estudos:figal:estetica:beleza-heidegger-e-gadamer-2015
Beleza
FIGAL, Günter. Aesthetics as phenomenology: the appearance of things. Bloomington: Indiana University Press, 2015
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Para descrever a experiência estética, deve-se começar por Kant, que determinou sua autonomia contra a cognitio sensitiva de Baumgarten, a qual permanecia mera modificação restrita do saber conceitual
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O salto de Kant além de Baumgarten tem aspectos irritantes, pois trata a experiência estética como processo interno à consciência, mas um exame mais atento mostra que esse processo não é solipsista nem autossugestivo, dirigindo-se a algo, de modo que ainda se pode falar de experiência e conhecimento
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O empreendimento kantiano repousa no pressuposto de que a experiência estética é experiência do belo, portanto do gosto, entendido como capacidade sensível de julgamento com pretensão de validade além da inclinação momentânea
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possuir gosto torna-se ideal social, conferindo reconhecimento e autoridade a quem o possui em relação a estilo de vida, mobília, roupas e maneiras
Kant é o primeiro a enfatizar o desinteresse do juízo estético, pois quem acha algo belo não visa ao próprio bem-estar nem à utilidade, concedendo ao belo apenas favor, e não afinidade nem respeitoSendo desinteressado, o juízo estético não se funda em sensação alguma, sendo independente de estímulo e afeto, e aquilo que agrada nele é dar ocasião à reflexão, por isso o gosto pelo belo é “gosto reflexivo”A reflexão aqui consiste na tentativa de apreender algo no contexto da totalidade de seus momentos sem poder determinar essa totalidade como tal, sendo o juízo reflexivo quando não se pode determinar diretamente o universal correspondente ao particular-
a beleza não é propriedade comparável a tamanho ou cor, mas designa a incomparabilidade de algo individual, e julgar objetos apenas por conceitos faz perder toda noção de beleza
Apesar disso, a reflexão pertencente à experiência do belo possui validade universal, não absoluta mas geralmente válida, reivindicando o assentimento de todos sem se limitar à comunicação de preferência pessoalO juízo estético cumprido pela reflexão manifesta sua validade geral na relação com seu objeto, pois ao chamar algo de belo espera-se o mesmo deleite dos outros, falando-se da beleza como se fosse propriedade das coisasPara Kant, a beleza não é de fato uma propriedade, de modo que a universalidade reivindicada no juízo estético só pode ser “universalidade subjetiva”, contendo apenas uma relação da apresentação do objeto com o sujeitoSe assim é, o juízo estético estaria preso a um autoengano estrutural, pois só pode se formular com referência a um “objeto” sem ser objetivo, não podendo o belo ser fundado em condições privadas de deleite-
a experiência do belo, diferentemente do prazer que sacia sede ou fome conforme o Filebo de Platão, não se mistura a prazer ou incômodo, sendo-se “completamente livre” perante o belo
Kant elabora essa liberdade através da noção mais célebre de sua concepção estética, segundo a qual o fundamento do juízo estético só pode ser o estado mental encontrado na relação entre as faculdades de apresentação enquanto referidas ao conhecimento em geral-
esse “livre jogo das faculdades cognitivas” ocorre porque nenhum conceito particular as limita a uma regra determinada de conhecimento, libertando o pensamento mesmo além da não vinculação afetiva ao belo
Kant não desenvolveu mais o “livre jogo das faculdades cognitivas”, mas pelo caráter das duas faculdades nomeadas pode-se inferir como ocorre essa atividade livre não dirigida à determinação de um objeto de conhecimento-
a imaginação fornece ao entendimento um múltiplo estruturado de intuições que, no entanto, não chega a ser unificado sob um conceito, pois os conceitos aplicados não conseguem envolver esse múltiplo, sendo devolvidos pelo entendimento à imaginação, que pode gerar novas formações conceituais
O livre jogo das faculdades cognitivas, assim elaborado, nada mais é que a atividade do juízo reflexivo determinada esteticamente, ou seja, pela percepção, vinculada ao singular e incomparável tal como a imaginação o reúne numa “apresentação dada”-
precisamente por estar ligada ao incomparável, a capacidade de apreender é livre, podendo desdobrar-se em jogo porque não está obrigada a um resultado do juízo cognitivo
A atividade do juízo reflexivo relaciona-se, assim, ao “conhecimento como tal”, que se manifesta pela inconclusividade da reflexão estética, trazendo as faculdades cognitivas à “harmonia proporcionada” exigida por todo conhecimento-
mantidas separadas em sua idiossincrasia e ao mesmo tempo relacionadas entre si, as duas faculdades tornam possível o próprio conhecimento
Se o livre jogo das faculdades cognitivas procede assim, deve ser experiência muito intensiva, falando Kant de uma “sensação” que consiste no jogo facilitado das potências mentais vivificadas pela harmonia mútua-
já no início da Crítica do juízo Kant relacionara a apresentação inteiramente ao sujeito e a seu “sentimento de vida”, identificando a “unidade subjetiva” de entendimento e imaginação apenas “por sensação”, postulando o juízo de gosto a “comunicabilidade universal” dessa vivificação
Segundo essas definições, a reflexão estética teria a ver com uma atividade mental diferenciada e intensificada experimentada estritamente como sensação, mas essa atividade, como interjogo das faculdades, não se esgota na sensação de vivificaçãoAinda que haja passagens que sustentem a redução da experiência estética à sensação, essa redução não pode captar o sentido de uma abordagem que a toma primariamente como reflexão, pois é somente porque Kant funda o deleite estético no livre jogo que pode descrevê-lo como seu “efeito”A razão kantiana para essa dependência explica indiretamente seu procedimento, pois nem o prazer nem a reflexão estética podem se relacionar a um objeto, já que a relação objetiva é afetiva e cognitivamente diferente-
o preço desse argumento é a premissa de que a experiência estética equivale a um autoengano estrutural, reduzindo-se a um “sentir-se a si mesmo” que pode ser ocasionado por qualquer coisa
A solução do problema kantiano está em levar a sério sua determinação da reflexão estética como livre jogo das faculdades cognitivas, sendo a experiência estética uma experiência do “conhecimento como tal” e, por isso, não podendo ser conhecimento normalEssa relação da experiência estética a algo não é apreensível no arcabouço da concepção kantiana de estética, mas a relação existe e não pode ser reduzida a autoengano, havendo um quadro desigual em que Kant nega e ao mesmo tempo pressupõe algo a ser experimentado esteticamente-
só se pode falar de harmonia entre liberdade e natureza se algo se contrapuser à liberdade com que ela possa harmonizar, confirmando Adorno que a análise kantiana não é mero “subjetivismo”
O lado do experimentado já está em jogo quando Kant chama o juízo de gosto de “contemplativo”, pois a observação é sempre observação de algo, sendo a “compleição” do objeto, e não sua existência real, aquilo unido ao sentimento de prazer e desprazerKant nem sempre concebe a reflexão estética como mero processo interno, afirmando que o prazer no belo acompanha a apreensão comum de um objeto realizada por imaginação e entendimento, dependendo de uma reflexão que remete a algum conceito indeterminado-
mas no livre jogo trata seus conceitos de modo lúdico, sem fixar-se em nenhum determinado, fazendo justiça àquilo que encontra em seu objeto
Ao desenvolver seu conceito de beleza como qualidade dos objetos, Kant vai longe o bastante para que a experiência estética relacionada a algo se confirme, mesmo que essa nomeação como “qualidade” fique aquém da essência objetiva do beloKant determina a beleza como “forma da finalidade de um objeto enquanto percebida nele sem a apresentação de um fim”, formulação paradoxal comparável ao conceito de “fim em si mesmo” descoberto por Kant como dignidade da pessoa-
assim como a pessoa não deve ser vista como fim de outrem, a finalidade sem fim orienta-se pelo processo de produção apenas para rejeitá-lo, pois algo só é fim em relação a um conceito tomado como sua “causa”
Não havendo fim relativo à beleza, não se pode falar propriamente de sua finalidade, devendo ela antes instaurar a noção de uma finalidade que não se resolve como as imputações normais de finalidade, buscando o conceito causador-
diferente de um achado arqueológico cuja finalidade se desconhece, coisas belas são consideradas belas porque, ao percebê-las, encontra-se certa finalidade que, ao ser julgada, não se relaciona a nenhum fim
A explicação do paradoxo mantém intacto o enigma de sua paradoxalidade, pois a inadequação da noção de finalidade é imediatamente apreensível, ao passo que sua adequação constitui o problema a esclarecerA indicação de que a noção de finalidade provém do âmbito da produção não esclarece totalmente, pois o belo na natureza não é finalidade nesse sentido, e a finalidade nos produtos da bela arte, mesmo intencional, não deve parecer intencional-
a beleza não se determina pela orientação da produção, envolvendo antes a não essencialidade da intenção, pois assim que algo parece “intencionado” na arte deixa de ser chamado belo
Ainda assim Kant chama a beleza de “finalística”, devendo o termo significar algo pertencente ao contexto da produção mas que não se refere ao próprio processo produtivo enquanto talUma questão desse tipo indaga como algo é possível como aquilo que é e do modo como existe, surgindo a pergunta pela possibilidade quase automaticamente diante de algo coerente e convincente que não é autoevidente-
o conceito pelo qual algo é determinado como fim é chamado por Kant “fundamento real de sua possibilidade”, de modo que a finalidade sem fim só pode referir-se à articulação do possível com seu fundamento
Ao indagar pela possibilidade de algo e por seus fundamentos, vai-se além da coisa para compreendê-la por meio de outra coisa, situando-a no campo do possível e não do existente autoevidente determinável sem maisNo mundo do autoevidente abre-se uma fenda sutil quando algo, para ser adequadamente entendido, exige indagação por um conceito subjacente, tratando-se então o objeto como efeito possível somente através de um conceito desse efeito-
o conceito precede aquilo a ser determinado como “fundamento real de sua possibilidade”, coincidindo, quando reconhecido em sua finalidade, o conceito cognoscente com o conceito subjacente ao cognoscido
A fenda aberta pela duplicação de conceitos pode persistir mesmo sem se pressupor um conceito do lado do cognoscido, sendo então o cognoscido sem fundamento quanto à sua cognoscibilidade, permanecendo, contudo, algo possívelSó se pode falar do cognoscido como sem fundamento se ele ainda for concebido com referência a um fundamento, estando este em jogo como o que falta, podendo a relação, como diz Heidegger, persistir precisamente por sua ausênciaExaminando de perto, porém, o vazio aberto não se concebe por referência a algo específico que o preenchesse, mas é a própria pergunta que avança além do dado rumo a uma abertura em que um fundamento real poderia estar, conduzindo ao “abismo”É assim que se deve pensar o “sem fim” da determinação kantiana da beleza, sendo o possível cuja possibilidade não pode ser determinada por meio de outra coisa, ainda que a pergunta pela sua proveniência seja evidente sem ser posta como pergunta por um fundamento específicoA pergunta pelo fim de algo conduz a considerar sua finalidade, sendo algo experimentado como final quando sua compleição induz à pergunta de onde provém, existindo então segundo “medidas do fim”, como formula Platão no Górgias sobre a ordem (κόσμος) enquanto disposição (τάξις)Pode também haver coerência sem disposição, como no caso do feliz acaso reconhecido como tal, cuja ordem não é arranjo, e por isso se risca a noção de finalidade, sendo a experiência do coerente sem fundamento, que é algo possível, a própria experiência da belezaKant procura fazer justiça a essa essência incomparável do belo através de exemplos incomuns como papagaios, colibris, aves do paraíso, certos crustáceos marinhos, desenhos à la grecque, ornamentos de rendas ou papel de parede, jardins ingleses e móveis barrocosEssa acusação acerta um ponto decisivo mas erra o que realmente importa, pois o conceito kantiano do belo busca “beleza livre de conceitos e sentido” sem se orientar por meros jogos mundanos de cor e forma, já que esse jogo livre só é provocado por algo que desperta a cognição e ao mesmo tempo se subtrai a suas sínteses-
é assim com a plumagem colorida de papagaios, colibris e aves do paraíso, ou com a beleza do jardim inglês, como o parque do Ilm em Weimar, que não reside no inventário de suas árvores e gramados, mas na configuração sempre nova de imagens conforme o ponto de vista
Aquilo que Kant procura elucidar com seus exemplos é a coerência dentro das coisas e entre elas, radicalmente distinta de sua ordem imanente e conceitualmente apreensível, tratando-se de “belezas livres” que agradam livremente e por si mesmasEsse resultado esclarece como se deve conceber a liberdade no jogo das faculdades cognitivas, só podendo ser suscitada pela liberdade do belo, nada tendo a ver com a liberdade ética que Kant concebe como autonomia-
apesar do paralelo traçado pelo próprio Kant entre liberdade estética e moral, a espontaneidade não é autonomia, sendo a reflexão estética um livre jogo sem lei, esclarecível apenas a partir da beleza livre nela experimentada
Kant elaborou essa coerência não regulada do belo por meio de um processo natural chamado “formação livre”, como a cristalização, podendo-se também designar assim a “ideia estética” elucidada por meio da poesia-
ideias estéticas são apresentações da imaginação ligadas a tal multidão de apresentações parciais em uso livre que nenhuma expressão pode designar um conceito específico, como no “reino dos bem-aventurados”, no “reino do inferno”, na “eternidade” ou na “criação”, exemplificadas na Divina Comédia de Dante e no Paraíso perdido de Milton
O que Kant diz sobre formação livre e ideias estéticas permanece indicativo e alusivo, sendo ainda assim o ponto em que mais consegue apresentar a coerência sem fundamento que, a seu ver, constitui o beloDeve-se retomar a indicação kantiana do caráter tecidual de certas formações livres, pois uma ordem bela nunca tem caráter de figura fixa, sendo antes tecido que construção rigidamente articulada, mais horizontal que vertical, irregular no sentido estrito de não seguir regra-
uma ordem bela pode ser copiada mas não repetida como uma construção geométrica, sendo seus momentos variáveis e podendo cada um entrar em nova correspondência conforme o momento a partir do qual se olha, de modo que a ordem se concebe por cada um de seus momentos e é, portanto, descentrada
As ordens descentradas continuam sendo ordens, podendo ser muito exatas e específicas, não devendo ser confundidas com vagueza, apenas não sendo apreensíveis num relance, mas somente ao se envolver com elas de modo concentrado e rigorosoKant apreendeu a essência do belo como ordem descentrada com notável intuição, mas a dificuldade do empreendimento residia na natureza da matéria e no fato de que a beleza, sendo sui generis, não se deixa aplicar pelos conceitos usuais de coisa, fim ou sensação-
a beleza situa-se na periferia das coisas ou em seus interstícios, não na sua determinação conceitualmente apreensível, o que explica os exemplos kantianos e não uma preferência bizarra pelo decorativo
Essa inesgotabilidade e esse caráter periférico e descentrado do belo são essenciais aos fins sistemáticos de Kant, ligando-se diretamente à questão condutora da Crítica do juízo sobre o alinhamento entre liberdade humana e natureza-
se houvesse finalidade e determinação conceitual claramente reconhecíveis na natureza correspondentes à posição humana de fins, o ser humano apenas se encontraria a si mesmo no estranho, tornando supérflua a questão da concordância entre humanos e natureza
Ao manter a concordância entre liberdade e natureza vinculada a uma finalidade que dispensa um fim, Kant não recua filosoficamente, mas oferece a solução mais radical frente ao Idealismo alemão, pois são as ordens descentradas, e não fins derivados, que tornam concebível tal concordânciaKant pouco explora essa concordância demonstrada entre liberdade e natureza, já cumprido o objetivo sistemático da Crítica do juízo, permanecendo em aberto quais possibilidades de exploração ainda restam à reflexão estética como talNão bastam os limites temáticos da Crítica do juízo para esclarecer o desinteresse kantiano por uma determinação mais exata da reflexão estética, sendo significativo que, para Kant, essa reflexão seja não regulada e fundamentalmente incontrolável em seu exercício-
essa falta de controle é mais suportável porque a reflexão estética não deve ser autônoma, unindo-se antes ao intercâmbio social, sem que Kant preveja uma interpretação sistemática das obras de arte
A ausência de autonomia na reflexão estética liga-se à concepção kantiana da beleza como “qualidade” das coisas, sendo a reflexão dedicada ao belo tão periférica quanto o próprio belo, um acréscimo independente da determinação das coisas-
assim, para achar bela uma flor não é preciso saber o que é uma flor, e a ideia estética permite acrescentar a um conceito “coisas inomináveis” ligando “espírito” à linguagem como mera letra
Procedendo assim, a reflexão estética corresponde inteiramente a seu objeto tal como Kant o entende, sendo a obra de arte uma “bela apresentação de uma coisa”, ou mais precisamente a forma de apresentação de um conceito enriquecida por “noções acompanhantes” associadas a eleEssa concepção não é adequada, pois segundo ela já se apreenderia o decisivo de um romance como Guerra e paz por seu título, quando na verdade o romance só entrega à compreensão aquilo que o título anuncia sendo a própria ordem descentrada que realiza como narrativa-
a ordem descentrada não é ingrediente adicional em nenhuma obra poética, mas a própria obra de arte, sendo esta uma ordem descentrada autônoma, e não mero conjunto de “noções acompanhantes”
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