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Fenomenologia

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  • Fenomenologia em Heidegger constitui-se menos como doutrina específica e mais como exercício primordial do olhar filosófico, cujo aprendizado decisivo ele atribui a Husserl, descrito como aquele que lhe “implantou os olhos”, operando um desvendamento violento que o desprendeu de uma cegueira anterior. Este aprendizado exigia um renunciar radical ao uso não verificado de conhecimentos filosóficos acumulados e à autoridade não questionada dos grandes pensadores, a fim de se voltar, sem mediações, para as Sachen selbst—não as coisas ônticas, mas aquilo que está em jogo em todo e qualquer comportamento humano, o implícito inaparente que governa nossa relação com o mundo. A fenomenologia, portanto, revela-se como o coração vivo de toda filosofia possível, um modo de ver que reina em seu centro sempre que o pensamento se abre autenticamente ao que se dá.
  • Diferença crucial entre a Wesensblindheit (cegueira para as essências) tematizada por Husserl e a Seinsblindheit (cegueira para o ser) que mobiliza Heidegger desde o início, demarcando o ponto de convergência e subsequente divergência entre mestre e discípulo. Enquanto Husserl via na consciência transcendental a região última da redução fenomenológica, Heidegger desde cedo questionou este terminus, intuindo que a abertura que permite o aparecer do ente em seu ser não se esgota na subjetividade constituinte, mas remete a uma abertura mais originária, a clareira (Lichtung) do ser mesmo.
  • O conceito heideggeriano de “fenômeno”, desenvolvido no §7 de Ser e Tempo, define-se precisamente como aquilo que, “em primeiro lugar e na maioria das vezes, não se mostra”, que permanece encoberto em retração, mas que constitui simultaneamente o sentido e fundamento daquilo que vulgarmente aparece. Este fenômeno que se furta à mostra imediata exige, para ser trazido à luz, uma logia, um legein entendido como apophainesthai—um fazer-ver a partir da coisa mesma, um discurso que des-vela. A fenomenologia transforma-se, assim, na ontologia do não-imediatamente-dado, cuja tarefa é justamente desobstruir o acesso a este fenômeno retraído que é o ser do ente, operação para a qual o Dasein, como ente que compreende ser, é o lugar hermenêutico privilegiado.
  • Método fenomenológico como prática de uma vigilância implacável contra construções vazias, conceitos herdados não questionados e pseudoproblemas tradicionais, ecoando a exortação de Cézanne aos jovens pintores para que “aprendam a ver as coisas sem intermediários”. Esta ascese do olhar, comum a Husserl e ao Heidegger inicial, implica necessariamente uma solidão essencial, pois o engajamento radical com as Sachen—as “coisas muito altas” de gratificação ingrata—afasta o pensador das opiniões correntes e das certezas tranquilizadoras da tradição, lançando-o numa aventura singular.
  • A definição da filosofia como “ontologia fenomenológica universal que parte da hermenêutica do Dasein” marca o ponto de inflexão onde Heidegger assume explicitamente seu caminho próprio, sem, contudo, trair a lição soberana de Husserl. O projeto de Ser e Tempo, apesar de sua incompletude, delineia esta tarefa: usar a analítica da existência como fio condutor para refazer a questão do ser, ancorando todo questionamento filosófico naquilo de onde ele brota e para onde retorna. A originalidade deste caminho, longe de ser um capricho subjetivo, impõe-se como resposta à exigência do que é mais próprio (a Jemeinigkeit da existência) e conduz inevitavelmente a uma solidão que, paradoxalmente, funda uma comunidade de ordem superior, onde “os grandes só se perpetuam pelos grandes”.
  • Distinção fundamental, madurada por Heidegger ao longo de seu percurso, entre méthodos (método) e hodós (caminho, caminhada). A método visa um fim exterior a si mesmo, opera por procedimentos asseguráveis e, quando absolutizada, pode obliterar o mundo em favor de sua própria sistematicidade. O caminhamento, ao contrário, é um “viajar” no sentido antigo da palavra (voïage), um pôr-se a caminho pelo próprio caminhar, uma experiência (experior: passar completamente através) que implica atravessar obstáculos e deixar para trás as margens conhecidas. A verdadeira fenomenologia, como caminho, é esta disposição de se expor ao aberto.
  • Fenomenologia como Möglichkeit—não mera “possibilidade” entendida metafisicamente como grau inferior à realidade, mas como o que brota do verbo mögen (gostar, amar preferencialmente). Trata-se da possibilidade sempre histórica e mutante de responder à interpelação que vem daquilo que há para pensar. Neste registro, o mais alto na fenomenologia não é sua realidade como corrente filosófica, mas sua Vorzug (preferibilidade), sua capacidade de se mostrar como via de acesso preferencial ao que deve ser preferido. A tarefa do pensamento, assim, alinha-se com a mais humana das capacidades: a de estabelecer ordens de preferência, de amar melhor isto em detrimento daquilo, guiado não pelo arbítrio, mas por uma escuta atenta ao apelo do ser.
  • Conclusão do percurso fenomenológico heideggeriano na superação do próprio título “fenomenologia” em favor daquilo que, com este nome, se tentava nomear: o mostrar-se em todo seu fulgor do aberto, cuja maneira permanece secreta. A fenomenologia, vivida e guardada como tal, desaparece como rótulo para deixar aparecer a tarefa mesma do pensamento—manter aberta a abertura, responder à palavra que, do coração do que há para pensar, se dirige ao homem. Este é o sentido último da “experiência” fenomenológica: ter-se deixado atravessar completamente por esta interpelação e ter aprendido a habitar, em solidão responsável, a clareira que nos é concedida.
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