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estudos:guest:atrio-do-seer

Átrio do Seer (Aîtrée de l’Estre)

  • Proposta da expressão aîtrée de l’Être como tradução para die Wesung des Seins (des Seyns).
    • Expressão proposta em 1989, ano da publicação de Beiträge zur Philosophie (Contribuições à Filosofia).
    • Este livro inaugura a série dos Tratados Inéditos dos anos 1935-1945, centro de gravidade do pensamento do Ereignis.
    • A expressão die Wesung des Seins é recorrente neste segundo chef-d'œuvre de Heidegger, constituindo uma de suas assinaturas características, junto com a passada do último Deus.
  • Tarefa inédita proposta por Heidegger nos Beiträge.
    • O livro articula, numa sextuple fugue (sextuplo ajuntamento), a exploração da estrutura movimentada do Ereignis.
    • A tarefa é indicada de modo inchoativo e potente: Ein Entwurf der Wesung des Seyns als das Ereignis muß gewagt werden (Uma esquisse da aîtrée do Estre como o Acontecimento deve ser arriscada).
    • Esta tarefa inédita constitui um desafio maior para nosso tempo de abandono do Ser, no ápice do niilismo que se cumpre na figura do reino da metafísica da vontade de poder.
    • Pergunta heideggeriana: Porter l'aîtrée de l'Estre au mot qui la conçoive, quel risque encouru gît en un tel projet ? (Conduzir a aîtrée do Estre à palavra que a conceba, que risco incorrido jaz em tal projeto?).
  • Objetivo do pensamento do Ereignis: aventurar-se até o aître do Estre.
    • Conduzir o pensamento do Ser, ao preço de um outro começo do pensar, até o coração do que Heidegger chama das Wesen des Seyns: o aître do Estre.
    • Trata-se de aventurar-se, ao preço de um salto (Der Sprung), até o que propriamente se trata no foco movimentado do Ereignis.
    • Isto que, secreta e imemorialmente, dá lugar ao Il y a (ao Es gibt), à doação de ser, de tempo, de espaço, no fio da livre sequência das diversas épocas da história do Estre e da aventura historial da dispensação da verdade do Ser.
    • Aventurar-se (após mais de dois milênios de esquecimento do Ser) até o coração insciente do Estre como Acontecimento (das Seyn als das Ereignis).
  • A aventura historial da doação do Ser como aîtrée do Estre como Acontecimento.
    • A aventura historial desta doação de Ser, enquanto nela se dá lugar no próprio coração do Ereignis, e que ela própria propriamente dá lugar à habitação dos humanos à mercê da dispensação da verdade do Ser.
    • É isto que a meditação dos Beiträge zur Philosophie empreende pensar como a aîtrée do Estre como Acontecimento (die Wesung des Seyns als Ereignis).
  • Condição para compreender a nova expressão die Wesung des Seyns: a compreensão verbal de Wesen.
    • O que permite ouvir a acepção desta nova expressão é a compreensão verbal do sentido da palavra Wesen e o uso preciso que Heidegger faz dos dois verbos sein e wesen.
    • O velho termo francês aître, hoje em desuso propício, parece ainda capaz de assumir o conjunto das acepções da palavra Wesen, entendido a partir do velho verbo wesen (que significa ser ou estre, no valor aspectual da duração, da morada e do séjour).
    • A maravilhosa homonímia entre aître e être, em francês, oferece um recurso inesperado: essas acepções do aître coincidem precisamente com as que vêm atestar, nas línguas indo-europeias, o que o próprio Heidegger frequentemente indica como pertencente à gramática e etimologia da palavra 'ser'.
  • Tradução proposta e o clivagem entre ser e aître.
    • Se das Wesen des Seyns pode ser traduzido por o aître do Estre, die Wesung des Seyns poderia ser traduzida pela locução a aîtrée do Estre.
    • Nos Beiträge, Heidegger medita incessantemente o abismo da diferença do Estre e do ente, marcando o profundo clivagem entre ser e aître.
      • Cabe ao ente ser (sein).
      • O Estre, quanto a ele, não pode mais ser dito ser (no regime do ente), mas sim aître ou aîtrer (wesen), no sentido de ali ter aître e ali desdobrar seu aître.
    • Uso rigoroso dos dois verbos: onde o ente é [ist], o Estre, quanto a ele, aître [west].
  • Definição da aîtrée do Estre.
    • Se o Estre, considerado em seu próprio aître, deve ser dito aître (wesen) no sentido de ali desdobrar seu aître para ali ter sua morada (e nomeadamente na palavra e na língua, e na hospitalidade dos humanos, do aître humano), todo o movimento próprio à movimentação do próprio Estre como o Acontecimento pode por sua vez ser considerado como sendo sua aîtrée.
    • A aîtrée do Estre como Acontecimento (die Wesung des Seyns als Ereignis) é, portanto, o movimento pelo qual o Estre, entendido como Acontecimento, deve ser doravante considerado em toda a eventualidade e eventualidade topológica, imemorial, que não é outra senão a de sua aîtrée.
  • Caracterização final da aîtrée do Estre.
    • A aîtrée do Estre seria a própria maneira pela qual o Estre (à diferença de todo ente), no próprio movimento de sua dispensação historial, ali aître enquanto Acontecimento – ali dando propriamente tempo e lugaraître – à história do Estre – ao mesmo tempo em que ali tem lugar, nesta história e aventura, implicando estreitamente o aître do ser humano (das Menschenwesen), seu séjour e sua morada.
    • É esta história e aventura, toda esta movimentação da aîtrée do Estre como Acontecimento, que a meditação perseverante de Heidegger ousa considerar, pela primeira vez nestes termos que constituem sua assinatura e seu enigma maior.
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