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FIGAL (2005:36-37) – POSSIBILIDADE

Não obstante, já se pode compreender um pouco melhor o conceito heideggeriano de fenomenologia como retenção da possibilidade se se esclarece o contexto ao qual esse conceito está ligado aqui. Esse contexto aponta para a determinação da relação entre possibilidade e realidade, tal como Kierkegaard a desenvolveu. Em seu escrito sobre o Conceito de angústia, Kierkegaard emprega o termo “possibilidade” como uma determinação da liberdade. Liberdade é “possibilidade para a possibilidade”; e isso significa, por sua vez: liberdade é a capacidade de experimentar a possibilidade como tal. Nesse sentido, a liberdade é experimentada nesse contexto como “repetição”. Tendo como ponto de partida que o conceito de possibilidade é determinado em sua relação com o de realidade, Kierkegaard apreende a experiência da possibilidade como a experiência do vir-a-ser de algo real. Como diz Kierkegaard, o que é só pode ser experimentado como possível na medida em que se “acredita” que ele veio a ser. Não é a suposição de que ele pode ser algo diferente ou pode ser diferentemente que outorga o discurso acerca de um “possível”, pois aqui é o outro e não o que se encontra presente que é possível. Ao contrário, o que legitima o discurso acerca de um “possível” é a suposição de que ele era possível e, então, realmente veio a ser: “A possibilidade, da qual o possível que se tornou o real proveio, acompanha constantemente o que veio a ser, e permanece junto ao que passou – mesmo que houvesse milênios entre eles: logo que o posterior repete o fato de ter vindo a ser (e ele o faz quando acredita nisso), ele repete a sua possibilidade, indiferentemente quanto a se aqui pode ou não ter lugar o discurso acerca de representações mais exatas.” Se Kierkegaard fala aqui de crença, então é certo que ele emprega esse (37) termo tendo em vista a sua significação religiosa, mas não nessa significação. O fato de precisarmos “acreditar” no caráter de possibilidade do que está realmente presente não deve dizer mais do que o fato de não conseguirmos notar no que se encontra realmente presente o seu vir-a-ser e de que esse seu vir-a-ser não pode, tampouco, ser conhecido imediatamente de nenhuma outra maneira. A possibilidade precisa ser repetida por meio da crença, isto é, ela precisa ser “tomada uma vez mais”. [FIGAL, Günter. Martin Heidegger: Fenomenologia da Liberdade. Tr. Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense, 2005, p. 36-37]

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