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§30 Medo

GREISCH, Jean. Ontologie et temporalité. Esquisse d’une interprétation intégrale de Sein und Zeit. Paris: PUF, 1994:§30

1. A análise da angústia é precedida por um pequeno exercício de escola fenomenológica sobre a estrutura geral da afetação, tomando como base um afeto particular e familiar, o medo, escolhido por razão estratégica: dispor de uma ideia prévia do que é o medo permite compreender melhor a natureza muito diferente da angústia, cuja importância capital se revelará mais adiante.

2. A análise do medo recorre a um campo lexical muito rico, que inclui o amedrontador (das Furchtbare), a ameaça (Bedrohlichkeit), a timidez (Furchtsamkeit), o susto (Erschrecken), o horror (Grauen) e o pavor (Entsetzen).

3. Seria equivocado confundir análise fenomenológica com investigação linguística, valendo aqui a máxima já encontrada anteriormente — antes da palavra e da expressão, sempre primeiro os fenômenos e depois os conceitos (GA20, 348) —, de modo que o verdadeiro objeto da análise é o medo enquanto vivido intencional da consciência, enquanto modo de ser, e um indício exterior confirma tratar-se de uma análise intencional, na medida em que tudo é feito para evitar o esquema binário sujeito/objeto, que obrigaria a situar de um lado o objeto que causa medo e de outro a emoção do sujeito por ele provocada.

4. Para descrever esse afeto, opta-se claramente por um esquema triádico, cabendo perguntar, supondo que essa análise tenha valor paradigmático, se tal esquema triádico não deveria valer também para a análise de outros afetos.

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5. O primeiro momento é o diante-de-quê (Wovor) do medo, correspondente ao polo objeto do medo: determinado objeto aparece como amedrontador, veiculando uma ameaça potencial e possuindo o caráter da nocividade (Abträglichkeit).

  • a tradução de Vezin por nocividade é preferível à tradução de Martineau por importunidade
  • uma mosca pode importunar ou irritar, mas uma vespa causa medo em razão de sua nocividade maior ou menor, conforme haja ou não alergia à picada
  • o objeto amedrontador, carregado de ameaça, é sempre representado como uma ameaça dirigida a mim, nunca imóvel ou estático, mas sempre intencionado como algo que se aproxima

6. Admite-se que o medo é uma pena ou perturbação decorrente da imaginação de um mal futuro capaz de causar destruição ou dor, não se temendo todos os males — como ser injusto ou lento de espírito —, mas apenas aqueles que podem trazer dores graves ou destruições, desde que apareçam não distantes, mas próximos e iminentes, pois não se teme o que está muito distante, já que todos sabem que morrerão, mas, não estando a morte próxima, disso não se preocupam; sendo essa a natureza do medo, o que a excita são necessariamente as coisas que parecem ter grande poder de destruir ou causar danos que tendam a provocar dor grave, razão pela qual até os indícios de tais coisas causam medo, pois a coisa temível parece próxima, consistindo o perigo justamente na aproximação de algo temível (Aristóteles, Retórica, II, 5, 1382a 21-30).

7. O segundo momento é o ter-medo (Fürchten selbst) em si mesmo, correspondente, de certo modo, ao polo sujeito do vivido intencional, evitando-se, ao contrário de toda uma tradição racionalista, falar de imaginação ou fantasia, terminologia que acarretaria quase necessariamente uma desvalorização ontológica do afeto em questão.

  • o medo deforma a realidade, donde a necessidade de manter a cabeça fria em todas as circunstâncias
  • ao medo deve-se antes reconhecer um poder heurístico de descoberta que lhe é próprio, estando a serviço da circunspecção
  • essa tese pode ser ilustrada pela posição de Hans Jonas, que atribui ao medo um poder heurístico específico
  • longe de apresentar uma visão caricatural da realidade futura — o que evidentemente ocorre no caso de um medo patológico —, o medo pode ensinar a ver o futuro de modo mais correto, isto é, a vê-lo tal como ele é objetivamente, um futuro amedrontador sob muitos aspectos

8. O terceiro momento é o por-quê (Worum) do medo, que comporta sempre um enredo, não temendo apenas algo, mas temendo por alguém, o ser-aí (Dasein) em sua ipseidade, pois aquilo por que o medo teme é o próprio ente que teme, o ser-aí, já que somente um ente para o qual, em seu ser, está em jogo esse próprio ser pode sentir medo (SZ 141); desse ponto de vista também, o medo possui um poder de desvelamento próprio, fazendo descobrir a precariedade (Gefährdung) essencial da existência, o fato de estarmos entregues a nós mesmos (Uberlassenheit), sendo justamente quando se perde a cabeça, quando se desorienta, que se faz a descoberta de um aspecto essencial da existência.

9. Não cabe opor ter medo por si mesmo e temer por outrem, pois ambos são as duas vertentes do mesmo fenômeno: assim como ser-aí (Dasein) e co-ser-aí (Mitdasein) andam juntos, toda afetação (Befindlichkeit) comporta uma dimensão intersubjetiva, sendo uma co-afetação com outros (Mitbefindlichkeit, SZ 142).

10. Uma vez destacada a estrutura fundamental dessa afetação, a tarefa de uma análise fenomenológica mais aprofundada consiste na investigação de suas variações e modificações, que determinam possibilidades de ser diferentes e não apenas graus de intensidade — o susto (Erschrecken), que faz sobressaltar diante de uma ameaça que irrompe brusca e subitamente na existência; o horror (Grauen), que representa uma espécie de caso-limite, no qual a familiaridade tranquilizadora do mundo circundante quase inteiramente desaparece; e o pavor (Entsetzen), que combina esses dois momentos.

11. Essa análise fenomenológica mais concreta permanece apenas esboçada, sendo o resultado capital, do ponto de vista ontológico, a descoberta de que a intimidação (Furchtsamkeit) constitui uma afetação essencial do ser-aí (Dasein) como tal, não se tratando, portanto, apenas de uma afetação patológica de que sofreriam somente naturezas particularmente medrosas e timoratas, os covardes, embora essa não seja a única afetação que caracteriza o ser-aí como tal.

  • Von einem, der auszog, das Fürchten zu lernen é o título de um célebre conto dos irmãos Grimm, que narra as aventuras de um jovem aparentemente incapaz de sentir o afeto do medo e sua manifestação somática, o Gruseln, isto é, a pele de galinha
  • esse título pode ser glosado em sentido heideggeriano dizendo-se que aquele que desde sempre já saiu para aprender a ter medo é o ser-aí (Dasein)
  • não se trata, contudo, de um problema de aprendizado, pois viver, existir, ser-aí (Dasein), comporta necessariamente a afetação do medo, mais — felizmente — um certo número de outras afecções
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