- Ge-stell como estação intermediária e cabeça de Janus.
- É precisamente nessa articulação decisiva entre a sequência das figuras epocais do Ser e a mutação constitutiva da transmutação de Ser em Ereignis que se abre a consideração de Ge-stell, do aître da técnica ao perigo de seu duplo aspecto – com referência a uma misteriosa cabeça de Janus.
- Heidegger: Entre as figuras epocais do Ser e a transmutação [Verwandlung] do Ser no Ereignis, se encontra Ge-stell. O qual é como uma estação intermediária, oferece um duplo aspecto [bietet einen doppelten Anblick], é – poder-se-ia dizer – uma cabeça de Janus [einen Januskopf]. Ele [Ge-stell] pode ainda, de fato, ser entendido como uma continuação mais adiante da vontade de vontade, e por isso como uma extrema marcação do Ser [als eine äußerste Ausprägung des Seins]. Mas é, porém, ao mesmo tempo uma prefiguração do próprio Ereignis [eine Vorform des Ereignisses selbst].
- A ambiguidade de Ge-stell: estado terminal e prelúdio.
- Ge-stell, o aître mesmo da técnica moderna tornada planetária, poderia um dia nos aparecer como um prelúdio àquilo que se chama Ereignis, abrindo assim, talvez, a ocasião de um despertar, uma saída para o esquecimento do Ser, e a eventualidade de uma entrada no séjour no Ereignis.
- Haveria assim no aître da técnica – no coração de Ge-stell – ao mesmo tempo a perspectiva aberta sobre o que parece ser o estado terminal [Endzustand] da história da metafísica, mas também a eventualidade (certamente, ainda bem precária) de algum outro pensar (o outro começo de pensar) certamente ainda preliminar, mas que desde já olha de antemão para o Ereignis – e por assim dizer lá preludia, no coração do abandono do Ser.
- Tal seria o duplo aspecto que oferece Ge-stell ao duplo rosto de Janus. Tal seria a ambiguidade aí-essencial, a duplicidade inerente ao aître da técnica planetária.
- Ge-stell como rosto do Ser e como passagem.
- Se Ge-Stell pode aparecer sob o emblema da cabeça de Janus, é porque o aître da técnica, em toda a ambiguidade que lhe é própria, oferece um duplo aspecto.
- Este duplo aspecto é manifestamente aquele cuja dupla perspectiva é aberta pelo duplo rosto tradicionalmente atribuído pela religião romana arcaica à figura do deus Janus.
- Ge-stell poderia ser o rosto do Ser – cujo outro aspecto (e talvez o avesso) não seria outro senão o próprio Ereignis.
- Um caminho indicado para conduzir à aproximação de Ereignis seria ir olhar até dentro do aître de Ge-stell, na medida em que este é uma transição, uma passagem da metafísica até o outro pensar; pois Ge-stell é, em seu aître, de duplo sentido [ist wesenhaft doppeldeutig].
- A dupla significação de Ge-stell: cumprimento e preparação.
- Como já dizia O Princípio de Identidade: Ge-stell (a unidade daquilo que reúne todos os modos do Stellen) é o cumprimento e o preenchimento da metafísica, ao mesmo tempo que a preparação que des-encobre o Ereignis.
- Conforme isso, diante da estranha ambiguidade do aître da técnica planetária assim enigmaticamente colocado sob o signo de Janus de duplo rosto, não se trata de considerar o surgimento da técnica como um processo negativo, mas tampouco de considerá-lo como um processo positivo, no sentido de um paraíso na Terra.
- A imagem do negativo fotográfico de Ereignis.
- Heidegger sobrepõe à inquietante emblemática do deus Janus uma comparação não menos enigmática: sobrepõe ao duplo rosto de Janus a imagem de Ge-stell como negativo fotográfico de Ereignis.
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