estudos:franck:nietzsche-intro-2012
Nietzsche e a sombra de Deus: Introdução (2012)
Franck2012
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Introdução ao Problema do Perigo e a Salvação
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A afirmação de Heidegger de que “apenas um deus ainda pode nos salvar” abre uma meditação sobre o perigo que ameaça nosso ser.
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O perigo não é externo, mas emerge de nossa própria essência, sendo intrínseco ao próprio Ser e à sua verdade.
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A época atual, a da técnica, é onde o Ser se dá como perigo para si mesmo. Para compreender esse perigo, é necessário primeiro determinar a essência da técnica.
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A Essência da Técnica Moderna como 'Gestell' (Enquadramento)
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A técnica moderna não é mero instrumento, mas um modo fundamental de desvelamento (aletheia) do que é.
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Através de dispositivos técnicos (ex: usina hidrelétrica), a técnica desvela o mundo como 'reserva permanente' (Bestand), um estoque disponível para exploração e consumo.
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Esse desvelamento tem o caráter de uma 'interpelação' ou 'provocação', que desafia a natureza a fornecer sua energia de forma calculável e controlável.
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A essência da técnica é, portanto, um 'destino do desvelamento' (Geschick der Entbergung), um modo histórico pelo qual a verdade do Ser se envia ao homem.
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O Homem na Era da Técnica: da Subjetividade ao 'Comissário da Reserva'
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Enquanto na era da subjetividade o homem se desvelava como sujeito frente ao objeto, na era do 'Gestell' o próprio homem é integrado ao regime da reserva.
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O homem se torna o 'ordenador da reserva', mas ao fazê-lo, ele mesmo se transforma em parte da reserva disponível (recursos humanos, engenharia genética).
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Nesse ponto culminante do perigo, o homem, ameaçado em sua essência, se exalta paradoxalmente como 'senhor da terra'.
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A Figura do 'Senhor da Terra' e suas Origens Bíblicas
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A auto-exaltação do homem como senhor da terra não é de origem grega, mas bíblica.
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No relato sacerdotal da criação (Gênesis 1), o homem é criado à imagem de Deus e recebe o mandato de dominar a terra e subjugá-la, implicando um gesto de violência.
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Com a 'morte de Deus', essa vocação de domínio, outrora subordinada a Deus, é assumida pelo homem de forma absoluta e sem medida.
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A Técnica como Realização da Vontade de Vontade
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A essência da técnica moderna encontra um segundo fundamento no pensamento bíblico da criação e no conceito de vontade que ele implica.
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A técnica organiza e é o órgão da 'vontade de vontade', uma vontade que só quer a si mesma e sua própria capacidade ampliada de querer.
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Esta vontade, desvinculada da transcendência divina após a morte de Deus, cumpre violentamente a palavra bíblica, esgotando a terra e arrancando-a de seu círculo de possibilidades.
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A Romanização de Aletheia e a Transformação da Verdade
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O destino ocidental da verdade começa com sua tradução greco-romana: aletheia (não-ocultação) torna-se veritas (correção).
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Essa transformação ocorre sob a égide do 'imperium', da esfera do comando e da dominação. O falso (falsum) passa a ser entendido como aquilo que faz cair, que engana, dentro de uma lógica de poder.
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A Igreja Católica Romana aparece como a figura mais duradoura e perigosa desse 'imperium', ao dogmatizar a verdade e o falso.
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A Determinação Cartesiana da Verdade como Certeza e seu Fundamento Teológico
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A modernidade radicaliza a verdade como 'certeza' (certum), a partir de Descartes.
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A certeza do ego cogito deriva sua garantia última da veracidade de um Deus criador, ideia clara e distinta nele impressa.
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O erro é explicado como um mau uso da liberdade da vontade, que se estende para além do que o intelecto percebe com clareza.
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Heidegger interpreta esse movimento como uma 'deteologização': a graça divina, que determina a vontade para o bem, é transferida para a clara e distinta percepção do intelecto.
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Os Limites da Deteologização e a Necessidade de um Confronto com a Revelação
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A deteologização (passagem de conceitos da teologia para a filosofia) não supera a teologia, mas a reintroduz sub-repticiamente na filosofia, marcando-a com o selo de sua origem.
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Para um pensamento que busca a verdade do Ser, é insuficiente apenas retornar à aletheia grega. É necessário um confronto frontal com a revelação cristã, que marcou profundamente a história ocidental da verdade.
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O pensamento de Nietzsche, como ápice da metafísica ocidental, é o lugar privilegiado para esse confronto.
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Nietzsche: Ápice da Metafísica e Lugar do Confronto
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Para Heidegger, Nietzsche consuma a romanização de aletheia. Sua metafísica da vontade de poder e do eterno retorno é a onto-teo-logia final, onde o ser dos entes é pensado como vontade e sua constância como retorno.
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A justiça (Gerechtigkeit) em Nietzsche é interpretada por Heidegger como a última forma da verdade como correção (Richtigkeit), ajustada ao decreto da vontade de poder.
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Heidegger vê aqui um pensamento ainda cristão, mesmo que no modo do 'anticristo', pois opera na lógica da justificação (iustificatio) e da autenticação da subjetividade.
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Crítica à Leitura Heideggeriana de Nietzsche e do Cristianismo
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A assimilação que Heidegger faz entre a justificação luterana e a justiça nietzschiana é problemática.
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A justificação para Lutero é passiva, um dom da fé, e não uma autenticação ativa da subjetividade ou da vontade de poder. Sua certeza é a da salvação em Cristo, não a do ego diante do mundo.
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Ao reduzir a doutrina cristã a um momento da história da verdade (aletheia), Heidegger executa uma 'descristianização' furtiva e infundada da filosofia.
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Nietzsche além do Reverso do Platonismo: O Combate contra os Valores Judeus-Cristãos
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A chave para Nietzsche não é simplesmente reverter o platonismo, mas reavaliar os valores 'judaicos-cristãos' dos quais Platão é visto como um precursor ('Platão é um judeu').
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O símbolo dessa reavaliação é 'Roma contra a Judeia'. O 'romano' em Nietzsche é sinônimo de nobreza, estilo e força, oposto aos valores 'servis' associados a Jerusalém.
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Portanto, o pensamento de Nietzsche é o lugar de um confronto com a revelação bíblica e o sistema de valores que ela instaurou, não apenas o fechamento da metafísica greco-romana.
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A Nova Justiça e a Morte de Deus
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O evento central para Nietzsche é a 'morte de Deus', que significa o fim da justiça divina, da bondade celestial e da moral imanente.
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Diante desse vazio, a tarefa filosófica é procurar uma 'nova justiça', um novo 'peso' (Schwere) para as coisas, que torne a vida suportável e afirmável.
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Essa nova justiça está intrinsecamente ligada à figura do super-homem e ao pensamento do eterno retorno, que deve invalidar a esperança cristã na ressurreição dos mortos.
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Conclusão: O Ponto de Partida para o Confronto com a Revelação
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Para compreender plenamente a essência da técnica, o perigo supremo e a figura do senhor da terra, é necessário engajar um debate com a revelação cristã.
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Esse debate deve tomar como fio condutor o problema da justiça divina e sua contrapartida, a justificação.
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O ponto de partida decisivo para elucidar o sentido positivo da morte de Deus e da nova justiça proposta por Nietzsche deve ser a ressurreição dos mortos, fundamento último da economia cristã da salvação e conceito que o pensamento do eterno retorno visa superar.
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