§2 Questão do ser
GREISCH, Jean. Ontologie et temporalité. Paris: PUF, 1994, §2
1. Impõe-se precisar o estatuto mesmo da questão, a maneira como ela realmente se coloca, podendo apenas uma análise fenomenológica do questionamento fazer avançar nessa direção, lembrando-se que, já desde 1919, havia sido posta em relevo a estrutura intencional específica da vivência do questionamento (Frageerlebnis), mantendo-se, mesmo após a mudança terminológica que passa da análise de uma vivência para a análise de um comportamento (Verhalten), a exigência de uma análise fenomenológica, isto é, intencional, revelando-se que o comportamento questionante no domínio da pesquisa teórica possui uma tripla dimensão intencional.
2. Enquanto comportamento intencional de um sujeito, toda questão está à procura de algo, indagando sobre (Fragen nach) algo, não caindo as questões do céu, mas sendo motivadas ou desencadeadas por um questionado (Gefragtes), incidindo por outro lado a questão sobre algo, um domínio que se interroga (Befragtes, o interrogado), junto ao qual se indaga (Anfragen bei), sendo somente pela efetuação concreta do questionamento, pela experiência viva da questão, que esta se transforma até atingir seu objetivo, aquilo a que realmente visava, seu intentado (Erfragtes, o demandado).
3. A essa estrutura já bastante complexa deve-se acrescentar outra distinção, também fenomenológica, entre dois estilos de questionamento, de um lado o questionamento irrefletido, isto é, sem consciência verdadeira do problema, denominado Nur-so-binfragen, ao qual se deve opor uma posição de questão explícita, isto é, uma interrogação ligada a uma problemática.
4. Cumpre então perguntar em que sentido essas distinções podem ser transferidas para a questão do ser.
5. Iniciando pela segunda distinção, entre o questionamento irrefletido e a problemática claramente colocada como tal, esta revela desempenhar papel central na determinação do estatuto do saber ontológico, começando aqui a aparecer os desafios da análise efetuada no parágrafo 1, pois a questão do sentido do ser não poderia sequer surgir se, desde sempre, já não nos movêssemos numa certa compreensão obscura do ser, não constituindo o fato de esta ser perfeitamente vaga e indeterminada, logo obscura, de modo algum uma desvantagem, mas antes um fenômeno positivo, valendo isso em particular para a apreciação das culturas que não produziram ontologia explícita, podendo civilizações inteiras ter nascido e morrido sem sentir a necessidade de elaborar uma ontologia no sentido rigorosamente conceitual do termo, permanecendo contudo ininteligíveis os diferentes tipos de discurso de sabedoria que desenvolveram, e sua própria existência enquanto cultura e civilização, se neles não se manifestasse já uma certa compreensão do ser.
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“Fenômeno positivo” (SZ 6).
6. Precisamente porque não se sabe o que é aquilo que assim se compreende sem sabê-lo, a questão do sentido do ser pode despertar como demanda de compreensão, fazendo a obscuridade dessa compreensão do ser nascer a necessidade da clareza do conceito, podendo porém esse fenômeno de uma compreensão já existente opacificar-se em razão de teorias tomadas de empréstimo a uma ontologia já elaborada ou tacitamente pressuposta.
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“Clareza do conceito” (SZ 6).
7. Cada um dos três momentos dessa questão, ao ser aplicada a estrutura formal de toda questão teórica à questão do ser, comporta uma dificuldade específica ligada à natureza particular da questão do sentido do ser.
8. No nível do questionado reencontra-se a advertência já mencionada, tomada também do Sofista de Platão, a de não contar histórias a respeito do ser, ou seja, não confundir uma ontogenia, explicação genético-genealógica de um ente a partir de outro ente, com a ontologia, isto é, a determinação conceitual do ser de um ente.
9. Quanto ao interrogado, a tarefa principal consistirá em encontrar acesso a, e identificar, o ente mais suscetível de fornecer o sentido do ser, tratando-se da questão de saber se há ou não um ente exemplar que possua certa primazia para a elaboração da questão do sentido do ser, devendo a primeira resposta ser a de bater a todas as portas disponíveis, evitando a pesquisa ontológica privilegiar certa categoria de objetos em detrimento de outras, possuindo um objeto natural ou cultural, um sonho ou um fantasma, um fato científico ou um estado de alma a mesma dignidade ontológica, pois em tudo isso se trata de ser ou de maneiras de ser.
10. Essa primeira resposta, que exige uma generosidade de princípio a interditar limitar o inquérito ontológico a certos tipos de objetividade reconhecidos como canônicos pelo pensamento científico, deve ainda ser precisada, pois bater a todas as portas é uma coisa, encontrar um respondente é outra, revelando-se que, afinal, há um único respondente da questão do sentido do ser, a saber, o ente que porta essa questão em si mesmo, de modo que não pode evitar colocá-la a si próprio.
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“Tornar transparente um ente — aquele que questiona — em seu ser” (SZ 7).
11. Vinculada a essa questão intervém uma primeira decisão terminológica fundamental, que comanda todos os desenvolvimentos ulteriores, a de que, se elaborar a questão do ser significa tornar transparente um ente, aquele que questiona, em seu ser, então apenas um ente já habitado por essa questão, o que não significa necessariamente que já detenha a resposta, será um bom respondente, implicando isso que a questão do ser, entendida nesse sentido, não é uma questão particular, um luxo especioso para ociosos, mas uma questão inscrita na carne do existente, de modo que define sua maneira de ser mais fundamental, sendo esse ente e sua maneira particular de ser que se escolhe designar pelo termo Dasein, devendo todas as demais determinações antropológicas ser provisoriamente deixadas de lado.
12. O demandado é aquilo que a questão do sentido do ser busca, aquilo a que ela quer chegar, a saber, encontrar resposta à questão do que significa ser, como deve ser compreendido, qual é seu conceito.
13. Ao aproximar isso do que acaba de ser dito sobre o interrogado, esbarra-se numa aparente dificuldade de método, pois, ao dizer que se deve previamente determinar o ser de um ente particular, o Dasein, a fim de poder somente então colocar a questão do sentido do ser, parece que se estaria fechado num círculo, não sendo esse círculo, contudo, de modo algum o círculo vicioso de uma argumentação que gira em falso, mas um círculo bem constituído no qual é preciso saber entrar corretamente, resultando a aparência de círculo simplesmente do fato de que, para elaborar uma ontologia, é preciso apoiar-se na compreensão mediana do ser em que já nos movemos, estando o Dasein, por assim dizer, condenado a colocar-se a questão do sentido do ser que se confunde com ele mesmo, pois o ente que tem o caráter do Dasein está ele próprio em relação, e talvez mesmo em relação insigne, com a questão do ser, sendo determinar a natureza precisa dessa relação a tarefa seguinte.
