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estudos:franck:autodoacao-2014

Autodoação e doação encarnada (2014)

Franck2014

1. Fenomenologia como abertura entre fato e essência e diagnóstico de crise

  • A fenomenologia é introduzida no intervalo entre fato e essência, e esse intervalo é apresentado como o que simultaneamente faz surgir e delimita o campo de investigação.
    • O fato inicial é caracterizado como histórico e determinado por uma situação específica na qual o progresso das ciências positivas se vê entravado pela obscuridade de seus fundamentos.
      • A filosofia é definida pelo sentido de unidade, mas essa unidade é dita fragmentada e perdida quanto à definição de fins, problemas e métodos.
        • A permanência do rótulo filosofia não é acompanhada por um debate efetivo entre teorias em conflito, e o conflito deixa de manifestar a pertença comum e convicções subjacentes.
        • Em lugar de um filosofar sério e recíproco, instala-se um regime de pseudo-relato e pseudo-crítica, isto é, uma aparência de atividade filosófica sem a efetividade correspondente.
    • A crise é ampliada por uma alternativa que envolve a fé religiosa e uma nova fé na filosofia e na ciência autônomas, cuja eventual redução a convenção sem vida arriscaria relegar também a nova fé à insignificância.
      • A humanidade europeia é situada como em crise, e Europa é tomada como nome geográfico da racionalidade filosófica, articulando-se, assim, crise histórica e crise do sentido da racionalidade.

2. Essência do fato e definição teleológica da filosofia em Husserl

  • Afirma-se que todo fato possui sua essência e que o reconhecimento de um fato implica o conhecimento de sua essência.
    • A descrição factual e histórica atribuída a Husserl é interrogada a partir da definição de essência de filosofia que a sustenta.
  • Filosofia é definida como unidade universal das ciências fundada em um fundamento absoluto, entendido como imediato, apodítico e dotado de evidência que exclui toda dúvida concebível.
    • A intuição de uma essência é dita prescrever uma reconstrução e exigir um novo começo.
      • O eidos é apresentado como designando um telos, conectando essência e finalidade como estrutura interna da exigência de recomeço.
  • A situação histórica, embora marcada por historicidade, não é considerada única, pois reproduz e repete a situação enfrentada por Descartes.
    • A repetição é tratada como condição de acesso ao eidos da historicidade, sugerindo que a inteligibilidade eidética do histórico requer uma recorrência estrutural.
    • A repetição é interpretada como consciência de uma crise que une sofrimento e resolução, articulando-se assim negatividade e decisão num mesmo diagnóstico.

3. Retorno a Descartes como retorno do si a si e surgimento do motivo solipsista

  • O retorno a Descartes é distinguido de um retorno ao cartesianismo enquanto teses metafísicas, sendo antes pensado como retorno do si a si.
    • As Meditações são apresentadas como modelo insuperável desse retorno por causa da liberdade teórica radical que as anima.
  • A viragem ao ego cogito como verdadeiro começo conduz a um modo solipsista de filosofar, e o sentido desse solipsismo é posto como problema.
    • Interroga-se como tal solipsismo pode adquirir o estatuto de objeção capaz de ameaçar a fenomenologia transcendental como um todo.
      • A elucidação dessas questões é vinculada ao acompanhamento do desenvolvimento das quatro primeiras Meditações, de modo que o problema do solipsismo é inserido numa sequência argumentativa concreta.

4. Ego cogito como começo de princípio e redução do fato à possibilidade

  • O ego cogito, enquanto começo de princípio, é distinguido de um ponto de partida factual.
    • O ponto de partida é a ideia de ciência autêntica, tomada como emprestada das ciências efetivas legadas pela tradição.
      • Para não pressupor o conteúdo dessas ciências, nem mesmo uma norma científica fundada num sistema lógico ou teoria da ciência, a ideia é retida como hipótese pura e possibilidade pura.
        • Essa conversão do fato em possibilidade é apresentada como o início da série de reduções.
  • A ideia de ciência com fundamento absoluto é distinguida de um ideal cientificamente constituído, como a física matemática que serve de modelo para Descartes e Kant.
    • A confusão com tal modelo recobriria desde o início o motivo transcendental, pois impediria ver que o ego cogito não é uma premissa apodítica última para uma cadeia dedutiva, mas o nome de uma esfera ontológica absoluta aberta à experiência e à intuição.

5. Necessidade de reativação e explicitação intencional da ideia de ciência

  • Após a redução da facticidade, a esfera aberta pelo ego cogito é dita permanecer como ideia geral e vaga que precisa tornar-se mais distinta.
    • Afirma-se que nenhuma explicitação em geral é possível sem um segundo ato de reativação, que exige uma subjetividade que responde à ideia ao responder a si mesma.
      • Ao excluir todo pensamento especulativo, exige-se executar vivamente a atividade e determinar seu sentido imanente por análise direta.
  • Conclui-se que a ideia de ciência só pode ser explicitada intencionalmente, isto é, como fenômeno noemático.
    • O foco passa ao sentido puro da intenção que atravessa e anima o esforço científico, determinando-se a ideia teleológica constitutiva da ciência genuína.

6. Evidência como sentido da ciência e primazia da percepção como modo originário de doação

  • A ideia teleológica da ciência genuína é definida como a de uma série sistemática de juízos verdadeiros fundados uns nos outros.
    • Juízos verdadeiros são caracterizados como omni-temporais e intersubjetivos, e, enquanto evidentes, infinitamente repetíveis como os mesmos.
      • Evidência é declarada como o sentido da ciência, de modo que a ciência se mede pelo regime de doação que nela opera.
  • A análise intencional da evidência não se desenvolve imediatamente por si mesma nas Meditações cartesianas, pois o percurso se orienta rapidamente para a busca de uma evidência primeira e apodítica.
    • A análise intencional torna-se temática com a abertura do problema da constituição, concernindo a relação entre o vivido e seu correlato, a realidade.
      • Ao integrar a realidade na vida do ego, a evidência confirmaria simultaneamente solipsismo e idealismo fenomenológico.
  • O princípio que guia as análises de evidência é associado ao estatuto da doação intuitiva como característica mais geral da evidência, anterior a distinções críticas como adequado e inadequado, assertórico e apodítico, puro e impuro, predicativo e pré-predicativo.
    • A evidência judicativa, enquanto doação intuitiva de um estado de coisas, remete à evidência sobre a qual o juízo se funda, isto é, à evidência dos substratos.
      • Isso conduz à afirmação de que o modo originário de doação das coisas mesmas é, em última instância, a percepção, e a questão torna-se como descrever a percepção.

7. Doação encarnada como cumprimento da intenção e extensão ao categorial

  • A evidência perceptiva é apresentada como equivalente a uma intenção preenchida, de modo que o cumprimento definitivo pela intuição realiza uma adequação.
  • A extensão dos conceitos de intuição e percepção à esfera categorial permite que atos categoriais deem seus objetos do mesmo modo que percepções sensíveis dão os seus, em carne.
    • A consciência perceptiva é caracterizada como consciência de presença própria em pessoa de um objeto individual.
  • Afirma-se que a doação encarnada não se aplica apenas a objetos reais.
    • Indica-se que uma caracterização da doação de coisas transcendentes como doação em carne é introduzida por modificações sistemáticas na segunda edição de um trabalho anterior e é contemporânea de uma obra que afirma desde o início a intuição originariamente apresentante que apreende a essência em sua autoidade pessoal.

8. Doação encarnada não como metáfora, mas como estrutura fenomenológica envolvendo a carne

  • Sustenta-se que a doação encarnada que define a evidência em geral não deve ser tomada como metáfora, modo de falar ou traço estilístico.
    • Tal redução dependeria de duas pressuposições: uma concepção trivial de metáfora, fala e estilo que negligencia o papel da carne na análise da linguagem, e uma pressuposição de um estado de coisas fenomenológico desconectado de qualquer relação com a carne.
  • Afirma-se que as análises sustentam que a carne acompanha cada percepção.
    • Na doação encarnada, a carne é apresentada como simultaneamente dada e doadora.
      • Questiona-se se estruturas como o esboçamento e o horizonte teriam pleno sentido sem um sujeito encarnado capaz de mover-se em torno da coisa, aproximar-se e afastar-se, e sem um poder de mover-se expresso como capacidade.
  • Conclui-se que nem toda autodoação é necessariamente encarnada, mas a autodoação em carne é dita seu modo mais alto e seu telos.

9. Distinção heideggeriana entre autodoação e autodoação encarnada e hierarquia dos modos

  • Heidegger é apresentado como distinguindo cuidadosamente, na percepção de uma coisa, autodoação e autodoação encarnada.
    • O percebido enquanto tal possui o traço de presença corporal, isto é, o ente percebido é dado como ele mesmo em sua presença corporal.
      • Estabelece-se uma distinção de modo de doação entre o corporalmente dado e o simplesmente autodoado, esclarecida pelo contraste com o meramente representado entendido como simples trazer à mente.
        • Um objeto pode ser visado como ele mesmo sem ser corporalmente dado, ao passo que o corporalmente dado implica autodoação.
          • A presença corporal é definida como modo superlativo da autodoação.
    • Acrescenta-se que toda percepção concreta de uma coisa envolve a presunção da coisa em sua totalidade, introduzindo um segundo momento constitutivo do caráter perceptivo.

10. Motivações das citações e abertura de duas séries de questões

  • Indicam-se motivos para as citações extensas, começando pela explicitação, a partir do modelo da percepção de uma coisa transcendente, de uma diferença fenomenológica entre dois modos de doação.
    • Essa diferença é também hierárquica, pois um dos modos implica necessariamente o outro.
      • Observa-se que, apesar disso, a questão do sentido de carne não é posta.
  • Afirma-se que, ao sustentar que o traço pertinente da percepção é a encarnação, Heidegger se alinha ao idealismo transcendental de uma obra na qual a percepção de coisas transcendentes é caracterizada como encarnada.
    • A partir disso abrem-se duas séries de questões, a primeira concernindo o desenvolvimento e as motivações do idealismo husserliano.
      • Pergunta-se se há vínculo entre percepção encarnada e passagem ao idealismo, e em que consistiria.
      • Um diagnóstico usual é apresentado: a descoberta de um novo sentido de imanência como intencional, pela inclusão não real do noema na noese, tornaria acessível o termo objetivo da relação e autorizaria uma decisão metafísica, abandonando uma neutralidade inicial.
        • Interroga-se em que sentido a transformação do conceito de imanência se vincula à percepção encarnada e por que tal transformação se tornaria necessária.
      • Responde-se que a transformação se impõe fenomenologicamente sob pressão dos fenômenos.
        • O primeiro sentido tradicional de imanência é associado à distinção interior exterior, e é dito não se fundar numa diferença fenomenológica entre modos de doação.
        • Afirma-se que a análise de consciência substitui interior exterior por adequado inadequado, tomando por base apenas diferenças de tipos de intuição.
          • A fenomenologia começa com o domínio da evidência entendido como o que é efetivamente imanente aos fenômenos conscientes, e o critério de imanência é a presença encarnada.
      • Uma passagem é usada para indicar que, inicialmente, inclusão efetiva e doação encarnada aparecem juntas.
        • Após reconhecer que, na percepção, coisas são dadas em carne, impõe-se separar as noções e transformar o conceito de imanência.
          • Se a coisa transcendente é dada em carne, a carne não pode ser identificada com o vivido no qual a coisa é esboçada.
          • Pergunta-se então se é concebível a coisa fora de relação ao vivido ou à consciência e se essa relação pode ser pensada como não real.
            • Se a tradição cética responde negativamente ao primeiro ponto, a intencionalidade é apresentada como solução do segundo.
            • Reformula-se que a coisa só tem sentido como intencionada, como relação a transcendência, e como relação dada em carne no próprio vivido.
              • Se a relação é idêntica ao vivido e se o termo objetivo é intencionalmente incluído, então o novo sentido de imanência torna concebível o conceito de percepção encarnada.
  • Conclui-se que a carne se torna o meio do olhar fenomenológico antes de qualquer distinção entre imanência e transcendência.
    • O princípio de princípios é invocado para estabelecer que toda intuição originariamente apresentante é fonte legitimadora e que o que é oferecido originariamente em sua atualidade encarnada deve ser aceito como é apresentado, e apenas nos limites dessa apresentação.
    • Afirma-se que a intuição originária é doação encarnada.
      • Antes da oposição imanência transcendência, uma lei eidética da consciência é apresentada como guiando a redução: o físico dado em presença encarnada pode não existir, mas um processo psíquico dado em carne não pode não existir.
        • Se a carne está em ambos os lados da diferença fundamental, afirma-se que ela escapa a essa diferença e a torna possível.
  • Suspende-se uma série de dilemas que pressupõem compreender a unidade dos diferentes sentidos de carne, indicando que eles serão deixados de lado por ora.
  • A segunda série de questões excede o quadro do estudo, mas indica um objetivo de longo alcance: a relação entre a análise intencional da consciência e a analítica existencial do Dasein.

11. Esboço heideggeriano da confrontação com Husserl e fundação da intencionalidade

  • Uma nota em Ser e Tempo é apresentada como traçando discretamente um confronto ao estabelecer o contorno de uma interpretação da fenomenologia husserliana.
    • No contexto da temporalidade do ser-no-mundo e do problema da transcendência do mundo, afirma-se que a tese segundo a qual todo conhecimento visa a intuição tem sentido temporal, pois todo conhecer é tornar presente.
      • Indica-se que não se decide ali se toda ciência ou mesmo o conhecimento filosófico visa tornar presente.
      • Menciona-se que uma expressão usada por Husserl ao caracterizar a percepção sensível é tornar presente, e sugere-se que tal descrição temporal foi sugerida pela análise de percepção e intuição segundo a ideia de intenção.
    • Afirma-se que a intencionalidade da consciência está fundada na unidade ekstática do Dasein e que isso será mostrado na divisão seguinte.
      • Essa relação é apresentada como relação fundante a ser desvelada numa seção interrompida, num ponto em que o movimento se inverte.
      • A referência à percepção é tomada como indício de que ela exerce papel decisivo na fenomenologia husserliana.
      • Introduz-se uma tese: a característica essencial da percepção sensível não é a encarnação, mas a determinação temporal de sua apresentação, levantando-se a questão de saber se encarnação pode ser reconduzida a apresentação e se carne pode ser reconduzida a temporalidade.
      • Sugere-se que já não se considera a posição de uma obra posterior, mas a de uma obra anterior, e com isso se insinua uma interpretação do trajeto husserliano segundo a qual uma viragem teria sido condicionada por influências, sem que se coloque se ela teria sido motivada pelo princípio fenomenológico do retorno às coisas mesmas.

12. Consequências da impossibilidade de fundar consciência intencional em temporalidade e da impossibilidade de reconduzir encarnação ao tempo

  • Propõe-se supor que não é possível fundar a consciência intencional na temporalidade ekstática, entendida como sentido do ser do Dasein.
    • Propõe-se também supor que, sendo a consciência intencional essencialmente perceptiva, não é possível reconduzir encarnação à temporalidade.
      • Delineiam-se consequências: seria posto em questão o caráter originário do ponto de partida da pergunta do ser, a análise da mundaneidade e, por fim, a analítica existencial inteira enquanto ontologia fundamental e destruição da história da ontologia tradicional.
        • Conclui-se que, mesmo sem desafiar a pergunta do ser como tal, desafiar-se-ia ao menos sua forma em Ser e Tempo, e que uma série complexa de questões envolveria progressivamente toda a meditação.
  • Retoma-se a pergunta pelas condições sob as quais a encarnação poderia ser reconduzida à temporalidade, permanecendo-se no contexto da analítica existencial considerada fundamental.
    • Afirma-se que a encarnação do Dasein é fenomenologicamente inseparável de sua espacialidade.
      • Pergunta-se se é possível derivar a espacialidade do Dasein de sua temporalidade, indicando-se que o parágrafo 70 de Ser e Tempo trata do tema.
        • Uma observação posterior é apresentada como enigmática: a tentativa de derivar a espacialidade humana da temporalidade é insustentável.
  • Observa-se que as declarações heideggerianas sobre a carne não se deixam reunir facilmente numa posição unificada.
    • De um lado, em certos cursos, a carne é reduzida a animalidade ou subjetividade sem ser pensada por si.
    • De outro lado, o corpo é distinguido da animalidade.
    • Afirma-se que a compreensão da carne é ora subordinada à compreensão da vida, ora a compreensão da vida é guiada fenomenologicamente pela compreensão da carne.
      • Menciona-se uma declaração segundo a qual o modo de compreensão que acompanha o animal no humano não foi tocado pela metafísica até agora, e isso é apontado como estranho em relação ao esforço de superar ou abandonar a metafísica.
  • Sustenta-se que a interpretação desses textos exige uma repetição da analítica existencial capaz de compreender como e em que sentido o Dasein abriga a possibilidade intrínseca de dispersar-se facticamente em corporalidade e, assim, em sexualidade, e ainda uma disseminação originária.
    • Uma condição é explicitada: aceitar a irredutibilidade da espacialidade à temporalidade.
  • Se a transcendência descobre sua origem na temporalidade, afirma-se que a questão precisa ser reaberta.
    • De um lado, o conceito existencial de transcendência busca desdobrar implicações radicais da intencionalidade.
    • De outro lado, o sentido da intencionalidade é formado no contexto de uma análise da percepção e parece não atingir toda sua profundidade sem uma tematização da carne.
      • Conclui-se que é necessário proceder a uma análise do sentido e da função da carne.
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