estudos:fabris:2004:1.4

1.4 Questões

FABRIS, Adriano. Essere e tempo di Heidegger: introduzione alla lettura. Roma: Carocci, 2004.

As questões de fundo de Ser e Tempo

O caráter performativo da investigação de Ser e Tempo

  • 1. Uma análise sobre a vida em sua faticidade, tal como já indicado e realizado nos primeiros cursos de Friburgo, só pode ser conduzida partindo da própria vida e nela se mantendo, visando elaborar experiência do contexto vital enraizada nesse mesmo contexto, sendo o próprio exercício da investigação concebido, desde o início, como uma das modalidades em que a vida do homem se anuncia e se desenvolve, isto é, como uma de suas expressões possíveis.
    • Filosofar não significa apenas assumir atitude de distanciamento para investigar aquilo que mais de perto nos concerne, mas fazer com que tal contexto particular venha à luz e encontre, em virtude de investigação filosófica específica, sua adequada expressão, sendo a pesquisa chamada não só a estudar certas estruturas, mas também a pô-las em obra, a atuá-las.
  • 2. Tal caráter performativo, presente nos primeiros cursos, reapresenta-se em Ser e Tempo, ainda que mudem terminologia e referências filosóficas, sendo o vocabulário ligado à temática da vida substituído pelo vinculado às noções de existência e ser, não se limitando a investigação à análise do ente que somos, à compreensão do ser que nos caracteriza e à temporalidade que constitui seu horizonte, mas representando também o modo como se põe em obra determinada possibilidade de ser dada ao homem, que este pode ou não realizar.
  • 3. Decorre daí o fascínio da obra, que representa não apenas investigação, mas também realização em ato das próprias questões de que se ocupa, podendo ser concebida como espécie de romance de formação, à semelhança da Fenomenologia do espírito de Hegel, ainda que o fazer-se da compreensão de si seja aqui marcado por espécie de decisão, e não determinado, como na perspectiva hegeliana, por percurso necessário e dialeticamente escandido.
    • É nesse plano que se pode evidenciar o vínculo, mas também medir a distância, entre a transformação da fenomenologia husserliana já proposta nos cursos universitários e noção de fenomenologia entendida mais propriamente em acepção hegeliana.
  • 4. A referência à impostação hegeliana permite sublinhar, por contraste, outro caráter fundamental de Ser e Tempo, já anunciado nos cursos anteriores: a investigação sobre a vida, e depois sobre o ser, é de fato realizada por aquele eu que primariamente pode dizer eu sou, entrando em jogo particular forma de reflexão em que o tema da investigação é justamente aquilo que mais propriamente me concerne, permanecendo, contudo, explícita a polêmica antiidealista.
  • 5. Tal reflexão não oferece condições de possibilidade para a constituição do si mesmo empírico e do mundo, como na tradição de Descartes a Husserl, nem é capaz de reconduzir a si, mediante processo fundativo, tudo o que excede o âmbito da subjetividade, sublinhando o caráter apenas aparente dessa exceção, como no Hegel da Fenomenologia do espírito, sendo antes aquele flexionar-se sobre si mesmo do ente que somos, ao realizar-se do qual se cumpre a investigação filosófica, funcional à abertura e delimitação de nível ulterior, totalmente distinto daquele próprio dos entes: a dimensão do ser.
  • 6. Preferível, portanto, falar não de reflexão, mas de autorreferimento (Selbstbezug), sendo Ser e Tempo a obra em que se percorre a via do autorreferimento — marcada no fundo pela decisão do homem de captar-se naquilo que propriamente o constitui — para alcançar, em saída de si sempre em ato, compreensão do ser como tal, não sendo a pergunta pela essência do homem, como Heidegger escreverá anos depois, de modo algum pergunta sobre o homem.

A armação lógica de Ser e Tempo

  • 1. Um dos modos pelos quais Heidegger se diferencia da fenomenologia husserliana, transformando-lhe pressupostos e impostação, consiste na vontade de colocar a investigação fenomenológica no contexto daquilo inicialmente chamado vida e depois existência, prospectando-se, no lugar da fenomenologia pura husserliana, interpretação, ou antes autointerpretação, realizada por ente privilegiado — o ente que nós mesmos somos — voltada a evidenciar sua condição de possibilidade, o ser, e já sempre situada em contexto particular, denominando-se tal aprofundamento hermenêutica.
  • 2. Em relação à história dessa disciplina, a concepção heideggeriana situa-se na esteira das tentativas, de Schleiermacher a Dilthey, de estender o processo interpretativo além do âmbito restrito da exegese textual, considerando como ato interpretativo toda relação do homem com as coisas e com os demais homens, entendendo a própria realidade como texto a decifrar, distinguindo-se, contudo, pela instância fundativa a cujo serviço a hermenêutica é colocada, encontrando na investigação sobre o ser em geral seu tema privilegiado e desembocadura última, tornando-se a hermenêutica, em Heidegger, o modo pelo qual se desenvolve e articula a investigação ontológica.
  • 3. O ente que somos, o ser-aí, só pode relacionar-se com tudo o que é porque tal relação já se encontra mediada por determinada compreensão do ser, substituindo-se o modelo diádico entre conhecente e conhecido, próprio dos neokantianos e da doutrina husserliana da intencionalidade, por relação a três termos em que o ser, segundo suas diversas determinações, constitui a condição de possibilidade da compreensão de todo ente, dando sentido a toda conexão, tanto teórica quanto prática, sob pena de permanecerem tais conexões, na metáfora kantiana, cegas.
  • 4. Identificam-se quatro modos de ser que orientam outros tantos tipos de relação: a disponibilidade (Zuhandenheit) dos utensílios manuseáveis no agir prático quotidiano; a objetividade (Vorhandenheit) daquilo que simplesmente subsiste como objeto de consideração teórica; a vitalidade (Leben) própria dos animais enquanto seres vivos ligados a seu ambiente; e a existência (Existenz), compreensão sempre já em ato do próprio ser no autorreferimento do ser-aí, que também possibilita a relação entre os diversos ser-aí.
  • 5. Para articular esse modelo triádico e sobretudo salvaguardar a prioridade do ser, recorre-se a expressões metafóricas — abertura, horizonte, iluminação —, sinal da tensão que atravessa o léxico heideggeriano desde suas primeiras manifestações até Ser e Tempo, tensão decorrente da vontade de captar aquilo que, como o ser, não pode ser entendido como ente, valendo-se de conceitos cuja função primária é indicar, não determinar, explicando-se assim também o uso, que se torna abuso entre epígonos, de neologismos frutos de distorção criativa da língua alemã e de traduções literais de vocábulos gregos, sobretudo aristotélicos.
  • 6. Não se limita a investigação à análise da compreensão dos entes e de sua condição de possibilidade, pretendendo-se antes tematizar o próprio ser considerado absolutamente, para que a filosofia se configure verdadeiramente como ontologia, complicando-se assim ainda mais o modelo triangular, ao qual se sobrepõe estrutura ulterior, igualmente a três termos, oferecendo-se o horizonte de compreensão dessa nova condição de possibilidade pelo tempo.
  • 7. O tempo é o sentido do ser absolutamente entendido, indicado já no título da obra, permanecendo o esquema claramente delineado ainda que não aprofundado em todos os aspectos, mediando o tempo, e assim possibilitando, a compreensão adequada do ser que constitui a tarefa de uma filosofia originariamente entendida como ontologia.
  • 8. Não cabe indagar ulterior condição de possibilidade além do tempo, temendo-se regresso ao infinito análogo ao argumento do terceiro homem contra a doutrina das ideias, porquanto o tempo não é algo distinto e separado do ser, mas o constitui intimamente, sendo o ser propriamente temporal, isto é, caracterizado por intrínseca dinamicidade, tocando-se aqui outro motivo fundamental da obra: o caráter de movimento que atravessa todos os seus conceitos fundamentais e que exige interpretação temporal.

O devir do ser

  • 1. Já no primeiro curso universitário, A ideia da filosofia e o problema da visão de mundo (1919), sinaliza-se com força o caráter dinâmico próprio de todo fenômeno enquanto tal, devendo, se fenômeno designa aquilo que aparece e se manifesta por si mesmo, interessar à investigação filosófica não apenas o resultado, mas sobretudo o processo do manifestar-se, elaborando-se para tanto método e linguagem adequados a captar essa dinâmica, cunhando-se do substantivo Welt (mundo) o neologismo verbal es weltet.
  • 2. Tal transposição do substantivo em verbo, como modo de indicar o caráter dinâmico dos fenômenos, reencontra-se em Ser e Tempo, não sendo apenas o conceito de mundo, mas sobretudo o próprio termo ser — objeto privilegiado da investigação filosófica — considerado segundo acepção verbal, e não substantiva, devendo ressoar assim mesmo aos ouvidos do leitor, contrastando-se com o hábito de fazer da linguagem unicamente instrumento de fixação, mostrando-se o mesmo caráter de movimento em outros conceitos fundamentais, como verdade e transcendência, podendo o confronto crítico e a obra de destruição de momentos significativos da história do pensamento ser lidos como tentativa de recuperar potencialidades dinâmicas ainda inexploradas da reflexão passada.
  • 3. Compreende-se assim o estreito vínculo entre ser e tempo declaradamente investigado, pois, mostrando toda uma vertente significativa da filosofia ocidental, que se poderia chamar não-parmenídica, que o movimento está conectado ao tempo, uma investigação que pretende captar o ser em seu caráter de dinamicidade, em seu devir, não pode prescindir do aprofundamento daquela temporalidade segundo a qual se estrutura e pode ser compreendido o movimento específico do ser enquanto fenômeno.

Realidade e possibilidade

  • 1. A história da filosofia, desde suas origens gregas, mostra as dificuldades e apo­rias em que incorre a tentativa de considerar o movimento em quanto tal sem subordiná-lo a horizonte de estase, mas concebendo-o antes a partir da temporalidade que lhe é intrínseca, como se vê em Platão, para quem o mutável só pode ser pensado por referência às formas imutáveis e eternas das quais participa, e em Aristóteles, para quem o dinâmico é inevitavelmente reconduzido a algo imóvel, ponto de partida ou de chegada de um processo, substrato de uma mudança ou Primeiro Motor.
  • 2. Tal interpretação aristotélica do movimento deve ser compreendida à luz de outro pressuposto fundamental enunciado no livro IX da Metafísica: o ato é anterior à potência (1049 b, 4), segundo o qual, sendo a potencialidade de uma coisa entendida como princípio de seu movimento, deve haver na base dela algo acabado, não afetado por dinâmicas ulteriores.
  • 3. Malgrado o essencial débito heideggeriano em relação a temáticas e argumentações aristotélicas, pretende-se justamente inverter esse pressuposto, afirmando-se, ao final do § 7 de Ser e Tempo, que mais alta que a realidade está a possibilidade (Höher als die Wirklichkeit steht die Möglichkeit), constituindo a introdução do tema do possível, entendido como potencialidade e poder-ser, e a sublinhação de seu primado sobre o que simplesmente é dado, pressupostos decisivos da argumentação da obra, permitindo pensar o ser em seu caráter de movimento, e portanto em sua temporalidade, sem concebê-lo necessariamente dentro de horizonte de estase.
  • 4. Tal leitura particular encontra confirmação sobretudo na análise do modo de ser próprio do ser-aí, sua existência, ente cujo ser não deve ser entendido como algo fixo, estático, imóvel, mas antes pensado a partir de peculiar dinamicidade que propriamente o constitui, analisada em cursos do início dos anos vinte mediante a noção de mobilidade (Bewegtheit), indicativa de constante inquietude do homem, e introduzida em Ser e Tempo mediante o conceito de poder-ser, mediante o qual se articula a irredutível dinamicidade do ser-aí, jamais definitivamente realizada nem plenamente atuada.
  • 5. Impõe-se ainda perguntar como é possível falar de tal movimento sem determiná-lo, sem fixá-lo mediante palavras, conceitos, enunciados, parecendo a linguagem filosófica tradicional incapaz, por sua forma e terminologia específicas, de exprimir adequadamente qualquer conteúdo, inclusive a própria dinamicidade, sem reconduzi-lo a horizonte capaz de fixá-lo, excluindo do próprio campo de investigação tudo o que não se deixa imobilizar por suas categorias.
  • 6. Eis outro motivo pelo qual se empreende, desde os primeiros cursos, tentativa de desconstrução sistemática da história da ontologia, exigência de distanciar-se de linguagem incapaz de captar o movimento como tal, dedicando-se a repensamento radical da própria noção de logos, explicando-se assim tanto a distorção sistemática do léxico filosófico tradicional quanto a introdução de novos vocábulos considerados mais funcionais ao projeto.
  • 7. Devem-se assinalar duas peculiaridades do léxico heideggeriano: o uso de hífens curtos, indicando que aquilo expresso por várias palavras deve ser entendido como fenômeno unitário, como em ser-no-mundo (In-der-Welt-sein), e o uso de aspas, sem explicação, para sublinhar que determinado termo deve ser entendido segundo seu sentido habitual, sedimentado pela tradição filosófica e pelo senso comum, que a obra pretende radicalmente colocar em discussão, explicando-se assim a estranheza sentida pelo leitor e as dificuldades enfrentadas pelos tradutores de Ser e Tempo.
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