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O Outro
FBAE
- I. Temporalidade e intersubjetividade
- 1. A primeira divergência explícita entre a análise existencial e a analítica existencial de Heidegger
- A partir do método delineado por Ludwig Binswanger, a temporalidade deixa de ser o fundamento último da existência humana e perde o estatuto ontológico central que possuía na analítica existencial heideggeriana.
- A experiência do luto mostra que o sentido último do tempo não se radica no ser do ser humano enquanto tal, mas na existência dos outros, de modo que o tempo recolhe apenas os significados da coexistência humana.
- O tempo é compreendido exclusivamente como tempo da presença e da ausência, não como abertura do ser, mas como modo segundo pelo qual o Outro se apresenta ou se retira.
- A transcendência temporal não remete à verdade do ser, mas à transcendência do Outro que se oferece na plenitude perceptiva ou que se ausenta deixando a marca da perda.
- O tempo não funda a liberdade, mas constitui o campo no qual as liberdades se confrontam, convergem ou divergem.
- As diferentes figuras do tempo — tempo objetivo das coisas, tempo caótico do movimento, tempo das catástrofes, tempo do fim dos tempos — exprimem modos de desencontro entre as liberdades.
- Quando as liberdades se reencontram, o tempo recupera sua autenticidade precisamente ao se negar como tempo, na forma da eternidade própria do amor.
- Com isso, o tempo perde duplamente seu privilégio ontológico: não exprime a transcendência da verdade e não constitui a liberdade, permanecendo sempre subordinado ao Outro e ao amor.
- Essa posição marca uma ruptura decisiva com o projeto de Ser e Tempo, revelando uma distância estrutural entre a análise existencial de Binswanger e a ontologia fundamental de Heidegger.
- Tal ruptura indica que a análise existencial não depende logicamente da analítica heideggeriana e poderia ter-se constituído de maneira independente.
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- Desde o século XIX, a psiquiatria atribuiu importância crescente à percepção do outro e às formas de reconhecimento intersubjetivo.
- Em autores como Pierre Janet, a conduta social aparece como progresso evolutivo frágil, facilmente comprometido pela diminuição da tensão psíquica.
- Em Paul Blondel, a consciência patológica é caracterizada pela dissolução dos referenciais sociais e linguísticos, com emergência de um mundo cinestésico privado.
- Em Eugen Bleuler, o retraimento afetivo em relação aos outros, designado como autismo, torna-se sintoma central da esquizofrenia.
- Nessas abordagens, porém, o distúrbio da relação com os outros permanece um efeito secundário de um desarranjo mais profundo, sendo o evento patológico essencialmente individual.
- Sigmund Freud desloca esse horizonte ao tornar o Outro protagonista da gênese patológica, sob a forma das imagos materna e paterna.
- O complexo de Édipo revela que o personagem humano está presente no coração do desenvolvimento psíquico e constitui a origem dos significados.
- Freud mostra que, no âmbito humano, a sucessão só é possível a partir da coexistência, rompendo parcialmente com o naturalismo evolucionista.
- Contudo, na experiência psicanalítica, o Outro permanece ambíguo, aparecendo como ponto de cristalização das pulsões contraditórias ou como interlocutor mítico de um diálogo sem resposta.
- O Outro é essencial à gênese, mas não é constitutivo da experiência psicológica enquanto tal, sendo reduzido a figura imaginária ou retórica.
- A fenomenologia husserliana introduz a virada decisiva ao reconhecer o caráter constitutivo da experiência do Outro como coexistência absoluta.
- Diferentemente das coisas, constituídas relativamente por perfis e esboços, a pessoa é constituída de modo absoluto, apresentando-se desde o início como totalidade.
- O reconhecimento do Outro remete à intersubjetividade transcendental, na qual cada eu se afirma como mônada em relação íntima com as demais.
- A perturbação da experiência do Outro não pode mais ser considerada um efeito derivado, mas atinge as formas mais fundamentais da existência.
- II. A figura do Outro no horizonte da doença
- 1. O outro em âmbito fenomenológico
- No campo fenomenológico, a pessoa manifesta-se como totalidade absoluta na forma da coexistência.
- Essa totalidade não é uma soma de partes nem uma unidade orgânica funcional, mas o mínimo indispensável para o reconhecimento imediato da presença do Outro.
- A experiência patológica pode contestar essa totalidade, fazendo com que o Outro apareça apenas como conjunto de aparições fragmentárias e relativas.
- Surge assim o problema de compreender como a totalidade absoluta do Outro pode ser obscurecida ou deformada na doença.
- 2. A totalidade do outro e as perversões sexuais
- Em Ideias II, Edmund Husserl mostra que a pessoa, enquanto Geist, se anuncia sempre através do corpo vivido.
- A presença corporal remete a um domínio de significados espirituais que não se esgotam em determinações naturais.
- Certas perversões sexuais, como o fetichismo, parecem indicar uma dificuldade de apreender o Outro como totalidade corpórea e espiritual.
- Freud associa a perversão à reativação de investimentos libidinais segmentários e à impossibilidade de assumir o Outro na sua totalidade.
- Autores como Viktor von Gebsattel interpretam o fetichismo como fragmentação destrutiva da totalidade do Outro.
- Essas interpretações, porém, permanecem presas à totalidade orgânica e não alcançam a totalidade absoluta da presença pessoal.
- Medard Boss propõe compreender as perversões como tentativas desviadas de recuperar a experiência do Outro enquanto totalidade absoluta.
- No caso de Konrad Schwing, o fetichismo aparece como via indireta para reencontrar a reciprocidade amorosa bloqueada pela angústia.
- Através de elementos periféricos e impersonais do corpo, Konrad consegue acessar novamente a experiência do Tu.
- O fetichismo não simboliza simplesmente o desejo recalcado, mas constitui um caminho oblíquo para a experiência do Outro como totalidade.
- III. Casos clínicos
- 1. O caso de Konrad Schwing
- A história de Konrad revela uma infância marcada pela rejeição materna e pela ausência afetiva.
- A impossibilidade de uma comunicação corporal originária transforma o corpo em fonte de angústia.
- O amor e a sexualidade perdem sua linguagem originária e deslocam-se para um universo mítico e desincorporado.
- Os objetos fetichizados permitem a Konrad reencontrar, de modo precário, a experiência da reciprocidade amorosa.
- O fetichismo aparece como tentativa existencial de restaurar a totalidade do Outro sem enfrentar diretamente a angústia corporal.
- 2. O caso de Lola Voss
- A evolução da doença de Lola Voss mostra a passagem de um sistema supersticioso defensivo para um delírio de perseguição.
- Na fase inicial, os rituais supersticiosos concentram a angústia difusa em objetos e sinais controláveis.
- Progressivamente, o Outro deixa de ser portador contingente de significados hostis e passa a encarná-los plenamente.
- O delírio transforma o Outro em manifestação imediata do perigo, abolindo sua posição como origem absoluta de significados.
- A existência dos outros torna-se mero momento constitutivo de um mundo persecutório já totalizado.
- O delírio revela a substituição da transcendência viva do Outro por um a priori fechado de significações.
- IV. Distância da Daseinsanalyse em relação à fenomenologia de Husserl e à ontologia de Heidegger
- 1. O caso de Jürg Zünd
- A história de Jürg Zünd mostra uma existência marcada pela oposição constante entre pertencimento e exclusão.
- A relação com os outros é vivida sob a forma da hostilidade e da vigilância, nunca como encontro dual.
- A Mitwelt aparece como Gegenwelt, mundo contra o sujeito.
- A experiência do Outro é sempre plural e anônima, jamais pessoal e recíproca.
- O tempo fragmenta-se em urgências sucessivas e o espaço reduz-se à rua anônima e ameaçadora.
- A perda do modo de ser-em-dois impede a continuidade temporal e a familiaridade espacial.
- 2. O primado antropológico do amor
- A análise existencial conduz ao reconhecimento do primado antropológico do amor e do ser-em-dois.
- O amor possibilita a continuidade do tempo, a habitabilidade do espaço e a expressão viva do corpo.
- As estruturas fundamentais da existência derivam da possibilidade do encontro amoroso.
- A doença aparece como queda fora dessa segurança originária do amor.
- A Daseinsanalyse afasta-se da ontologia do cuidado e reenraíza a compreensão da existência na experiência do nós.
- O tempo deve ser pensado a partir da eternidade instantânea do amor e o espaço a partir da pátria familiar do encontro.
- A análise existencial encontra aqui seu fundamento teórico e seu ponto de inserção terapêutica.
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