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estudos:franck:2005:1

1: 04/10/2005

FRANCK, Didier. Heidegger, Ser e Tempo. Aula de 2005

1. O programa compreende três textos organicamente ligados, Ser e tempo, Os problemas fundamentais da fenomenologia e Os conceitos fundamentais da metafísica, sendo Ser e tempo a peça central.

2. Os problemas fundamentais da fenomenologia dividem-se em duas partes, a primeira composta de quatro análises históricas e a segunda dedicada à introdução da diferença ontológica.

3. Os conceitos fundamentais da metafísica articulam-se em três momentos: a análise do tédio como disposição afetiva (Stimmung), a reexposição do conceito de mundo e uma análise do vivente.

4. O texto de Ser e tempo existe numa edição publicada em vida de Heidegger e numa edição póstuma com algumas notas marginais de sua mão.

5. As traduções francesas incluem a de H. Corbin em Que é a metafísica?, com dois capítulos traduzidos, a tradução de metade de Ser e tempo em 1962 e, depois, a de Martineau.

6. A literatura secundária é dispensável, sendo recomendável sobretudo a leitura dos artigos de Lévinas em Descobrindo a existência.

7. Ser e tempo, publicado em 1927 e trabalhado por Heidegger desde 1919, deveria ter sido uma obra sobre Aristóteles, e suas fontes se resumem na declaração de Heidegger: Aristóteles como mestre, Lutero como companheiro, Kierkegaard como fonte dos impulsos decisivos e Husserl como aquele que lhe implantou olhos para ver.

8. Ser e tempo abre-se com uma citação do Sofista (244a), objeto de um curso de 1925: manifestamente, vós estais há muito familiarizados com aquilo que visais propriamente ao empregar a expressão “ente”, mas nós, que antes acreditávamos compreendê-lo, eis que caímos em embaraço.

9. A referência inicial a Platão, ao ente e ao sentido do ser, tema de todo o diálogo do Sofista, mostra que a questão é tão antiga quanto a filosofia, se esta começa com Platão e Aristóteles, e revela sua nobreza, por ter motivado a investigação filosófica de ambos.

10. A questão é a do sentido do ser, sendo o sentido aquilo em que se sustenta a compreensão de algo, e a resposta, dada de imediato mas ainda não esclarecida, é que aquilo em que se sustenta a compreensão do ser é o tempo.

11. Para compreender o título, basta saber que aquilo em que se sustenta o sentido do ser é o tempo.

12. A questão remonta à tese de Brentano Sobre os múltiplos sentidos do ser em Aristóteles, a partir da qual Heidegger indaga qual é o sentido unitário dos múltiplos sentidos segundo os quais o ser se diz nas diferentes categorias, sendo o tempo aquilo a partir do qual o ser é compreendido.

13. A questão não é nova, e por isso Heidegger não a coloca, mas a recoloca.

14. O objeto da aula é a análise dos §§ 1 a 6.

15. A necessidade de retomar a questão do ser decorre de não ter sido recolocada desde Platão e Aristóteles, tendo a filosofia tomado por adquirido o que eles alcançaram, de modo que a questão caiu no esquecimento, esquecimento não psicológico, mas entendido no duplo sentido do genitivo, como esquecimento do ser e esquecimento proveniente do próprio ser, posição em relação à qual Ser e tempo permanece ambíguo, tratando o ser como objeto de esquecimento e, ao mesmo tempo, compreendendo o esquecimento a partir do próprio ser.

16. Em 1949, na conferência sobre o perigo, afirma-se que o ser é o perigo de si mesmo.

17. A extinção da questão com Platão e Aristóteles e a ausência de prioridade do ser na filosofia inscrevem-se numa história da filosofia que vai, segundo as primeiras frases de Ser e tempo, de Platão a Hegel, e que Heidegger mais tarde estenderá de Anaximandro a Nietzsche.

18. A omissão da questão do ser é justificada por três preconceitos: o ser seria o conceito mais universal e mais vazio, o mais evidente e indefinível, ao que Heidegger responde que a universalidade do ser não é a do gênero e que ser o mais universal não significa ser o mais claro, pois essa universalidade exige o esclarecimento de seu sentido.

19. Por essas razões, solidárias de certa interpretação do ser, a questão deve ser retomada, e o § 2, de grande importância, determina a estrutura de todo o conjunto: sendo a questão do ser fundamental e aquela em torno da qual gravita a filosofia, recolocá-la exige que cada um de seus momentos e passos seja tornado transparente, a começar pela elucidação do sentido do que se chama questão.

  • No exemplar oferecido a Husserl, uma epígrafe afirma que a maior clareza é a mais alta beleza.

20. Se a questão do ser é uma, ou antes a questão fundamental, tal questionar exige uma transparência apropriada (§ 2).

21. A estrutura formal da questão é interrogada a partir da atividade, do verbo, já que Heidegger reativou o sentido verbal do ser, segundo a observação de Lévinas.

22. Questionar é buscar, e buscar exige receber orientação de algo, tendo o buscado de algum modo já se mostrado, de modo que toda questão (Frage) versa sobre algo, seu questionado (Gefragte), informa-se junto a algo, seu interrogado (Befragte), a fim de chegar ao perguntado (Erfragte).

23. Na questão do ser reencontram-se os três momentos, pois questiona-se o ser do ente, interroga-se o ente e pede-se que ele conduza ao sentido do ser, que já se mostrou no uso cotidiano do verbo ser, conforme a doutrina husserliana da intuição categorial, de modo que uma compreensão vaga e ordinária do ser é um fato que fornece a orientação média da investigação.

  • Ao dizer “papel branco”, diz-se “este papel é branco”, e embora o “é” não seja visto, nem o papel nem o branco poderiam ser vistos sem ver o “é”.

24. A estrutura formal da questão suscita a dúvida sobre qual ente, na multiplicidade e diversidade dos entes, deve ser interrogado como exemplar para atingir a essência do ser, e a resposta vem de um aspecto até então negligenciado: questionar é uma conduta que não pertence à pedra, ao animal ou aos deuses, mas apenas ao ente que nós mesmos somos, o primeiro a ser interrogado, o que explica o vínculo entre ontologia fundamental e analítica existencial.

25. O ente que somos é denominado Dasein, termo que na língua filosófica alemã tradicional significa “existência”, sem concernir ao propriamente humano, e que Heidegger ressignifica completamente, com a vantagem positiva de conter sein e a função negativa de romper com o conceito de vida, empregado nas primeiras análises da existência como “vida factual” e identificado, no Relatório para Natorp de 1922, como conceito-chave de toda interpretação cristã e filosófica do homem, de modo que o afastamento desse conceito extirpa a teologia da interrogação filosófica.

  • O Relatório para Natorp, Interpretação fenomenológica de Aristóteles, constitui um primeiro esboço de Ser e tempo como estudo sobre Aristóteles.

26. Aos três momentos do questionar, Lévinas acrescenta uma dimensão que Heidegger parece não ter visto: toda questão é um pedido dirigido a outrem, e tornar transparente a estrutura da questão exige dar conta do lugar do outro.

27. A escolha de interrogar o Dasein indica uma relação essencial entre o ente que somos e o ser, entre Dasein e Sein, que permanece tema essencial para Heidegger, contra a tese de Merleau-Ponty de que ele se teria ocupado depois apenas do ser, pois mesmo quando parece falar só do ser fala também do Dasein, do mortal.

28. Não bastando apelar à nobreza da questão do ser, Heidegger mostra sua primazia ontológica e ôntica.

29. A primazia ontológica funda-se em que o ser é sempre ser de um ente (§ 3), não havendo separação, mas distinção entre ser e ente, que remete sempre àquilo de que provém, diferença já posta em Ser e tempo, embora ainda não nomeada diferença ontológica.

30. O ente, múltiplo, divide-se em domínios ou regiões, objeto de ciências regionais que tematizam objetos de mesmo modo de ser e dão lugar a ontologias regionais, todas as quais remetem, enquanto ontologias, a uma ontologia fundamental que tematiza o sentido do próprio ser.

31. A situação histórica do saber torna particularmente necessária a recolocação da questão do ser, dada a crise dos fundamentos, especialmente da física, fio condutor da ciência moderna e em crise desde a descoberta de Planck e a física quântica, que Heidegger sempre acompanhou.

32. Há também mudanças na biologia, que passa de uma teoria celular a uma ordenação pelas relações entre organismo e ambiente, e na teologia, que muda de linguagem após a Primeira Guerra Mundial, como no comentário de Karl Barth à Epístola aos Romanos.

33. Tratando-se de uma crise dos fundamentos, é a natureza do fundamento último do saber, o ser, que deve ser interrogada, e nada é mais urgente que colocar a questão dos diferentes sentidos que o ser pode assumir a partir de seu sentido fundamental.

34. Toda ontologia, por mais rico e coerente que seja seu sistema categorial, permanece cega e perverte sua intenção mais própria se não começar por esclarecer suficientemente o sentido do ser e reconhecer esse esclarecimento como sua tarefa fundamental (§ 3).

35. A primazia ôntica da questão do ser remete ao Dasein, que questiona e cujo modo de ser se caracteriza pelo saber, cuja forma mais alta versa sobre o próprio ser, distinguindo-se de todos os outros entes por ser compreensão do ser e por buscar um saber do ser, o que supõe uma relação privilegiada com ele, tese talvez não nova, já que o De anima afirma que a alma é de certo modo todos os entes e a Antiguidade reservava o logos ao homem.

36. A compreensão do ser é ela mesma uma determinidade de ser do Dasein (§ 4).

37. O ser do Dasein é o próprio ser, ponto capital, e, inversamente, para o próprio ser, o Dasein é seu.

38. Reaparece assim sempre a questão das relações entre Dasein e Sein.

39. O Dasein é o único ente capaz de ontologia, e seu privilégio ôntico consiste em ser ontológico, pensando Heidegger, na época de Ser e tempo, que ainda se pode fundar o logos, que mais tarde ocupará o primeiro lugar.

40. O Dasein é o modo de realização concreta da diferença ontológica, por ser o único em relação com o ser, relação que condiciona, por exemplo, a possibilidade de uma relação do homem com Deus, visando sempre extirpar da filosofia todo resto de teologia.

41. O modo de ser do Dasein é fundamentalmente outro que o de todos os demais entes, pois apenas o Dasein existe, restando compreender por que o termo existência lhe é reservado.

42. A primeira razão provém de Kierkegaard e da raiz ex-, sair de: se o ser do homem está em Deus, seu modo de ser fundamental é a saída de si, a existência, estrutura retomada por Heidegger na relação entre Dasein e ser, juntamente com a herança husserliana do combate à reificação da consciência, conferindo à existência um caráter ontológico próprio e único.

43. Se existir e compreender o ser são uma só coisa, cada maneira de ser é uma compreensão do ser e cada compreensão do ser é uma possibilidade, de modo que existir é sempre apreender uma possibilidade e apreender-se nela, isto é, existir um poder-ser.

44. A análise das estruturas da existência, dos modos de ser próprios do Dasein, é a análise da existencialidade, cujas “categorias” são os existenciais, originando a analítica existencial.

45. A autocompreensão do Dasein inclui sempre uma compreensão do ser, tanto do seu quanto do ser que ele não é, pois existe sempre num mundo, ocupado e em relação com isto ou aquilo, de modo que a resposta à questão do sentido do ser em geral deve ser buscada na analítica existencial, estrutura nada nova, já que nas Meditações de Descartes a análise das ideias em mim vale para a de todas as representações, fazendo a ontologia bascular numa egologia, assim como em Kant, buscando-se no ego que somos a resposta à questão do sentido do ser.

46. O problema seguinte, objeto do segundo capítulo, é o de saber como proceder para empreender a analítica existencial.

47. Sendo o Dasein o ente que compreende o ser e o único a partir do qual o ser é acessível, o acesso ao verdadeiro sentido de seu ser deveria permitir o acesso ao verdadeiro sentido do ser, passagem jamais realizada, pois o livro permaneceu interrompido e inacabado por razões essenciais.

48. O Dasein, ente que somos, é onticamente o mais próximo e ontologicamente o mais distante, permanecendo obscuro a si mesmo enquanto o sentido do ser não é conhecido, o que exige partir do modo como se compreende “imediatamente” na existência cotidiana, ocupado com seus afazeres e preocupado com o que o cerca, compreendendo-se a partir dos entes intramundanos, de modo que o Dasein deve ser analisado em sua cotidianidade, restando saber se pode compreender-se a partir do que tem de mais próprio.

49. O tempo constitui o sentido do ser e, na cotidianidade, serve de critério para distinguir as diferentes regiões do ser, pois existir cotidianamente é existir no tempo vulgar, expressão de Newton no escólio dos Principia, e toda compreensão do Dasein é compreensão do tempo, como já entre os gregos, para quem o ser era compreendido como parousia, de modo que o Dasein está sempre inserido numa história e sua existência depende da compreensão do tempo transmitida pela tradição, exigindo, sendo interrompida a história da ontologia, uma destruição dessa história (§ 6), isto é, a recuperação das experiências iniciais que a fundam, inseparável da analítica existencial.

  • Mesmo a existência cotidiana é histórica, e todo mundo histórico é um mundo espiritual.
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