estudos:fabris:2004:4.1
4.1 Interpretação existencial do Dasein
FABRIS, Adriano. Essere e tempo di Heidegger: introduzione alla lettura. Roma: Carocci, 2004.
Ser-aí e temporalidade
A tarefa de uma interpretação existencial do ser-aí e as condições de sua realização
O projeto da segunda seção de Ser e Tempo
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4.1.1. As análises da primeira seção alcançaram três resultados — descrição das estruturas do ser-no-mundo, aprofundamento dos caracteres que permitem ao ser-aí relacionar-se com os demais entes, consigo mesmo e com o ser como tal, e a individuação do cuidado (Sorge) como ser do ser-aí e conjunto coordenado de seus diversos aspectos —, parecendo estarem dadas as condições para empreender a passagem, prefigurada desde o início, da tratação do ser do ser-aí à interpretação de sua temporalidade, o que, contudo, permanece apenas aparente, restando a suspeita de que a investigação até aqui conduzida ainda não captou o ser-aí em sua originariedade nem forneceu interpretação autenticamente existencial deste ente.
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O § 45, que inaugura a segunda seção, Ser-aí e temporalidade, esclarece que captar um fenômeno em sua originariedade significa não apenas assumi-lo tal como propriamente é, em seu caráter autêntico, mas sobretudo considerá-lo em todos os seus aspectos sistematicamente conectados, isto é, em sua totalidade, tarefa ainda não cumprida, não podendo a noção de cuidado, tal como elaborada na primeira seção, ser tomada como palavra final da investigação ontológica sobre esse ente.
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Em primeiro lugar, o ser-aí não consegue captar-se de uma vez por todas em sua autenticidade nem possuir-se plenamente nos caracteres que lhe são próprios, sendo constituído por incontrolável propensão à decadência, devendo a compreensão que o próprio ser-aí pode realizar de si mesmo ser conquistada em espécie de contramovimento à tendência ao nivelamento e à dispersão que dominam sua vida cotidiana.
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Em segundo lugar, a noção de cuidado não é capaz de exprimir as estruturas do ser-aí em sua plena totalidade e completude, uma vez que este ente está sempre adiante de si, sendo essencialmente caracterizado por poder-ser, escapando assim a toda tentativa de determiná-lo completamente, evidenciando-se aqui a intenção sistemática que anima toda a obra e a urgência de identificar acesso diverso à totalidade, adequado à análise desse ente particular que ao mesmo tempo é analisado e pode realizar a análise, permitindo somente assim dar o passo ulterior exigido desde o início: a interpretação do ser do ser-aí a partir de sua temporalidade.
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Estabelece-se assim o percurso das análises subsequentes, devendo-se: indicar o novo sentido de totalidade, ou antes de inteireza, em jogo no caso do ser-aí, mediante a análise do ser-para-a-morte (Sein zum Tode); individuar o modo pelo qual o ser-aí pode atingir sua autenticidade mediante testemunho privilegiado — a voz da consciência — e relacionar-se propriamente consigo em virtude da resolução (Entschlossenheit); interpretar as estruturas do cuidado em sua perspectiva temporal, a Zeitlichkeit, temporalidade específica do ser-aí; retornar às estruturas existenciais da primeira seção para evidenciar seu sentido temporal e confirmar a validade do horizonte temporal individuado; aprofundar o vínculo entre esse fundo temporal e a historicidade do ser-aí como origem de toda historiografia; e considerar o nexo entre a concepção originária da temporalidade existencial e a interpretação cotidiana do tempo.
O ser-para-a-morte
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4.1.2. O cuidado fora apresentado como conjunto unitário de três aspectos fundamentais do ser-aí — existencialidade (poder-ser), faticidade (ser-lançado) e decadência (fuga de si) —, sublinhando-se, no § 41, o vínculo íntimo entre esses componentes mediante uso maciço de hifens de conexão, ressaltando-se, contudo, no § 46, que unitariedade não significa completude, não implicando o estabelecimento de conexão estrutural que esta seja exaustiva, não significando propriamente totalidade (Ganzheit) ser-inteiro (Ganzsein), o que vale tanto mais no caso do ser-aí, caracterizado por essencial abertura e por constante inacabamento.
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Impõe-se então perguntar se é possível identificar, além do nexo sistemático entre seus diversos aspectos, aquilo que permite captá-lo em sua inteireza, introduzindo-se para tanto a noção de morte, sobre a qual o senso comum, a reflexão filosófica e a visão religiosa de mundo elaboraram, frequentemente em contraste entre si, doutrinas particulares, questionando-se de que modo o tratamento do fenômeno da morte permite exibir o possível ser-um-todo do ser-aí, tema do primeiro capítulo da segunda seção, intitulado O possível ser-um-todo do ser-aí e o ser-para-a-morte.
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Já em textos do período de Marburg dos anos vinte, a morte é pensada nos termos de relação possível com uma possibilidade — e não como fato — do ser-aí humano, evitando-se cair nas dificuldades ligadas a tratamento que a conceba como objeto ou como algo real, tornando-se assim essa tradução existencial funcional ao dispositivo argumentativo da obra.
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Após assinalar, no § 46, a impossibilidade aparente de captar e determinar ontologicamente o ser-aí em sua completude, mostra-se, no § 47, ser impossível fazer experiência da morte, não só quando está em jogo a morte própria, mas sobretudo quando se trata da morte alheia, não se conseguindo, relacionando-se a um defunto, captar o fenômeno do morrer como peculiar ao ser-aí, verificando-se antes, no caso do defunto, verdadeira inversão no modo de ser desse ente, sendo o fim do ser-aí, aqui, apenas o início do ser desse ente como simples presença, algo de que se pode cuidar.
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Não se experimenta, assim, verdadeiramente o morrer dos outros, podendo apenas estar-lhes próximo, não sendo possível, nessa situação-limite, como a chamara Jaspers, realizar as modalidades de substituição possíveis nos vários modos do ser-junto cotidiano, afirmando-se, no § 47: ninguém pode tirar do outro seu morrer, podendo alguém certamente ir morrer por outro, o que significa sempre sacrificar-se por outro em determinada causa, devendo cada um assumir o morrer isoladamente, em caráter sempre meu, configurando-se este como possibilidade peculiar do ser-aí, na qual está em jogo o modo como este mesmo ente pode relacionar-se com seu próprio ser.
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No § 48, discute-se o modo de pensar a noção de ainda-não própria do ser-aí em termos conformes à sua estrutura existencial, mostrando-se inadequados exemplos correntes — a dívida a ser quitada, a lua cheia, o fruto que amadurece, a chuva que cessa, a estrada que termina, o pão consumido, o quadro concluído —, não se deixando o ser-aí, em seu constitutivo relacionar-se com a morte, pensar segundo nenhum desses modos habituais de conceber o restar, o faltar, o terminar, por não poder a morte ser considerada fato, mas antes fenômeno, evento, algo a que constantemente nos podemos relacionar.
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Distanciando-se, no § 49, das tratações biológica, psicológica, antropológica, teológica ou metafísica do fenômeno, que o entendem como momento da vida ou como passagem a outra vida, afirma-se, no § 48, que o terminar próprio da morte deve ser pensado não como um estar-no-fim (Zu-Ende-sein) do ser-aí, mas como um ser-para-o-fim (Sein zum Ende), modalidade constitutiva pela qual este ente se relaciona à própria finitude, devendo tal tratamento ser compatível com as demais estruturas do cuidado.
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No § 50, mostra-se como no fenômeno da morte se rastreiam os aspectos da existência, da faticidade e da decadência, momentos constitutivos do cuidado: revelando-se o estreito vínculo entre mortalidade e possibilidade no fato de a morte ser eventualidade que constantemente incumbe sobre o ser-aí, sendo a possibilidade do não-poder-mais-ser-aí, a possibilidade da pura e simples impossibilidade de ser-aí, configurando-se como a possibilidade mais própria, irrelata e insuperável desse ente.
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O ser-aí não cria essa possibilidade de modo acessório, mas nela já sempre se encontra lançado, sendo disso signo revelador o estado de ânimo da angústia, que não deve ser confundida com o mero medo do falecimento, mas antes descortina a própria existência do ser-aí como ente constitutivamente finito.
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Ressalta-se ainda o atitude de desvio e fuga habitualmente assumida diante da morte, radicada na decadência própria do ser-aí e em sua dispersão entre os entes intramundanos, descrevendo-se, com apoio na Morte de Ivan Ilitch de Tolstói, as estratégias do impessoal (das Man) para tranquilizar e tornar indiferente perante essa possibilidade extrema.
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Da morte estamos certos segundo modalidade particular de certeza vinculada, no § 52, à noção existencial de verdade como descobrimento elaborada no § 44, mesmo quando se busca ocultar a si mesmo a própria mortalidade sublinhando o caráter indeterminado da hora da morte, reconfirmando tal desvio que na base da inautenticidade se encontra a possibilidade de relação autêntica, pela qual a morte, como fim do ser-aí, revela-se sua possibilidade mais própria, irrelata, certa e, enquanto tal, indeterminada e insuperável.
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O § 53, conclusivo do capítulo, esclarece finalmente de que modo o ser-aí pode compreender-se em sua inteireza, afastando primeiro equívocos: ser-para-a-morte não significa cuidar de sua realização nem provocar a morte, solução extrema explicitamente rejeitada não por motivos morais ou religiosos, mas por fazer perder o caráter de possibilidade próprio do fenômeno, não sendo tampouco atitudes adequadas o simples pensar na morte, calculando quando e como ocorrerá, nem o esperar seu sobrevir.
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Responde-se então, nos parágrafos 8 e 9, que relação autêntica com a morte só é possível se esta for mantida como possibilidade que jamais se resolve em realização particular, denominando-se tal relação precorrimento (Vorlaufen) da morte, indicando esse termo que o ser-aí é capaz de descortinar-se a si mesmo, naquilo que é e em suas possibilidades, na perspectiva aberta pela possibilidade extrema, não se situando esta no mesmo plano das demais possibilidades, mas constituindo antes metapossibilidade que permite captar na justa perspectiva, a da assunção da própria finitude, todo evento e toda possibilidade concretamente realizável.
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Ao assumir especificamente seu ser mortal, relacionando-se, no precorrimento, à morte como metapossibilidade da existência em virtude da qual toda outra possibilidade recebe autenticamente seu sentido, o ser-aí subtrai-se ao mundo do impessoal e compreende-se propriamente, podendo então ser plenamente compreendidos os demais caracteres da possibilidade da morte:
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sua irrelatividade faz com que o ser-aí se absorva em si mesmo, configurando-se como singular, isolado de toda relação com as demais coisas e os demais entes;
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sua insuperabilidade permite ao ser-aí assumir-se na finitude de suas próprias possibilidades, atingindo o sentido autêntico da própria liberdade;
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sua certeza manifesta modalidade diversa e mais originária de toda certeza relativa aos entes intramundanos, sendo a certeza do ser-no-mundo, o pôr-em-obra da plena autenticidade da existência;
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sua indeterminação deve ser autenticamente entendida na perspectiva aberta pela situação da angústia.
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Resume-se, no penúltimo parágrafo do § 53, que o precorrer descortina ao ser-aí sua dispersão no impessoal e o conduz diante da possibilidade de ser si mesmo, mas si mesmo em liberdade para a morte apaixonada, desligada das ilusões do impessoal, fática, certa de si e permeada de angústia, sendo assim possível esclarecer em que sentido, relacionando-se com seu próprio ser mortal, o ser-aí é capaz de captar-se em sua inteireza, de modo bem diverso daquele próprio da totalidade das coisas, atingindo, ao entender a morte nos termos de possibilidade, a peculiar finitude que o constitui em seu ser, restando examinar, no capítulo seguinte, por qual via essa capacidade pode ser concretamente atuada.
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