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Carne e esfera do próprio (2014)

Franck2014

1. Situação do problema e nova epoché específica

  • A análise fenomenológica do outro exige libertar-se de toda pressuposição, inclusive implícita, do alter ego.
    • O problema visado é a constituição e o sentido transcendental do outro enquanto estrato universal do sentido do mundo objetivo.
  • Impõe-se, por isso, uma nova epoché de tipo singular.
    • Tudo o que remete, direta ou indiretamente, à subjetividade alheia é excluído do campo temático.
    • Não se trata de repetir a redução fenomenológica geral nem de instaurar uma solidão mundana.
    • Tampouco se trata de reduzir-se ao fenômeno do ego humano, pois este já remete aos outros.
  • O objetivo é delimitar o nexo total da intencionalidade atual e potencial no qual o ego constitui em si mesmo uma esfera própria, designada como esfera do próprio.

2. Tripla abstração constitutiva da redução ao próprio

  • Primeira abstração: exclusão da animalidade egoica.
    • Animais possuem algo como uma estrutura de eu e são sujeitos de uma vida consciente.
    • A fenomenologia da animalidade pressupõe a intersubjetividade.
    • A redução ao próprio deve, portanto, abstrair também dessa forma de egoidade.
  • Segunda abstração: exclusão da cultura.
    • Tudo o que é derivado culturalmente deve ser posto fora de jogo.
    • A dificuldade dessa abstração é reconhecida, mas não tematizada neste estágio.
  • Terceira abstração: exclusão da Umweltlichkeit.
    • O mundo circundante é considerado um conceito espiritual.
    • A analítica heideggeriana da mundanidade é tratada como ontologia regional e, por isso, redutível.
  • O resultado dessas abstrações não é a destruição do mundo, mas a delimitação de um estrato fenomenal coerente.

3. Experiência do próprio como condição da experiência do outro

  • A redução ao próprio preserva um estrato unitário do fenômeno mundo.
    • Trata-se do correlato de uma experiência contínua e harmonicamente coerente.
  • Nenhuma experiência do mundo é possível sem a experiência do próprio.
    • O mundo real é sempre um mundo outro que eu.
    • A sintaxe mesma do outro que eu indica a precedência do próprio.
  • A experiência do próprio é apresentada como essência da experiência.
    • Nenhuma transcendência é pensável sem essa base.
  • Essa tese aproxima a fenomenologia de um princípio kantiano fundamental.
    • As condições da possibilidade da experiência são dadas à própria experiência.

4. Natureza incluída no próprio e heterogeneidade da esfera

  • Da redução resulta uma natureza incluída na esfera do próprio.
    • Não se trata da natureza idealizada da ciência físico-matemática.
    • Trata-se de uma multiplicidade de corpos percebidos sem espaço-tempo homogêneo.
  • Essa natureza é caracterizada pela heterogeneidade.
    • Ela conserva a extensão, mas não a objetividade científica.
  • No interior dessa natureza, a carne aparece como absolutamente singular.
    • A carne não é apenas um corpo entre outros.
    • Ela é o único objeto ao qual se atribuem campos de sensação.
    • Ela é o único objeto no qual o ego governa imediatamente.

5. Carne como meio universal da doação e da ação

  • A carne é apresentada como meio universal da doação dos corpos.
    • Nenhuma síntese objetiva é possível sem disposições cinestésicas da carne.
  • A constituição da carne é pressuposta por toda constituição de coisas.
    • A carne é condição de possibilidade da transcendência mundana.
  • A carne é simultaneamente:
    • órgão de percepção,
    • órgão da vontade,
    • fundamento do poder-fazer.
  • Ela é aquilo que é mais originalmente próprio.
    • Próprio, proximidade e minhidade têm sua origem na carne.
  • Sem tematização da carne, a fenomenologia arrisca perder seu radicalismo.

6. Heterogeneidade interna: carne e corpo

  • A esfera do próprio é heterogênea porque a carne também é corporal.
  • Coloca-se o problema da constituição da carne como corpo.
    • Essa constituição não pode ser simplesmente pressuposta.
  • Husserl analisa a autopercepção tátil como fio condutor.
    • O toque revela uma dupla sensação.
    • O órgão tocante é simultaneamente tocado.
  • Nessa reversibilidade, carne e objeto se confundem.
    • A carne aparece como pura auto-afecção.
  • A coisa corporal resulta apenas quando as sensações são abstraídas.
    • Sem essa abstração, não há corpo, mas carne senciente.

7. Limites da incorporação na esfera do próprio

  • A constituição da carne como corpo revela-se incompleta.
    • A carne não pode ser plenamente objetivada na solidão egológica.
  • A referência implícita a uma completude pressupõe o ponto de vista do outro.
  • A incorporação da carne exige intersubjetividade.
    • Após 1921, Husserl reconhece explicitamente essa dificuldade.
  • A coincidência entre movimento livre e movimento mecânico permanece problemática.
    • Não se esclarece o que autoriza chamar mecânico ao movimento passivo da carne.
  • A incorporação aparece como aporia fundamental da fenomenologia.

8. Extensão da carne e problema do fora-da-carne

  • Se a carne não é corpo na esfera do próprio, seus limites não podem ser corporais.
  • A carne, como órgão de toda percepção, estende-se até onde a percepção alcança.
    • Ela é coextensiva ao mundo do próprio.
  • Torna-se difícil pensar um fora-da-carne.
    • A noção de mundo exterior à carne perde sentido.
  • Sem incorporação, a distinção entre interior e exterior vacila radicalmente.

9. Consequências metodológicas e aporias finais

  • A redução ao próprio conduz à subjetividade monádica concreta.
    • Um mundo próprio é constituído como correlato noemático do ego transcendental.
  • Permanecem, contudo, dificuldades decisivas.
    • O sentido de pessoa, valor e obra parece exigir intersubjetividade.
    • A forma espacial homogênea não pode ser reduzida ao próprio.
  • Ou o espaço é intersubjetivo,
    • ou não se pode falar de exterioridade em sentido pleno.
  • Husserl reconhece a dificuldade em textos tardios.
    • A localização e a locomoção da carne primordial são declaradas destituídas de sentido.
  • A fenomenologia é conduzida ao limiar de sua própria impossibilidade.
    • A incorporação torna-se a condição problemática de toda empatia.
    • A análise da carne e da diferença carne/corpo impõe-se como tarefa inevitável.
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