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Neutralidade e encarnação (1986)
DFHCPE
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A questão sobre quem é o Dasein recai sobre o ente que nós mesmos somos, cujo ser é sempre meu e para o qual se relaciona com seu ser: existir.
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Essas duas determinações ontológicas, a minhidade e a existência, dão início à analítica existencial propriamente dita.
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O termo “existência” aqui não conserva o sentido tradicional de existentia como realidade, mas designa a abertura de um ente a seu ser pela compreensão que dele tem.
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Heidegger busca uma “diferenciação ontológica da existência e da realidade” ao longo de Ser e Tempo.
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A destruição fenomenológica, ao remontar às origens da ontologia, mantém fidelidade aos ganhos da tradição que submete à prova.
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O tema central da ontologia passada, a “realidade”, deve ser de algum modo integrado na ontologia fundamental.
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Para significar o ente que não tem o modo de ser do Dasein, Heidegger escolhe o nome Vorhandenheit.
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A escolha do termo Vorhandenheit (ser-simplesmente-presente) para interpretar a οὐσία grega merece atenção.
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A justificativa vincula existentia e actualitas ao agir de um sujeito indeterminado, e o ente presente é referido àquilo para o qual, de algum modo, vem diante da mão, sendo manuseável.
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Isso mostra, ainda que indeterminadamente, uma relação com o “sujeito”, com o Dasein.
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O texto autoriza a tradução literal de Vorhandenheit por “ser diante-da-mão”.
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A utilização desse termo levanta um problema fundamental.
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O termo Vorhandenheit não supõe que o Dasein seja dotado de mãos, encarnado?
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Se a relação ontológica entre o Dasein e o outro ente se diz pela mão, a encarnação não deveria ser uma estrutura do Dasein, um existencial e um modo da temporalização?
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Se não for o caso, não estariam nos motivos de uma impossível mas necessária encarnação existencial as razões da irredutibilidade da espacialidade à temporalidade?
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A questão não é vazia por duas razões.
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O emprego da palavra Vorhandenheit não pode ser metafórico, pois só há metáfora metafísica.
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Considerá-la metafórica desde o início seria inscrever Ser e Tempo na partição platônica do sensível e do inteligível.
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Heidegger tentou ele mesmo uma análise existencial da encarnação, cujo exige um retorno à hermenêutica do Dasein.
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A minhidade é a propriedade do Dasein de ter seu ser sempre como meu.
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Ela está ligada à existência, pois o ser do ente que sou só pode ser meu se eu me relaciono com ele.
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A minhidade é a relação do Dasein com seu ser que torna possível o pronome Eu.
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O Eu deriva da minhidade, e não o contrário; o mesmo do mim mesmo precede o mim.
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A minhidade constitui um princípio de individuação mais radical que o dizer-Eu.
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Tomar o Eu como ponto de partida para uma análise de meu ser é falhá-lo.
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A “evidência primeira do cogito” é fenomenologicamente subordinada à minhidade.
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A minhidade não é algo de que eu seja a origem, mas a relação com o ser mesmo como origem do si.
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“Sempre meu” significa que o Dasein me é lançado para que meu si mesmo seja o Dasein.
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Dasein significa cuidado não apenas do ser humano, mas do ser do ente como tal extaticamente revelado nesse cuidado.
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O Dasein é ele mesmo por sua relação essencial com o ser em geral.
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O peso da minhidade é considerável.
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Ela funda a distinção entre existência própria e imprópria, que estrutura toda a analítica existencial.
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Sendo sua possibilidade, o Dasein pode perdê-la ou atingi-la, ser próprio ou impróprio.
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Se o Dasein é, em sua ipseidade, relação com o ser mesmo, então o ser mesmo é sempre meu.
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Sem isso, o ser da questão não seria o ser mesmo do ente interrogado.
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A minhidade, finalmente, anuncia o Ereignis.
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À minhidade e à existência, é preciso acrescentar uma terceira determinação: a neutralidade.
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Em 1928, Heidegger expõe “o problema de Ser e Tempo” em doze proposições articuladas sobre a neutralidade essencial do Dasein.
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A primeira proposição: para o ente tema da analítica, escolheu-se o título neutro “Dasein”, e não “homem”.
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A neutralidade, inseparável da minhidade e da existência, subtrai o Dasein ao domínio antropológico.
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A região “antropologia” engloba tudo o que concerne à natureza do homem como ser espiritual, psíquico e carnal, incluindo a diferença dos sexos.
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Se a sexualidade e a encarnação são traços antropológicos, a neutralidade de essência implica a segunda proposição: o Dasein não é de nenhum dos dois sexos.
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Essa assexualidade não é a indiferença de uma nulidade vazia, mas a positividade e potência originárias da essência.
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O Dasein neutro é a possibilidade de toda existência encarnada que a si mesma pertence.
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No ensaio A Essência do Fundamento, Heidegger precisa o sentido da neutralidade da ipseidade.
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É porque o Dasein como tal é determinado pela ipseidade que um mim mesmo pode se relacionar com um ti mesmo.
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A ipseidade é pressuposto para a possibilidade da egoidade, que só se revela no ti.
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A ipseidade nunca está ligada ao ti – ela o torna possível –, ao contrário, é neutra em relação ao ser-eu e ao ser-ti, e mais ainda em relação à sexualidade.
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Todas as proposições essenciais da analítica ontológica consideram por antecipação esse ente nessa neutralidade.
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As análises da hermenêutica existencial são regidas por essa neutralidade de essência.
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A ipseidade própria essencialmente neutra é uma modificação existencial do francês on [STMS: impessoal].
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O on é, ele também, em um sentido secundário, neutro.
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Há, portanto, duas neutralidades: a essencial do Dasein e a do on.
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Como, e sobretudo quem – qual Dasein, sob qual modo de ser – poderá discriminar a neutralidade de origem da neutralidade em decadência?
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A demarcação rigorosa desses dois sentidos da neutralidade suporta nada menos que a possibilidade da questão do ser mesma.
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A introdução temática da neutralidade ameaça, por contrapartida, a economia geral da ontologia fenomenológica.
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A que motivos obedece essa adição da neutralidade?
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Nos Fundamentos Metafísicos Iniciais da Lógica [GA26], Heidegger reitera o projeto de uma ontologia fundamental como analítica do Dasein.
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A interpretação temporal do ser se inclina para a diferença ontológica.
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Para colocar o problema da metafísica, é preciso “levar a ontologia à virada (Umschlag) nela latente”.
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Esse reviramento da ontologia fundamental em metontologia responde a três imperativos.
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A neutralidade visa preservar a analítica existencial de todo desvio antropológico.
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Ela permite cortar a ambiguidade residual de alguns enunciados de Ser e Tempo onde o Dasein parece se confundir com o homem.
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O Dasein neutro constitui a possibilidade do existente fático, que é sempre encarnado e sexuado.
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Afirmar a neutralidade do Dasein é, em retorno, dar-se a elucidar a possibilidade existencial da carne.
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O problema pode tomar a forma seguinte: a que título o Dasein detém a possibilidade de sua encarnação, sob qual existencial a carne se deixa compreender?
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A encarnação se apresenta como uma dispersão.
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O Dasein recai a possibilidade intrínseca da dispersão fática na carne e, com isso, na sexualidade.
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O Dasein é, enquanto fático, sempre espalhado em uma carne e assim dividido em uma sexualidade determinada.
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Os conceitos de dispersão, espalhamento, divisão, que descrevem a encarnação e a sexualidade, não podem ter significação axiológica.
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Eles designam uma demultiplicação em obra em todo Dasein fático.
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A analítica existencial indica outras possibilidades dessa dispersão.
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Todas essas possibilidades dispersivas estão ligadas à decadência, a uma compreensão derivada e imprópria da existência.
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Elas se enraízam necessariamente em uma estrutura originária e própria do Dasein.
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À essência do Dasein em geral pertence já uma disseminação originária, que, de um ponto de vista determinado, é uma dispersão.
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É a disseminação originária e neutra, ou dispersão transcendental, que torna possível sua própria modalização decaída: a dispersão fática.
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Se a decadência é um conceito relativo ao movimento ontológico do Dasein enquanto lançado, a dispersão transcendental tem seu fundamento no ser-lançado.
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O ser-lançado assegura, em última instância, a possibilidade existencial da encarnação sexuada.
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O traço fenomenal que autoriza a pensar a carne como relevante do ser-dispersado é a divisão sexual.
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É pela sexualidade, formalmente reduzida a uma demultiplicação, que a carne é referida à dispersão fática do Dasein para ser fundada no ser-lançado.
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Essa interpretação exige que a sexualidade seja ela mesma compreendida de maneira existencial.
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A nona proposição dos Fundamentos atesta que tal não é o caso.
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A dispersão essencialmente lançada do Dasein, entendida de modo neutro, se anuncia em que o Dasein é ser-com com o Dasein.
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Esse ser-com não surge sobre o fundo de uma coexistência fática; ele não se explica com base em um ser genérico, supostamente mais originário.
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O impulso genérico comum e a união genérica têm como pressuposto metafísico a dispersão do Dasein como tal, isto é, o ser-com em geral.
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Esse caráter metafísico fundamental do Dasein nunca se deixa derivar da organização genérica e da vida uns com os outros.
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A análise é clara: o ser-com é um modo da dispersão transcendental pressuposto por toda coexistência fática e toda encarnação sexuada.
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O ser-com é o a priori existencial de toda relação carnal-sexual entre existentes fáticos.
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Mas como o ser-genérico, que pela gênero pertence ao ser-simplesmente-presente, pode encontrar sua possibilidade em um existencial de modo de ser absolutamente outro?
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Pode-se compreender as relações carnal-sexuais como união genérica sem conceber sub-repticiamente a existência no horizonte do ser-simplesmente-presente?
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Há mais: o ser-com é uma determinação metafísica fundamental da dispersão.
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Ele forma a condição existencial de possibilidade de toda coexistência, submetida ao on ou fundada na resolução própria.
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A dispersão qualifica também o modo de ser do Dasein quotidiano decaído no on.
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A dispersão decadente é o modo de existência que mais se opõe à resolução, sendo um momento da curiosidade de sentido temporal presente.
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Se a dispersão transcendental neutra, sob a figura do ser-com, é o a priori da coexistência dispersada no on e da coexistência fundada na resolução, como e quem poderá discernir a dispersão transcendental neutra da dispersão no on neutro?
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Os dois sentidos da neutralidade não se deixam dissociar e contrastar.
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A qual Dasein atribuir essa dispersão essencialmente neutra que torna possível o ser-com nos dois modos da propriedade e da impropriedade?
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O Dasein existe sempre em um desses dois modos ou em uma indiferença modal, e a neutralidade de essência não é uma indiferença.
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A tese da neutralidade originária do Dasein coloca o problema de sua encarnação.
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O recurso à dispersão transcendental é destinado a resolvê-lo.
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Mas a introdução desses dois conceitos na analítica existencial não tem por efeito perturbar gravemente seu equilíbrio interno?
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Eles não subtraem o Dasein à diferença do próprio e do impróprio?
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Não acarretam que o ente que somos não possa se encarnar sem se excepcionar de seu sentido temporal, já que propriedade e impropriedade são modos da temporalização?
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Essa exceção não é análoga, ou idêntica, à da espacialidade que toda dispersão implica, espacialidade irredutível à temporalidade?
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As questões e aporias suscitadas pela carne e pelo espaço conduzem aos limites da conceitualidade de Ser e Tempo, colocada a serviço da superpotência do tempo.
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