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Arte
FIGAL, Günter. Aesthetics as phenomenology: the appearance of things. Bloomington: Indiana University Press, 2015
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A questão “por que arte?” pode funcionar como réplica embutida, insinuando que a filosofia deveria tratar apenas de temas úteis para a vida, mas há esclarecimentos filosóficos teoréticos, no sentido platônico-aristotélico de theorein, que dispensam qualquer efeito ou vantagem prática
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A experiência cotidiana já atesta que a observação é insubstituível, pois oferece percepções inacessíveis à ação e não orientadas por metas, tendo como único fim fazer a matéria observada aparecer com clareza
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mesmo as condições da ação só se revelam quando se recua da situação prática e se renuncia à parcialidade dos próprios interesses
Para uma filosofia observacional voltada ao esclarecimento objetivo, a questão da arte não é um assunto qualquer, pois a arte desperta a atitude observacional que é essencial à própria filosofiaO fato de a ocupação com a arte se dar tipicamente no tempo livre indica que ela representa outra face da vida, dotada de sentido próprio e alheio à ação e ao propósito-
essa ocupação exige concentração e não é mera recreação nem cuidado das próprias capacidades, mas atividade voltada às obras, capaz de vivificar sem visar a esse efeito
A arte integra a vida humana, o que a história da arte confirma desde as pinturas rupestres de Altamira e Lascaux, e a atração por grandes exposições, pela literatura e pela música evidencia essa pertença-
quem viaja apenas por obrigação turística se decepciona, enquanto quem sabe observar retorna enriquecido; o entusiasmo por intérpretes como cantores, instrumentistas e maestros distingue-se da fascinação por proezas atléticas
O que a arte proporciona vai além do prazer, chegando ao deleite, e mesmo as obras mais sérias podem exaltar o ânimo vital de quem as experimentaO interesse pela arte é essencialmente interesse pela variedade das obras, cada uma irredutível a um conceito geral, e a atenção repetida a elas revela um desejo de compreensão que exige uma explicação conceitualAquilo que se compreende em uma obra de arte não é apenas a obra mesma, mas algo que se torna acessível de modo insubstituível através dela, de modo que Guerra e paz, de Tolstói, não poderia ser trocado por outro romance histórico, nem Madame Bovary, de Flaubert, por uma sociologia da burguesia francesaA comparação das obras com fontes históricas ou sociológicas é enganosa, pois envolver-se com elas não é informar-se, mas ser tocado e deslocado ao espanto, atitude que Aristóteles descreveu como origem da observação filosófica-
a arte revela algo antes desconhecido e desloca para o assombro ao fazer aparecer uma ignorância
Essa ignorância própria da experiência artística nada tem a ver com desconhecimento de estados de coisas comuns, pois cada obra surge sempre como se fosse encontrada pela primeira vez, mesmo quando já conhecida-
essa ignorância suspensa é revogada pela própria obra, que revela algo novo a cada vez, de modo que a arte é intuição, relação com as coisas do mundo tornadas acessíveis apenas na obra
Platão retoma de modo mais sóbrio essa crítica, apontando a incapacidade dos poetas de justificar aquilo que escrevem, atribuindo suas belas criações à natureza e ao entusiasmo, não ao saberNos livros segundo, terceiro e décimo da República, as obras poéticas são determinadas como “ilusões”, pois apresentam algo sem permitir indagar sua verdadeira natureza, permanecendo sugestivas e alheias à questão do logosA determinação platônica do poeta continua a operar em Kant, que caracteriza o gênio artístico pela disposição inata (ingenium) através da qual a natureza dá a regra à arte, substituindo o poder divino platônico pela natureza inacessível-
ao contrário de Newton, cujo saber pode ser ensinado, nenhum poeta consegue mostrar como suas ideias surgem em sua mente, não podendo ensiná-las a outrem
A inacessibilidade e a impossibilidade de ensinar a arte só constituem desvantagem se um saber identificável for tomado como possível, o que leva Nietzsche a identificar saber e poesia, considerando a arte realidade de vitalidade autossustentadaAo criticar Sócrates, Nietzsche inverte a valoração platônica, substituindo a figura central da filosofia pela do artista e entendendo a filosofia como caso especial da poesia, de modo que todo conhecedor se revela um artista-
o suposto observador é, na verdade, aquele que produz e poetiza a vida, criando aquilo que ainda não existe
Tanto a crítica antiga aos poetas quanto a apologia moderna partem do pressuposto não questionado de que a questão da intuição se resolve comparando saber poético e saber filosófico, ambos entendidos como propriedades humanasNietzsche duvida da possibilidade desse apreender eidético, considerando que toda variação cria algo novo em vez de esclarecer algo já dado, de modo que até o filósofo que crê observar é, na verdade, um poeta da vidaOs resultados de Platão e de Nietzsche divergem quanto à relação entre poesia e filosofia, mas ambos negligenciam igualmente a obra de arte mesma, que permanece autônoma e subtraída até de seu criador-
mesmo que o poeta interrogado na Apologia pudesse refutar o julgamento socrático, sua obra continuaria a valer por si mesma, imutável
Os próprios escritos de Platão são poéticos, o que exige uma compreensão esclarecida da essência da poesia e do caráter artístico como condição para pensar a relação livre entre poesia e filosofia-
em contraste, a noção nietzschiana de “poesia da vida” dissolve a arte ao estender-se a qualquer criação do “ainda não existente”
A comparação competitiva entre artista e filósofo rende pouco também para a própria filosofia, já estabelecida e não mais obrigada a distinguir-se de outras formas de desvelamento do mundoA arte pode lembrar a filosofia justamente dessas possibilidades, dando-lhe ensejo de refletir sobre seu próprio caráter observacional e teórico, distinto do conceito moderno de teoria científicaA relação entre filosofia e ciência nunca foi de identidade, pois a origem da observação filosófica no espanto e seu exercício em um olhar imparcial e sem finalidade jamais se explicam a partir do caráter científico, como atestam Heráclito, os diálogos platônicos, Nietzsche, o Heidegger tardio e WittgensteinA condição fundamental de toda reflexão filosófica é a orientação por aquilo que deve ser descrito, sendo reflexio um “voltar-se” dos conceitos sobre si mesmos sem que a atenção se desloque da matéria para o processo de compreensãoA reflexão só é possível quando aquilo que deve ser apreendido não se submete simplesmente aos conceitos dirigidos a ele, podendo estes ser verificados, comparados e substituídosNessas relações reflexivas, a compreensão permanece não questionada até encontrar algo que se revela em sua independência, denso de significado, que responde em vez de determinar por si mesmoEssa é a situação da experiência hermenêutica, na qual o texto precede a intuição e fornece antecipadamente o contexto de compreensibilidade, sendo os conceitos refletidos primeiro pelo próprio textoA experiência das obras de arte é hermenêutica, mas ultrapassa a experiência hermenêutica comum porque a significância conduz essencialmente ao assombro, de modo que o caráter artístico permanece sempre consciente na experiênciaA experiência da arte não precisa incluir expressamente a questão do que é a arte, mas essa questão surge dela mesma e não pode ser separada da experiência sem perder validade objetiva-
a filosofia, ao clarificar seu próprio caráter observacional, torna-se o que Goethe chamou de “pensamento objetivo”, segundo o qual o próprio filósofo só se conhece na medida em que conhece o mundo
Qual arte?
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Quem começa a pensar filosoficamente sobre a arte já possui acesso a ela por experiências anteriores à reflexão, moldadas por talentos, inclinações e, mais tarde, por preconceitos de escolas científicas ou filosóficas
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Apesar de inevitáveis, essas influências não podem valer simplesmente na reflexão filosófica sobre a arte, que deve responder à exigência de universalidade própria de uma filosofia da arte enquanto tal
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Muitas obras não se encaixam em um único tipo, como o teatro que combina poesia e imagem cênica, a ópera dominada pela música, ou a poesia lírica que é ao mesmo tempo arte da palavra e do som, mencionando-se Paul Klee, Cy Twombly e Anselm Kiefer
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Limitar a consideração filosófica a uma época abstrairia a relação transepocal entre as obras, como mostra a impossibilidade de ouvir música antiga como em seu tempo e as citações de obras antigas em obras novas, a exemplo de Alban Berg citando Bach
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O mesmo vale para as culturas, pois a arte ocidental moderna não pode ser considerada isoladamente, como mostram o Divã ocidental-oriental de Goethe, os quadros cubistas de Picasso influenciados pela arte africana e polinésia, a arquitetura de Frank Lloyd Wright e Richard Neutra e a música de Olivier Messiaen
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A arte é arte do mundo, aberta a qualquer pessoa independentemente da tradição, tempo ou contexto cultural em que a obra surgiu, podendo o olhar não preparado captar mais do que o habituado
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Ainda que dirigida a toda arte, a observação filosófica não considera todas as obras igualmente, devendo os conceitos ser desenvolvidos de modo aplicável a qualquer obra, mesmo as normalmente excluídas do cânone, como uma tigela de chá japonesa (chawan) posta ao lado de um quadro de Paul Klee
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A formação de conceitos visa à universalidade mas deve partir do particular, sendo essencial distinguir o que é particular do que é especificamente universal
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Essa dificuldade se intensifica no caso da arte, pois a experiência artística é sempre experiência do singular irrepetível, de modo que o caminho até o conceito de arte não pode ser uma variação empírica ou livre, mas apenas crítico, como observou Kant ao afirmar que da arte não há ciência, mas apenas crítica
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A decisão sobre quais obras orientam a observação filosófica não pode ser arbitrária, e a questão “qual arte?” reaparece como a questão das obras que merecem prioridade exemplar
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As respostas predominantes seguem o padrão da querelle des anciens et des modernes, opondo o clássico ao decisivamente moderno, contraste ainda determinante na discussão filosófica da arte
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As Lições de estética de Hegel orientam consistentemente a filosofia da arte pelo clássico, considerando a arte grega insuperável e a arte posterior, sobretudo a moderna, como algo do passado para o espírito
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O historicismo hegeliano explica-se por sua filosofia do espírito, pois a arte passada é decisiva por ser o único objeto de “verdade e vivacidade” possível numa época de ciência e reflexão
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A orientação hegeliana pelo clássico não se dissolve inteiramente no seu enquadramento histórico, pois a arte grega só pode ser clássica se em todo tempo se puder experimentar nela a essência da arte
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Hans-Georg Gadamer sublinha a supratemporalidade do clássico como aquilo que permanece firme diante da crítica histórica e é acessível de modo imediato, simultâneo a todo presente, como Kierkegaard entende a simultaneidade de Cristo para o crente
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O clássico em Gadamer não é meramente atemporal, mas “histórico” num sentido peculiar, revelando-se um modo de ser histórico que só se comprova temporalmente, numa validade sempre renovada
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A contraposição a essa orientação clássica parece ajustar-se apenas ao tempo, e Theodor W. Adorno chama de autênticas as obras que se entregam ao conteúdo histórico de sua época
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A modernidade autêntica em Adorno não se confunde com mero estar-atualizado, opondo-se ao Zeitgeist dominante e constituindo uma arte de consciência progressiva
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A arte radicalmente moderna também não se dissolve em seu próprio tempo, mas sua supratemporalidade se mostra no olhar temporal voltado para frente, sendo designada por Adorno como “vanguarda”
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O termo “vanguarda”, de origem militar, indica a obra cuja possibilidade formativa se libertou das do respectivo presente, sendo perturbadora e violando o gosto reinante, na expressão wagneriana de “obra de arte do futuro”
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A autenticidade da obra vanguardista não decorre de sua falta de convenção, mas da promessa de ser a obra real cujas possibilidades o presente não alcança, sendo por isso Adorno enfático quanto ao caráter súbito e descontínuo da obra autêntica, o “instante” que rompe a continuidade temporal
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A inesgotabilidade que Adorno atribui à arte moderna também é traço da arte clássica em Gadamer, cujo “poder de dizer” permanece ilimitado, como confirma Friedrich Schlegel ao afirmar que um texto clássico nunca pode ser completamente compreendido
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Classicismo e vanguardismo aproximam-se na noção de inesgotabilidade mas permanecem infinitamente separados, um enfatizando a evidência acessível, o outro o hermetismo diante das condições do presente
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Os conceitos de clássico e de radicalmente moderno só adquirem sentido nessa projeção mútua sobre a história, sendo posicionais, como ilustra o comentário de Adorno sobre Bruckner e a questão de saber se algo velho ainda pode ser novo
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Isso não torna inúteis esses conceitos em todos os aspectos, mas apenas como aproximações pragmáticas preliminares, que evitam tanto obras marginais quanto obras excessivamente convencionais
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Elevar esses conceitos a fundamentais restringiria problematicamente a observação filosófica a premissas histórico-filosóficas e ao pensamento posicional, não fazendo justiça à plenitude e variedade das obras
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Nem toda obra que se oferece à observação filosófica é univocamente classificável como clássica ou enfaticamente moderna, citando-se Gerhard Richter, Peter Handke, Botho Strauss, Manfred Trojahn e Wolfgang Rihm
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há também obras antes tidas por radicalmente modernas que resistiram à crítica histórica e hoje se chamam, não sem paradoxo, “modernidade clássica”, como a Nova Escola Vienense, Kafka, Gottfried Benn, Rothko e Barnett Newman; há ainda arte moderna que não se fecha ao gosto de sua época, como Matisse, Richard Strauss e Thomas Mann, e individualistas que combinam forma clássica com modernidade evidente, como Stravinsky, Picasso nos anos 1920 e Ernst Jünger
Há obras que se furtam a qualquer categorização histórica, como uma tigela de chá japonesa em estilo Raku, simplesmente presente em sua simplicidade delicada e estrita, iluminadora em sua existência sem situação histórica algumaSe os conceitos históricos são inadequados além de uma orientação pragmática inicial, resta responder que a observação filosófica pode se orientar por qualquer obra cujo caráter artístico seja evidente, ainda que isso pareça colocar a observação em círculoEsse círculo é inofensivo, como o círculo hermenêutico, pois a clarificação filosófica da essência da arte tem caráter de reflexão que parte da experiência da arte e a ela sempre retorna, começando, nos termos de Aristóteles, pelo conhecido e familiarO caráter artístico já está sempre presente na relação compreensiva com uma obra, reconhecido quando de fato se a experiencia em vez de mantê-la a distância por preconceito ou indiferençaEsse reconhecimento não tem o caráter de uma determinação identificadora do tipo eidos, pois é fácil dizer o que uma obra é (casa, imagem, poema, música), mas nem toda casa, imagem, poema ou som é uma obra de arteChamar algo de obra de arte não diz o que algo é, mas como ele é, sendo esse “como” artístico abrangente e determinante de todos os aspectos da obraA palavra “arte” não designa exatamente esse “como” buscado, pois designava originalmente, nas artes latinas e nas téchnai gregas, todo saber e capacidade voltados à produção de algo, reservando-se hoje ao domínio das “belas artes”Esse termo, consolidado no século XVIII, sugere que o caráter artístico das obras deve ser apreendido como beleza, aquilo em que as determinações formais do “caráter artístico” encontram seu cumprimentoResponde-se assim à questão “qual arte?”: é a bela arte que fixa o padrão da observação filosófica, cuja reflexão deve crescer da experiência sensível dessa beleza e, por isso, ser chamada estéticaFilosofia da arte e estética
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A conclusão de identificar a observação filosófica como reflexão estética parece pouco original, remetendo ao modo de questionamento responsável, desde meados do século XVIII, pelo esclarecimento do belo, ainda que o uso trivializado do termo “estético” exija reflexão sobre seu significado
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A Aesthetica de Alexander Baumgarten pretendia esclarecer a epistéme aisthetiké como gnoseologia inferior, dignificando pela primeira vez o conhecimento sensível (cognitio sensitiva) em sua peculiaridade, retomando uma concepção já presente em Aristóteles
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A abordagem estética fundou o esclarecimento filosófico moderno da arte, mas foi a Crítica do juízo de Kant, mais que a Aesthetica de Baumgarten, que deu à estética uma significância central para a filosofia como tal, situando a experiência estética na transição entre natureza e liberdade
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Kant via nessa experiência a harmonia entre a legalidade da natureza e a possibilidade de efetivar os fins da liberdade, anotando que “coisas belas mostram que os seres humanos pertencem ao mundo”
A questão da unidade entre natureza e liberdade manteve em suspenso as gerações pós-kantianas, mas a filosofia pós-kantiana deixou de seguir Kant ao buscar essa unidade num princípio fundante, como o “eu”, o “absoluto” ou o “espírito”Enquanto Kant dirigia-se ao juízo de gosto e à experiência do belo em geral, a discussão filosófica posterior voltou-se à questão de como o belo surge, deslocando-se para a produção artística como manifestação privilegiada dessa unidadeHegel retém o termo “estética” mas o distancia de seu objeto, considerando central não os efeitos sensíveis, mas a atividade humana que brota do espírito, preferindo a designação “filosofia da arte”-
essa decisão coincide com a marginalização do belo natural, cabendo à arte idealizar a aparência da vivacidade espiritual sem cair na banalidade
O programa arte-filosófico hegeliano permanece vinculante mesmo sem a autoridade de seu princípio como espírito; já antes dele Schelling concebera a arte como reflexo da identidade absoluta entre sujeito e objetoSchopenhauer, Nietzsche, Heidegger, Gadamer e mesmo Adorno seguiram, cada um a seu modo, o exemplo de Hegel e Schelling, voltando-se ao modo de ocorrência de espírito, vontade, vida, verdade ou racionalidade na obra, o que vale também para Conrad Fiedler e John DeweyA filosofia da arte idealista e pós-idealista avança para além de Kant retrocedendo atrás dele, pois já o próprio Baumgarten interessava-se menos pela experiência do belo que por uma atividade bela, o conhecer sensível articulado como beleza de ordenação e de designaçãoGadamer, como Heidegger, sublinha a auto-relação da vivência, sendo a experiência estética não apenas um tipo de experiência entre outras, mas a forma essencial da experiência enquanto talA palavra Erlebnis pode designar tanto o ocorrer da experiência quanto aquilo que se experimenta, sendo algo experienciado quando a independência de seu objeto se torna inessencial e se dissolve completamente na vivência, como já notara DiltheyEssa inessencialidade do objeto na vivência pode derivar da força da experiência ou, segundo Gadamer, de uma “diferenciação estética” que abstrai o contexto vital originário da obra, suas condições de acesso e seu conteúdo moral ou religioso-
o museu imaginário de André Malraux ilustra essa simultaneidade, reunindo sob a categoria do estético relevos babilônicos, retábulos góticos, retratos cortesãos, vasos art nouveau, arranjos de Joseph Beuys e um sofá de aço de Franz West
Considerações como a “estetização do mundo da vida” de Rüdiger Bubner tornam plausíveis as observações de Gadamer, sendo essa ubiquidade da vivência associada por Heidegger à “maquinação” característica da modernidadeAinda assim, é duvidoso equiparar a diferenciação estética a essa nivelação da vinculação do mundo da vida, sendo mais plausível considerar a “estetização do mundo da vida” uma derivação trivializante, comparável a atribuir fanatismo à essência da religiãoA crítica gadameriana da “diferenciação estética” não convence nem mesmo quanto à arte no sentido enfático, pois distinguir uma obra de suas execuções não a ignora, mas indaga se a execução lhe foi adequada, tornando possível falar de história efeitualÉ problemático afirmar que a compreensão estética da arte repousa numa reunião arbitrária de coisas heterogêneas que ignora sua “pertença ao mundo”, pois se as obras reunidas são iluminadoras como belas artes, essa arbitrariedade é apenas alegadaSe o belo pode ser experimentado e determinado conceitualmente, não há razão para tomar a “consciência estética” como centro medidor do que conta como arte nem para vê-lo, com Gadamer sobre Schiller, como mero “ideal” ilusório oposto à realidade da vidaAo descrever a experiência estética em oposição à pertença ao mundo, é Hegel, não Schiller, o primeiro teórico da consciência estética em sentido gadameriano, ao diagnosticar a perda de vinculação da matéria quando o espírito não encontra mais sua efetividade na exterioridade sensível da arteDiferentemente da fala gadameriana de funções religiosas e profanas, a formulação heideggeriana de que a obra pertence apenas ao âmbito que ela mesma abre é ambígua, pois se as obras abrem o mundo, não podem ter mera “função” dentro deleA noção heideggeriana de abertura de um mundo é bastante específica, ilustrada pelo templo grego, que abre a visão de uma vida histórica ao chamar o sagrado à abertura de sua presença, e também pelo par de sapatos de camponês pintado por Van Gogh-
mas o que se abre em obras como a natureza-morta de Van Gogh, as paisagens de Cézanne, os Intérieurs de Matisse, as superfícies coloridas de Newman ou Rothko, uma sonata para violino de Bach ou o poema de Goethe “Über allen Gipfeln ist Ruh'” não é um mundo histórico, mas a própria beleza da obra
A experiência estética não deve ser contraposta à “pertença a um mundo” gadameriana, pois as duas não se excluem nem se identificam, podendo um cristão devoto e um budista devoto experimentar, respectivamente, a beleza da Missa em si menor de Bach e da estátua do Bodhisattva Miroku em ChugujiHeidegger e Gadamer falam menos de beleza que de verdade a respeito da arte, limitando-se Heidegger a dizer que a beleza é um modo pelo qual a verdade vigora como desvelamento, sem esclarecer como isso difere de outros modos de verdadeAs considerações de Gadamer sobre o belo, mais extensas, aparecem não na parte sobre arte de Verdade e método, mas na parte sobre linguagem, aliando-se também a Platão ao considerar belo aquilo que se ilumina de si mesmo-
a diferença de Gadamer em relação a Heidegger está em conceber o ser não como o aberto, mas como revelabilidade linguística, de modo que a arte pode ser concebida como “transformação em verdade”
É problemático nessa determinação do belo que ele evite ser mera estação de passagem para o “ser” apenas por ser equiparado a essa revelabilidade, o que dissolveria o conceito de belo numa determinação hermenêutica geralA obra de Gadamer A atualidade do belo, de 1974, repete essa identificação entre belo e verdadeiro, mas volta-se, diante das práticas artísticas experimentais contemporâneas, para uma base antropológica mais fundamental, elucidada através do “jogo”, do “símbolo” e da “festa”-
a ideia condutora é que a arte não está diante de nós na obra, mas é um acontecer que envolve quem a experimenta na tarefa de construir a obra, aproximando perigosamente Gadamer da indiferença que ele mesmo criticara na experiência estética
Esse suposto silêncio sobre o belo poderia radicar-se na própria natureza do assunto, pois a arte moderna tem fama de recusar a categoria do belo, falando-se de “perda do centro”, “mudez” e dissolução das formas tradicionais, sendo o belo por vezes substituído pela categoria do sublime-
mesmo Adorno, partidário decidido da modernidade, sublinhou que na modernidade os materiais perderam sua evidência imediata, e tomou a “reconciliação” própria do belo como um “ato de força” contra a “vida não reconciliada”
Essas reservas contra o belo não resistem a um exame mais atento, pois seria uma compreensão idílica do belo vê-lo como incompatível com um suposto estado terrível do mundo, como corrige um verso de Rilke segundo o qual o belo é “o começo do terror que ainda suportamos serenamente”A reserva contra a beleza também não convence quanto às particularidades da arte moderna, pois a “mudez” que Arnold Gehlen enfatiza nas obras modernas não milita contra sua beleza, apenas indica que elas não se inserem sozinhas num contexto de sentido evidente-
diante de quadros de Rothko ou Newman, ou das pequenas obras de Paul Klee, não há figuras familiares que confirmem certezas prévias, e essa contenção e quietude tornam as obras ainda mais presentes e talvez mais belas
O conceito de belo tampouco é ameaçado pelo conceito de sublime, pois este ou designa uma mera modificação do belo, ligada à ascensão entusiástica da alma ao divino, ou se refere a fenômenos naturais e estados de ânimo, mantendo a condição de distância que Kant associava à experiência do sublime-
ao se afastar o preconceito de que a arte moderna se opõe polemicamente à arte tradicional bela, descobre-se um caminho que vai de Giotto a Rothko, de Bach a Alban Berg, de Dante a Rilke, da arquitetura clássica japonesa a Tadao Ando, revelando que a arte recente buscou antes redução e redescoberta do sensível que dissolução
Resta desenvolver com mais precisão o que significa caracterizar o belo como o “como” de uma obra que abrange todos os seus momentos, sendo determinações como autonomia, originariedade e sensibilidade só demonstráveis como estéticas por meio do conceito de beloA questão do belo artisticamente considerado não subsiste isolada, mas pertence à questão do belo em geral, conectando as obras de arte com todas as coisas belas, produzidas ou naturaisUma afirmação sobre a beleza de algo não vale do mesmo modo para todas as coisas belas, pois objetos de uso e a beleza natural das pedras, paisagens e constelações costumam recuar diante do uso cotidiano, ao passo que as obras de arte são determinadas inteiramente por sua beleza-
por serem essencialmente belas, as obras de arte gozam de primazia para a reflexão estética e revelam também a beleza dos objetos de uso e da natureza, como no caso de uma tigela de chá japonesa cujo uso se une à observação
Não se deve confundir a primazia estética das obras de arte com sua distinção arte-filosófica, pois a filosofia da arte não concebe a arte no “amplo domínio do belo”, mas a insere numa realidade — espírito, vontade, vida ou verdade — que a arte apenas manifesta, sem esgotá-laA reflexão estética começa, nos termos aristotélicos, por aquilo que é “conhecido para nós” a fim de proceder ao que é “conhecido em si”, à obra bela experimentada, de modo que partir do lado subjetivo da experiência conduz por si mesmo à coisa experimentadaestudos/figal/estetica/arte.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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