Explicitação
FRANCK, Didier. Heidegger, Ser e Tempo. Aula de 2005
1. A estrutura da explicitação do compreender articula-se em três momentos, conforme a tripla estrutura formal que Heidegger frequentemente destaca nos fenômenos, pois tudo o que concerne ao Dasein extrai seu sentido da temporalidade, que articula três êxtases, e os três momentos da explicitação, marcados pelo prefixo vor-, têm sentido temporal, numa temporalidade que, diferentemente do conceito tradicional de tempo, temporalizado a partir do agora presente, se temporaliza a partir do êxtase do futuro, como projeção de si para diante e fora de si, de modo que a explicitação se funda num adquirido prévio (Vorhabe), numa visão prévia (Vorsicht) e numa apreensão prévia (Vorgriff), esta última remetendo a uma conceitualidade, explícita ou implícita, na qual o sentido se articula.
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Na análise do medo, já apareciam três termos.
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O conceito tradicional compreende passado e futuro como um agora que não é mais e um agora que ainda não é, variando apenas a concepção do presente.
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O martelo só pode ser compreendido como martelo a partir da totalidade prévia do sistema de remissões, e a explicitação funda-se na aquisição prévia da conjuntura (tournure), traduzindo-se Vorhabe preferencialmente por “adquirido prévio” e não por “pré-aquisição”, pois nada se adquire que antes não se tivesse.
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Vorgriff deve ser traduzido literalmente por “apreensão prévia” (prise préalable), e não por “antecipação”, termo próximo demais de visão prévia, já que Heidegger o emprega em paralelo com Begriff, conceito, na mesma frase em que trata da conceitualidade.
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Ao tomar o martelo para fazer isto ou aquilo, seu sentido só é compreendido por estar articulado numa conceitualidade implícita, e, como afirma Nietzsche, toda palavra é um preconceito.
2. A dimensão de adquirido prévio, visão prévia e apreensão prévia significa que a explicitação nada é sem pressupostos, não havendo visão pura nem dado puro, livres de pressupostos e de sentido, que constituíssem um acesso originário, construção fantástica que ignora a estrutura extática do Dasein, pois sempre já se está no sentido, com a única exceção da revelação de Deus, que não tem pressuposto, sendo ela mesma seus próprios pressupostos, já que Deus se revela sem condição prévia, por sua exclusiva liberdade, e a dimensão da revelação cristã, a Trindade, é o próprio Deus, trazendo consigo as condições de sua revelação, banalidade teológica que serve de contraste.
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Se todas as heresias estão na Igreja, também todas as tolices podem estar na filosofia.
3. A estrutura da explicitação corresponde de certo modo ao que se chamava a priori e funda-se na constituição de ser do Dasein como transcendência, sendo compreendido, no “enquanto”, não propriamente o sentido, mas o próprio ente, o martelo, aberto em sua possibilidade e em seu modo de ser, de modo que o sentido é a dimensão na qual se sustenta a compreensibilidade de algo, “a estrutura formal-existencial da abertura que pertence ao compreender”, retomando, numa linguagem alheia à teoria do conhecimento, aquilo que o a priori designava, e sendo a compreensão um existencial constitutivo do aí, abertura ao ser, cuja necessidade para que o ser se mostre implica a finitude do ser, correlativa da finitude do Dasein, e a mútua implicação de ser e Dasein, cuja relação constitui o ponto essencial.
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O a priori é aquilo que já se deve saber para saber isto ou aquilo, mas pertence ao domínio da teoria do conhecimento, remetendo ao conhecer e ao sujeito, embora Husserl tenha descoberto um a priori não correlativo a um sujeito.
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Numa carta a Jean Beaufret que acompanha a Carta sobre o humanismo, ausente das obras completas alemãs, Heidegger sugere traduzir Dasein por “ser-o-aí”, sendo o aí a abertura ao ser, clareira (Lichtung), aletheia.
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O compreender designa o Dasein enquanto abertura, não apenas ao ente, pois nada seria sem a abertura ao ser, e compreensão do ser nada mais significa que abertura ao ser.
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O motivo essencial e discreto da finitude do ser consiste exclusivamente em que o ser precisa (Brauch) do Dasein para se mostrar, ao passo que a finitude do Dasein, central em Sein und Zeit, é o poder-morrer, e a finitude do ser nunca foi realmente explicada por Heidegger.
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Somente o Dasein pode ter sentido e também não tê-lo, e o sentido do ser nada é por trás do ser, de modo que não há ser sem Dasein, embora a fórmula mais justa seja que não há Dasein sem ser.
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Se o Dasein é historicidade, o ser não é um invariante e nada é fora de sua história, e a relação entre ambos, já entrevista em Sein und Zeit, torna-se depois o foco do pensamento de Heidegger.
4. O final do § 32 mostra que a estrutura tripla da explicitação, remetendo a adquirido prévio, visão prévia e apreensão prévia, instaura o chamado círculo hermenêutico, segundo o qual, para compreender algo, é preciso já tê-lo compreendido, círculo contra o qual não cabe a objeção de vício, pois é imposto pela própria estrutura do Dasein.
5. A hermenêutica foi empregada primeiramente na interpretação bíblica, cujo princípio fundamental, formulado por Santo Agostinho, é que é preciso crer para compreender e compreender para crer, fórmula cuja ordem não é indiferente, pois o acento recai com razão sobre a fé, visto que a explicitação da Bíblia é a vida do crente e a crença é recebida e não adquirida, não sendo algo que se decida por si mesmo.
