4: 25/10/2005
FRANCK, Didier. Heidegger, Ser e Tempo. Aula de 2005
1. Sem se deter nos parágrafos sobre Descartes, destinados a mostrar a pertinência da análise do conceito de mundo, retoma-se a tese de que o utensílio pertence a um conjunto previamente descoberto e acrescenta-se que seu uso não supõe nenhum conhecimento teórico de algo subsistente, rompendo com a tese husserliana, herdada de Brentano, de que toda intencionalidade é representação ou a supõe, pois o trato (Umgang) não é um saber, e o acesso primeiro ao ente não é o saber, assim como o acesso primeiro ao ser é a angústia, de modo que o ser do martelo se revela no uso, no qual se está submetido ao ser-bom-para (um… zu) próprio dele, e é o martelar que descobre sua manejabilidade (Handlichkeit), razão pela qual Heidegger chama Zuhandenheit, ser-à-mão, a determinação ontológico-categorial do utensílio.
-
A ruptura com a filosofia teoreticista, mantida na filosofia transcendental e no neokantismo então em voga, produziu um efeito considerável na época, quando Nietzsche estava ausente da universidade.
-
Ao consertar uma tomada elétrica, a ordem dos gestos é prescrita pela própria coisa e pelas remissões próprias de seus elementos, estando o “sujeito” submetido à coisa e à ocupação.
-
A Bewandtnis pode ser chamada de finalidade se o termo for tomado em grande indeterminação, mas Heidegger recusa o contexto em que ele se inscreve, pois evita pensar o que concerne ao Dasein com conceitos forjados para pensar o ente em geral ou o ente natural, como na ontologia de Aristóteles.
2. Há uma diferença ontológica entre Vorhandenheit, interpretação da substancialidade como permanência daquilo que está plantado diante, desconectado de todo uso, conceito que permite a Heidegger apreender a ontologia aristotélica e a tradição, e Zuhandenheit, modo de ser do utensílio tal como se descobre na ocupação cotidiana, fenômeno que por sua banalidade escapou ao olhar filosófico e jamais foi tematizado, como mostra a análise cartesiana do pedaço de cera, que abstrai o lugar e o complexo a que a cera pertence, sua mundanidade, abstração que também está na base das análises husserlianas da percepção, de modo que a Zuhandenheit é o ser-em-si (An-sich-Sein) do utensílio, inacessível a todo olhar teórico, que é derivado em relação a esse acesso prévio.
-
Mesmo ampliada aos horizontes, a análise husserliana da percepção parte da coisa singular e separada.
-
O ser-em-si do utensílio será retomado até a conferência sobre a coisa.
-
Nenhum professor de filosofia enquanto tal pode aceder ao ser do martelo, tese que encontra eco no que Husserl diz do mundo da vida na Krisis.
3. O fato de o olhar teórico não apreender o martelo não significa que lhe falte um olhar apropriado, a circunvisão (Umsicht), entendida literalmente como olhar em torno, verificando se há tudo o que é necessário para servir-se do martelo.
4. O ser-à-mão, determinação ontológico-categorial do utensílio em si, está sempre em retiro, pois quanto mais o martelo está à mão, mais seu ser-à-mão se retrai, e o sistema de remissões estende-se muito além do martelo e do prego, à obra a produzir, ao tempo da encomenda regulado pelos relógios, à natureza como fonte de materiais e aos outros Dasein, abrangendo a totalidade do ente, sem que isso seja antropocentrismo, já que não há “homem” e o Dasein é pura transcendência em sentido verbal, sempre a caminho (unterwegs), pois tudo em Heidegger possui dimensão verbal e mobilidade própria do ser, não havendo nada de estável, apenas movimentos, que só se compreendem se reefetuados.
-
O tempo aqui em jogo é o tempo vulgar, cuja expressão vem do escólio dos Principia de Newton.
-
A floresta mostra-se de início como reserva de madeira, e não como lugar onde passeiam elfos, duendes e fadas.
-
O marceneiro é utensílio para o cliente e vice-versa, e um funcionário é um utensílio, pois ao aposentar-se é substituído sem que nada mude.
-
A natureza é integrada ao mundo e deve ser descoberta antes de tudo para que algo intramundano possa mostrar-se como tal.
-
No museu de Xangai, um jovem chinês refazia diante de uma caligrafia antiga os movimentos da mão e do corpo necessários para obtê-la, imagem do modo como se deve ler Heidegger.
-
A palavra substância detém o pensamento, e a novidade consiste em pôr em movimento o que estava parado, tendo Hegel como precedente, embora com outra mobilidade.
-
Merleau-Ponty viu em Sein und Zeit uma antropologia filosófica, como finalmente o próprio Heidegger, mas no centro está a vibração do próprio ser presente em tudo o que é.
-
O utensílio realiza seu ser no martelar, que é ato, verbal, sem potência prévia.
5. A Zuhandenheit está necessariamente em retiro no próprio uso, assim como a ontologia é necessária porque o ser está sempre em retiro, e todo o empreendimento extrai seu sentido do esquecimento do ser pensado como retirada do ser, que só se mostra não se mostrando, o que Sein und Zeit não diz suficientemente, colocando-se então a questão de como aceder ao que está em retiro e fazer a experiência da Zuhandenheit.
6. As coisas não são dadas primeiro para depois se revestirem de sentido, mas são dadas pelo próprio sentido, sendo o martelar que dá o martelo como martelo, sem coisas abstratas, inversão da tradição, que parte das propriedades para chegar ao martelo, e esse sentido provém do ser.
7. A determinação categorial do utensílio mostra-se quando algo não funciona, como quando o cabo do martelo se quebra e se revela que ele é feito para ser usado, isto é, a própria manejabilidade, de modo que a função aparece quando os utensílios faltam, anunciando-se o sistema de remissões nos modos deficientes e perturbados, analisados na p. 74, nos quais se anuncia a mundanidade numa espécie de desmundanização instantânea.
8. O mundo surge na perturbação, embora ainda não se saiba ontologicamente o que ele é, e o sistema de remissões que se estende à totalidade do ente mostra-se como tal quando perturbado, abrindo um acesso fenomenológico e atestando que o Dasein, definido como ser-no-mundo, está aberto ao mundo mesmo na ocupação ordinária, restando determinar a estrutura ontológica da remissão e saber se ela pode ser compreendida como signo, lugar clássico do fenômeno da remissão.
9. Entre os comentários de Sein und Zeit, o de Greisch é honroso e o de Biemel muito claro, mas o texto não apresenta hoje grandes problemas de interpretação, sendo preferíveis os comentários mais curtos.
10. A remissão (Verweisung), constitutiva da mundanidade, isto é, da pertença de todo utensílio singular a uma totalidade fora da qual ele não tem ser, é analisada a partir do signo (Zeichen), utensílio em que o fenômeno da remissão se encontra por excelência, cuja utilidade consiste em mostrar (zeigen), como no exemplo da seta indicadora dos primeiros automóveis, compreendida quando os que vêm atrás e os pedestres regulam seu comportamento por ela, de modo que o signo não é uma coisa que mostra outra, mas um utensílio que torna expressamente manifesto o sistema de utensílios e mostra o ser-no-mundo ao ser-no-mundo, conservando a determinação grega do signo como mostrar, mas subordinando o signo à remissão, que não pode ser compreendida a partir dele.
-
A definição tradicional do signo é algo que está por outra coisa, e em A caminho da linguagem Heidegger lembra que os gregos compreendiam o signo a partir do mostrar.
-
Toda remissão é uma relação, mas nem toda relação é remissão, e a utilidade não basta para fazer um signo, pois o martelo não é signo.
-
Não se compreende um mostrar sem considerar o que é mostrado e a quem, assim como o querido pertence essencialmente ao querer.
-
O vento sul é signo diferente para o agricultor e para o meteorologista, pois o signo se inscreve sempre num complexo de utensílios.
-
Heidegger precisa distinguir-se de Leibniz, que viu a mútua pertença dos entes, mostrando que a relação dos entes entre si não pode ser compreendida segundo o modo do signo.
-
O espelho também tem uma relação particular com todos os entes, podendo mostrá-los, como na República de Platão.
-
Subordinar a compreensão dos signos à análise do mundo relega a segundo plano toda fenomenologia que começa pela análise dos signos, como as Investigações lógicas, em relação a uma fenomenologia do ser-no-mundo, operação crítica.
11. O § 18, que trata da própria remissão e acede à mundanidade do mundo, começa recordando (p. 83) que o mundo já está presente em todo ente à mão, previamente descoberto, e não a priori, termo que Heidegger evita, colocando a questão de como o mundo se mostra em seu ser, como compreender sua relação com o que nele se encontra e como interpretar a remissão que não é signo.
12. A remissão é interpretada pela estrutura segundo a qual o ente à mão tem em si o caráter de ser-referido-a, pois com ele “se tem a ver com algo” (Es hat mit ihm bei etwas sein Bewenden), sendo o caráter de ser do à-mão a conjuntura (Bewandtnis), termo que designa numa só palavra a estrutura da remissão com uma nuance de realização, tradução absurda se vertida por finalidade, escolha que não é passe de mágica linguística, pois todo pensamento se faz numa língua e o fenômeno específico da remissão própria do utensílio, distinta da sinalética, precisa ser nomeado, apoiando-se além disso no uso corrente da língua alemã.
-
Martineau traduz por “com ele, retorna de algo”, e Bewenden significa retornar a.
-
Perguntar em alemão para que algo serve é perguntar por sua Bewandtnis, mas a palavra também significa que algo basta para a coisa, e no que “retorna” o martelo chega à sua realização.
-
A expressão “es hat eine eigene Bewandtnis” significa “é uma coisa inteiramente à parte”, isto é, algo que não retorna a nada de outro, e em Que significa pensar? Heidegger a aplica à mão, que não é um utensílio, diferentemente de Aristóteles, para quem ela é instrumento de instrumentos (organon de organon).
-
A diferença sexual tem estrutura análoga, pois o masculino é propriedade de certos indivíduos, mas nome de uma relação impensável sem o feminino, assim como a conjuntura pertence a cada utensílio e remete necessariamente a outra coisa e, portanto, a tudo.
13. A conjuntura é o ser do ente intramundano, e a totalidade conjuntural retorna, em última instância, não a um quê, mas a um quem, o Dasein, ente com a constituição do ser-no-mundo, de modo que a totalidade das remissões, onipresente em cada utensílio, não se fecha sobre si mesma, mas sobre o Dasein, indicando que a mundanidade é uma estrutura do ser do Dasein e que esse conjunto nada tem de substancial, sendo uma totalidade de sentido projetada pelo Dasein, o que confere ao mundo o estatuto de significância (Bedeutsamkeit), abertura prévia de uma dimensão de sentido na qual as coisas podem aparecer como o que são, pondo fim às determinações categoriais e cosmológicas do mundo como grande continente de toda ordem e fazendo do mundo um modo de ser do Dasein.
-
Filosoficamente nenhum sentido cai do céu, embora, com ironia, se admita que isso aconteceu uma vez.
-
Expressões como o mundo de Balzac ou de Wagner designam uma mesma dimensão de sentido, uma cor e uma estrutura própria do sentido, e ganham com essa análise um sentido filosoficamente concebível, fenômeno que Heidegger considera primeiro.
-
O uso do martelo, que é sua compreensão ontológica, só é possível na compreensão da estrutura geral do deixar-retornar-a, que remete ao Dasein, único capaz de compreender e de compreender-se.
14. A aula termina com o aviso de que a próxima, no dia 8, começará às 9h45.
