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Sentimentos incorporados

FUCHS, Thomas. Verkörperte Gefühle: zur Phänomenologie von Affektivität und Interaffektivität. Erste Auflage, Originalausgabe ed. Berlin: Suhrkamp, 2024.

Sentimentos incorporados. Sobre a fenomenologia da afetividade e da interafetividade

Introdução: Afetividade corporificada

1. Os sentimentos apresentam uma ambiguidade fundamental, pois tanto dependem da pessoa que considera algo terrível ou encantador quanto parecem enraizar-se nas próprias coisas e acontecimentos que despertam essas experiências, permitindo reconhecê-los simultaneamente na interioridade subjetiva e no mundo exterior.

2. Na cultura contemporânea, os sentimentos tendem a ser considerados experiências profundamente pessoais, privadas e interiores, chegando a fundamentar pretensões de uma verdade imediatamente sentida que se julga dispensada da verificação intersubjetiva e da confrontação entre perspectivas, comprometendo assim as condições de uma compreensão compartilhada.

3. A invocação do sentimento como um oráculo interior encerra o diálogo com quem não experimenta a mesma coisa, pois transforma a concordância afetiva em condição da comunicação e impede que a divergência seja elaborada em um espaço comum de razões.

4. A absolutização dos sentimentos decorre de sua interiorização, que encobre sua corporeidade e intersubjetividade e desconsidera fenômenos espacialmente abrangentes, como as tonalidades afetivas e as atmosferas, enquanto as teorias dominantes os atribuem a uma psique separada do corpo e do mundo, cujo acesso pelos outros dependeria de inferências cognitivas extraídas de comportamentos e sinais corporais.

5. A privatização e a subjetivação dos sentimentos remontam ao desencantamento moderno do cosmos, pelo qual a interpretação científico-natural transferiu progressivamente as experiências qualitativas e afetivas para o interior do sujeito e reduziu o mundo exterior a uma realidade física quantificável, de modo que, sobretudo após a separação cartesiana entre coisa pensante e coisa extensa, beleza, ameaça e atração passaram a ser compreendidas como projeções subjetivas.

6. Com o progressivo abandono do conceito de alma, os sentimentos perderam seu lugar teórico e foram reinterpretados pela psicologia das emoções como avaliações cognitivas de estímulos externos eventualmente acompanhadas de sensações fisiológicas, enquanto a neurobiologia reforçou sua localização cerebral e contribuiu para obscurecer suas dimensões espaciais, corporais e interpessoais.

7. Uma compreensão fundada na fenomenologia do corpo vivido e no paradigma da corporificação reconhece os sentimentos mediante três aspectos inseparáveis: o ser-no-mundo afetivo, a corporificação afetiva e a interafetividade.

(a) Ser-no-mundo afetivo

1. O ser-no-mundo encontra-se sempre afetivamente modulado, pois sentimentos e tonalidades afetivas abrem um ambiente significativo em correspondência com as qualidades afetivas, os valores e as possibilidades de ação das próprias situações, nas quais atração, familiaridade, acolhimento, repulsa e ameaça se distribuem por espaços e paisagens sem poderem ser confinados a uma interioridade subjetiva.

2. Os sentimentos constituem acontecimentos que atingem e abalam o sujeito a partir da situação vivida, envolvendo tanto o padecimento afetivo quanto uma resposta expressiva ou uma tendência espontânea de ação, de modo que estabelecem uma relação simultaneamente voltada para dentro e para fora e inserem a pessoa em uma dinâmica abrangente que não se reduz a um processo objetivo nem a uma avaliação subjetiva.

(b) Corporificação afetiva

1. O padecimento afetivo e sua resposta são mediados pelo corpo vivido como ressonância e expressão, pois medo, raiva e alegria são inseparáveis das sensações de estreitamento ou amplitude, das tensões, excitações e tendências de movimento pelas quais o corpo sente e manifesta os sentimentos em gestos, expressões e ações.

2. A ressonância dos sentimentos intencionais repousa sobre uma camada corporal mais básica, constituída pelo sentimento de estar vivo ou vitalidade, que acompanha continuamente a experiência entre bem-estar e mal-estar, disposição e esgotamento, expressando o estado global do organismo e sua regulação homeostática mediante a interação permanente entre cérebro e organismo periférico.

3. O sentimento de estar vivo constitui também um sentimento pré-reflexivo de si, anterior à autocertificação reflexiva, pois a consciência começa como um sentir-se e uma autoafecção corporal que fundamentam o pensamento e a autoconsciência, tornando insustentável a ideia de uma consciência pura ou de uma alma autônoma que somente depois se relacionaria com o corpo e suas paixões.

4. Nas tonalidades afetivas e nos sentimentos existenciais, o estado corporal básico estende-se ao espaço circundante e modula a experiência global de si e do mundo, enquanto as emoções intencionais se dirigem a situações específicas e podem relegar sua ressonância corporal ao segundo plano, embora movimentos e posturas continuem influenciando silenciosamente as respostas emocionais.

5. A unidade entre sentir-se corporalmente e ser afetado pela situação encontra uma expressão exemplar no tato, que reúne autoafecção e afecção pelo outro na fronteira do corpo vivido, enquanto o tocar ativo corresponde à tendência de ação dos sentimentos e permite compreender o corpo como mediação entre padecimento e resposta, afecção, expressão e ação.

© Interafetividade

1. A superação da interiorização dos sentimentos exige reconhecer uma intercorporeidade originária na qual expressões, gestos e olhares alheios afetam diretamente o corpo vivido e suscitam respostas que retornam ao outro, formando um circuito de ressonância recíproca do qual emerge uma empatia primária e uma compreensão imediata de sentimentos e intenções.

2. A percepção cotidiana do outro apreende intuitivamente uma pessoa viva e corporificada antes de qualquer dúvida sobre intenções ocultas, de modo que o encontro não se estabelece com um objeto corporal cujos sinais exigiriam inferir um habitante mental escondido no cérebro, tornando o problema filosófico do acesso à vida psíquica alheia um pseudoproblema derivado dessa separação artificial.

3. Desde os sentimentos fundamentais de realidade, pertencimento e familiaridade, a experiência afetiva se desenvolve em um espaço compartilhado, no qual a ressonância de expressões faciais, gestos e vozes estabelece a sintonia inicial com os outros e permite que os sentimentos surjam, se transformem e circulem em processos recíprocos, incluindo emoções sociais e morais que dependem do desenvolvimento da consciência reflexiva nas relações.

4. O ser-no-mundo afetivo, a corporificação afetiva e a interafetividade constituem os três aspectos articulados de uma compreensão dos sentimentos que abrange a relação com o mundo, o enraizamento corporal e a dinâmica intersubjetiva.

5. Os sentimentos ligam si mesmo, corpo vivido e mundo por meio de uma sintonia pré-reflexiva com a situação, revelando relações, interesses e conflitos e respondendo às qualidades afetivas do ambiente, cuja complementaridade com a experiência subjetiva evidencia o caráter reducionista de uma realidade supostamente neutra e permite reconhecer as relevâncias, os objetivos e as possibilidades significativas da ação.

6. A afetividade fundamenta a consciência e a experiência de si porque todo vivenciar manifesta inicialmente o processo vital como autoafecção corporal, fazendo do padecimento, da vulnerabilidade e da exposição ao outro o núcleo da subjetividade, de modo que a experiência de algo que acontece “a mim” antecede e possibilita a constituição reflexiva do “eu”.

7. A anterioridade dessa experiência de ser afetado também fundamenta a intersubjetividade, pois o corpo já responde à presença, ao olhar e à expressão do outro antes de qualquer reflexão sobre sua interioridade, estabelecendo dinâmicas parcialmente imprevisíveis e incontroláveis das quais podem resultar vínculos duradouros de confiança, fidelidade e amor ou de desconfiança, hostilidade e ódio.

8. A afetividade confere sentido à vida ao tornar possível a experiência de si, a importância das pessoas e das coisas e o reconhecimento do que merece empenho, de modo que conhecimento e vontade permanecem inseparáveis da participação afetiva no mundo, pois somente aquilo que possui relevância pode ser conhecido e somente aquilo que previamente afeta pode motivar uma resposta e orientar uma ação significativa.

Sobre o presente volume

1. A concepção de afetividade corporificada desenvolve-se inicialmente em duas partes de fundamentação e, em uma terceira, mediante análises exemplares de sentimentos e tonalidades afetivas específicos.

2. A primeira parte, “Sentimento e corporificação”, examina em etapas sucessivas as relações entre a experiência afetiva e seu enraizamento corporal.

3. O capítulo “O sentimento de estar vivo” investiga a camada básica da experiência afetiva em suas manifestações de vitalidade e conatividade, compreendidas como sentimento vital e dinâmica dos impulsos, cuja base biológica reside na autorregulação homeostática possibilitada pela interação contínua entre cérebro e organismo periférico.

4. A fenomenologia das tonalidades afetivas parte das qualidades afetivas e da ressonância corporal como estruturas fundamentais do espaço afetivo, distingue suas características específicas e as organiza em um círculo segundo suas qualidades de prazer ou desprazer e seus graus de ativação.

5. A investigação das emoções intencionais articula uma discussão das principais teorias emocionais a um modelo circular dos sentimentos corporificados, no qual a afecção dirigida para o centro e a tendência de ação dirigida para fora se vinculam dinamicamente, encontrando esclarecimento adicional em fenômenos psicopatológicos.

6. O capítulo “Valor e sentimento de valor” examina o estatuto dos valores em um mundo naturalizado e os compreende como formas de significatividade afetiva produzidas na interação corporificada entre os seres vivos e seu ambiente, constituindo fenômenos relacionais e, nesse sentido, qualidades objetivas da relação entre sujeito e mundo.

7. A segunda parte investiga diferentes aspectos da interafetividade e da constituição intersubjetiva dos sentimentos.

8. O capítulo “Familiaridade e confiança” examina a relação entre o enraizamento corporal originário no mundo e os vínculos de confiança com os outros, compreendendo esses sentimentos existenciais como fundamentos igualmente originários do mundo da vida compartilhado e esclarecendo-os mediante alterações da confiança em condições pós-traumáticas e esquizofrênicas.

9. O capítulo “Níveis da empatia” estende o modelo circular dos sentimentos ao encontro intersubjetivo, distinguindo a empatia primária fundada na ressonância intercorporal, a empatia secundária de caráter cognitivo e a empatia reiterada na qual o sujeito experimenta a empatia do outro, articulando a compreensão imediata às formas reflexivas da relação.

10. O capítulo “Limites da empatia” investiga a preferência humana por dirigir empatia e simpatia aos integrantes do próprio grupo e a possibilidade de enfraquecê-las ou dissociá-las diante de estranhos, examinando os fatores individuais e grupais dessa dissociação mediante as execuções realizadas pelo Batalhão de Polícia 101 no contexto do extermínio nazista.

11. A terceira parte desenvolve uma fenomenologia do nojo, da vergonha e da culpa, do medo, do inquietante, do luto, do ódio, do desespero e da felicidade, com predominância de sentimentos negativos tanto pela orientação psicopatológica da investigação quanto por sua capacidade de revelar os conflitos e as rupturas da existência individual de maneira especialmente fecunda para a análise fenomenológica.

12. A articulação das análises permite compreender a riqueza da corporificação e da intersubjetividade dos sentimentos, superando seu confinamento em uma interioridade mental e oferecendo uma nova fundamentação do ser-no-mundo afetivo.

13. A revisão e a articulação dos trabalhos reunidos conferem unidade ao conjunto, registrando-se o reconhecimento às contribuições de colaboradores, colegas e pacientes, bem como à colaboração editorial de Philipp Hölzing e Jan-Erik Strasser no planejamento e na preparação do volume.

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