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La logica del luogo e la visione religiosa del mondo. Introdução e tradução de Tiziano Tosolini
1. Cada um dos múltiplos indivíduos, como determinação autoexpressiva de um mundo entendido como identidade contraditória, contém em si um ponto da autoexpressão do mundo e forma a si mesmo de maneira autoexpressiva, e é nisso que reside a existência do si, que nega o espaço como autodeterminação temporal do mundo e, no plano do juízo, nega a direção subjetiva, existindo como autodeterminação do universal que se torna predicado mas não sujeito, sendo a atividade da consciência nada mais que esse processo.
2. Na autodeterminação temporal e predicativa do mundo, o si oscila entre dois movimentos: do externo ao interno, projetando o externo no interno, é instintivo, exposto ao desejo, egoísta e age segundo o imperativo hipotético; do interno ao externo, possuindo em si seu próprio fim, é volitivo, autônomo, racional e inteiramente moral, agindo segundo o imperativo categórico; essa posição moral, porém, adotada por quem pensa sempre a religião em termos morais, como Kant, não aproxima da religião nem faz emergir a verdadeira consciência religiosa.
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Sob o aspecto moral, o si é infinitamente obrigado e possui a si mesmo identificando-se com valores absolutos, tendo a vida eterna como sua razão de ser.
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Nenhuma religião concebida dessa perspectiva coincide com o verdadeiro espírito religioso.
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O espírito religioso não nasce de uma relação entre infinito e finito ou entre relativo e absoluto, mas somente quando a própria existência é posta em questão e o próprio si se torna o problema.
3. Enquanto o mundo material se autodetermina em seu aspecto subjetivo e o mundo da consciência em seu aspecto predicativo, o si como autodeterminação do universal é de início inteiramente racional, mas ainda não é o verdadeiro si individual, razão pela qual uma filosofia imanentista não consegue pensar a religião; a moral, por mais sensível que seja, pressupõe a existência do si e não a interroga, de modo que negá-la seria negar a própria moral, e poucos percebem a clara distinção entre o ponto de vista moral e o religioso.
4. O problema religioso não é um problema de valores, mas surge quando se toma consciência das profundas autocontradições que fundam a existência e o si se revela como existência autocontraditória, contradição expressa no antigo dito sobre a tristeza da vida e cuja raiz está na consciência da morte, que não se confunde com saber que se morrerá como corpo, nem com a sobrevivência espiritual, racional e moral, pois a razão, que não nasce, não percebe a morte.
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Dessa mesma fonte nascem também os problemas filosóficos.
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O si está constantemente à mercê dos desejos, e a moral, julgada autônoma, talvez consista afinal em sua própria negação, contendo a vontade moral uma autocontradição; por isso, na Divina Comédia de Dante, até os filósofos gregos vagam no limbo.
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Saber que se morrerá é ainda ver-se como coisa, como objeto, como vida corpórea.
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O vivente sustenta a si mesmo e, como indivíduo, nega o universal, o que vale até para os animais, que como seres animados não são irracionais; nem assim, porém, surge a consciência da morte.
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Como autodeterminação predicativa, só se pode afirmar que o si talvez exista por si mesmo nesse limite extremo, à maneira da autoconsciência cartesiana.
5. A consciência da própria morte eterna ocorre quando o si se põe diante do absolutamente ilimitado, do absoluto, e pelo confronto com a negação absoluta conhece sua morte eterna, que é a razão fundamental da existência do si, pois só quem a conhece compreende verdadeiramente sua individualidade: somente o que morre acontece uma única vez, e apenas diante da negação eterna o si conhece sua verdadeira unicidade.
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O verdadeiro indivíduo é a verdadeira pessoa, e o que se repete mais de uma vez não é indivíduo.
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Não pela autorreflexão, mas pelo conhecimento da morte eterna o si se torna verdadeiramente autoconsciente.
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Conforme o Ensaio sobre a filosofia de Descartes, o si é conhecido ao negar-se, ideia tomada como ponto de partida de toda essa filosofia.
6. O si torna-se autoconsciente só ao conhecer sua morte eterna, seu nada eterno, o que implica uma contradição absoluta, pois quem conhece a própria morte eterna deve tê-la transcendido e ser algo vivo, e no entanto o que simplesmente transcendeu a morte não é vivo, já que tudo o que vive deve morrer; nessa contradição situa-se a existência do si, e é nesse sentido que a religião é um fato do espírito, não postulado pela filosofia nem exigido pela moral, mas antes aquilo que postula e exige a filosofia e a moral.
7. Quando o relativo se põe diante do absoluto, morre, como mostra Isaías ao ver Deus: “Ai de mim! Estou perdido, porque sou homem de lábios impuros e habito no meio de um povo de lábios impuros; e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos”; o si, porém, só morrendo entra em contato com Deus por uma correlação inversa, pois a morte não é simples nada, e nisso aparece a autocontradição do próprio absoluto, que não pode ser relativo por opor-se objetivamente a algo nem absoluto por simplesmente abster-se de toda relação.
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O relativo não pode opor-se ao absoluto, e um absoluto que se opõe ao relativo é apenas outro relativo.
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O absoluto, como indica a palavra, é a dissolução de toda relação, mas após essa dissolução resta apenas um simples nada.
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Um Deus que nada cria é impotente e não é Deus.
8. O absoluto é verdadeiramente absoluto apenas ao pôr-se diante do nada absoluto, o que significa opor-se a si mesmo de modo autocontraditório, já que nada o nega do exterior e aquilo que nega o si deve partilhar de sua raiz; por isso o absoluto deve conter em si uma negação absoluta de si e tornar-se nada absoluto, de modo que opor-se a si mesmo equivale a que o nada se oponha ao próprio nada.
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O simples nada não pode opor-se ao si do absoluto, e o que não tem relação alguma com o si não pode negá-lo.
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Também na lógica formal as coisas só podem ser comparadas e contrapostas por partilharem o mesmo gênero.
9. O verdadeiro absoluto é identidade absolutamente contraditória, única via para descrever Deus em termos lógicos: contendo em si a autonegação absoluta e relacionando-se consigo por correlação inversa, Deus é ser autossubsistente e, precisamente por ser nada absoluto, é absoluto, onipotente e onisciente; assim, porque há o Buda há os seres sencientes e porque há os seres sencientes há o Buda, e porque há o Deus Criador há o mundo criado e vice-versa, sem que isso signifique retorno à transcendência absoluta de Barth ou panteísmo, acusação própria de quem pensa Deus pela lógica objetiva.
10. O absoluto não é o que carece de oposição, mas o que contém em si uma negação absoluta, de modo que o relativo não é parte nem diminuição do absoluto; o verdadeiro absoluto possui-se na autonegação, modula-se com o relativo e está em toda parte no mundo, sendo totalmente imanente e ao mesmo tempo totalmente transcendente, um Deus verdadeiramente dialético, cuja concepção não é panteísmo, mas poderia chamar-se panenteísmo (panentheismus), fora, porém, da lógica objetiva.
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Em nenhum lugar do mundo está Deus e, ao mesmo tempo, não há lugar onde Deus não esteja.
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No budismo, conforme D. T. Suzuki, esse paradoxo exprime-se no Sutra do Diamante pela lógica da afirmação-e-contudo-negação (affermazione-eppure-negazione): “Todos os dharmas não são dharmas e, contudo, são chamados dharmas”; assim o Buda não é Buda e por isso é Buda, e os seres sencientes não são seres sencientes e por isso são seres sencientes.
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A frase de Daitō Kokushi ilustra essa relação: “Separados por uma eternidade, e nem por um instante distantes; face a face o dia inteiro, e nem por um instante próximos”.
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Deus deve possuir sempre um aspecto kenótico, e o amor com que cria o mundo não é um opus ad extra, mas essencial a Ele como sua autonegação absoluta.
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Nem a dialética de Hegel se libertou da lógica objetiva, e por isso a esquerda hegeliana a leu de modo panteísta, enquanto a ideia budista de prajñā é permeada por verdadeira dialética absoluta, não sendo o budismo panteísta como julgam os estudiosos ocidentais.
11. Para os partidários da lógica objetiva, Deus como identidade absolutamente contraditória parece teologia mística, mas uma teologia puramente negativa não é dialética, pois o nada como mera negação nada é, assim como o ser absoluto de Spinoza foi chamado caput mortuum; o verdadeiro ser absoluto, que inclui sempre uma negação absoluta, é ilimitadamente criativo e realidade histórica, e a atividade criativa não é o surgir do ser a partir do nada, puro acaso, nem do ser a partir do ser, simples necessidade, mas o processo infinito em que o mundo, sem fundamento próprio, exprime a si mesmo e passa do criado ao criante.
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A atividade criativa foi tratada em detalhe na Coleção de estudos filosóficos, vol. V.
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Um Deus apenas Senhor, sujeito, transcendente, Dominus, não é criador; o Deus criador deve abraçar em si uma negação, do contrário é apenas um Deus arbitrário.
12. A pessoa foi tradicionalmente pensada apenas a partir de um si consciente, abstrato e individual, e a liberdade como agir a partir da própria essência; mas se essa essência reside no ser de um sujeito é instintiva, e se é pensada no aspecto predicativo, como razão e autonomia de seguir a lei pela lei, o si torna-se um si de qualquer um, determinação abstrata do universal, sem individualidade nem realidade, da qual não derivam ações nem fatos.
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O mero arbítrio não é liberdade, e uma pessoa simplesmente indeterminada não poderia agir a partir de si.
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No aspecto predicativo, o temporal contém algo objetivo, e o que se determina infinitamente como identidade contraditória é uma operação da consciência.
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Nesse plano nada se realiza, o dever permanece fechado na consciência e nem sequer há decisão, pois decidir implica a autonegação do si consciente e já está fora dele.
13. Só se pode falar de práxis quando a operação consciente do si adquire significado de acontecimento no mundo histórico e criativo, onde até o simples pensamento é ação, e o si da práxis não é meramente racional, mas existe onde há a possibilidade de violar as leis, sendo o si volitivo e pessoal sempre uma existência autocontraditória, pois a vontade só se encontra quando o sujeito rompe o aspecto predicativo e se determina dentro do predicado.
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O si como autodeterminação predicativa é autoconsciente e racional, mas não volitivo nem ativo.
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O que é apenas sujeito e não se torna predicado é o indivíduo como objeto de pensamento, e quando ele se determina predicativamente é instintivo e sujeito ao desejo, nem livre nem volitivo.
14. O si pessoal, indivíduo único que verdadeiramente se autodetermina, existe somente quando, determinando-se no sentido predicativo, é ao mesmo tempo subjetivo, isto é, identidade contraditória de sujeito e predicado, não residindo nem simplesmente dentro nem fora da consciência; quando exprime o mundo em si como identidade contraditória de interno e externo e se determina como ponto focal do mundo, isto é, quando é criativo, o ser pessoal é livre e ao mesmo tempo intrinsecamente necessário, constituindo-se apenas num mundo de identidade absolutamente contraditória, nada absoluto que contudo se determina.
15. O mundo como identidade absolutamente contraditória exprime-se em si mesmo por autonegação e se autoafirma formando-se como negação da negação, sendo criativo, e por mundo entende-se não o mundo que o senso comum põe diante do si, mas o ser locativo (essere locativo) absoluto, que pode chamar-se o absoluto, cuja autoexpressão, em termos religiosos, é revelação de Deus e cuja autoformação é vontade de Deus; nessa estrutura vê-se a relação trinitária de Pai, Filho e Espírito Santo, na qual se funda o si pessoal.
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Na discussão sobre a matemática, esse mundo foi chamado campo de identidade contraditória.
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O mundo do presente absoluto reflete-se em si mesmo e forma-se girando em torno de seu ponto focal.
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Os si individuais, determinando cada qual seu mundo, exprimem o uno absoluto e tornam-se autoprojeções dele, formando o mundo criativo como seus elementos criativos.
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Tal mundo não é emanativo, nem apenas produtivo e generativo, nem mundo da intuição intelectual, como afirmam os que interpretam mal essa filosofia, mas mundo em que o indivíduo age, mundo da vontade absoluta e, em certo sentido, também do mal absoluto.
16. O verdadeiro absoluto, ser absoluto como negação-e-contudo-afirmação, contém em si sua autonegação absoluta e a enfrenta, mas isso não significa pôr-se diante de um mundo sem Deus, o mundo natural, que é ateu ou, para os deístas, lugar da ordem da criação; o mundo como verdadeira autonegação absoluta de Deus deve ser um mundo diabólico, que nega totalmente um Deus sujeito e Senhor e sempre se rebela.
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A natureza é o mundo como limite extremo da autonegação de um Deus pensado como sujeito lógico ou ontológico.
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O mundo da natureza como ambiente é a determinação extrema do mundo histórico, onde sujeito ontológico e ambiente se determinam mutuamente, mas não é o mundo da máxima autonegação de um Deus predicativo, racional.
17. Por mais absurdo que pareça, o verdadeiro Deus absoluto deve possuir um aspecto diabólico, pois só assim é onisciente e onipotente: um Deus que apenas combate o mal é relativo, e um Deus apenas transcendente e sumo bem é abstrato, enquanto o Deus absoluto, contendo a negação absoluta, desce até o mal extremo, salva os ímpios e está oculto por correlação inversa até no coração do mais malvado; isso não elimina a distinção entre bem e mal, mas recusa o Deus perfeitíssimo da lógica objetiva e dedutiva, alheio aos fatos da experiência espiritual.
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Javé pediu a Abraão que sacrificasse o filho unigênito Isaac, renunciando à sua pessoa.
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A forma mais elevada deve ser a que dá forma à matéria mais baixa, e o ágape absoluto deve estender-se até o mal absoluto; um Deus que julga não é absoluto.
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A lógica autêntica é formulação da autoexpressão do absoluto e por isso deve ser dialética, como todo fato verdadeiramente evidente.
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Esse Deus não é uma Gottheit, mas a identidade absolutamente contraditória que inclui a negação absoluta, como mostra a lógica da afirmação-e-contudo-negação da sabedoria prajñā.
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Essa ideia só parece indiscriminada à lógica objetiva e é evidente para quem a experimentou; o que prejudica é o pensamento lógico-abstrato.
18. Sendo Deus a identidade absolutamente contraditória, o si, como sua projeção, é autêntica identidade contraditória de bem e mal, e o coração humano é originariamente o campo de batalha entre Deus e o diabo, como diz Dmitri Karamázov ao afirmar que a beleza se esconde em Sodoma, que é terrível e misteriosa e que nela lutam o diabo e Deus no coração humano; aí existe o si como ente volitivo e pessoa, racional como autodeterminação predicativa e ao mesmo tempo existente, em seu aspecto subjetivo, na negação da racionalidade, isto é, no mal radical.
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Kant, do ponto de vista moral, define esse mal como propensão ao mal.
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Conforme o ensaio A vida, trata-se de uma predisposição devida à identidade contraditória, vazia de qualquer fundamento, da natureza humana.
19. A identidade absolutamente contraditória como lugar, isto é, o mundo do presente absoluto e o espaço histórico, é como uma esfera infinita sem circunferência cujo centro está em toda parte, que sem fundamento próprio se reflete em si mesma: sua orientação infinita para o centro é o Deus transcendente, no qual alguns veem o sujeito ontológico absoluto do mundo histórico, e sua orientação para a periferia é sempre negativa e diabólica, razão pela qual o mundo parece cheio de elementos demoníacos e os si individuais são ao mesmo tempo divinos e diabólicos; a teologia da lógica do lugar não é teísta nem deísta, nem fato da mente nem da natureza, mas histórica.
20. O si é fundamentalmente religioso, e o problema religioso não diz respeito ao que o si agente deve ser ou fazer, mas à sua existência enquanto tal; a relação religiosa não se situa na oposição entre perfeito e imperfeito, que, por maior que seja a distância, estão na mesma linha rumo ao mesmo fim, nem nasce da imperfeição do si que erra e se extravia, pois até um especulador da bolsa erra e lamenta sua impotência, sendo o extravio religioso relativo não ao próprio fim, mas ao próprio lugar.
21. Também moralmente, o sentimento de impotência diante do bem estabelecido de modo objetivo não é sentimento religioso, e o arrependimento (zange) em perspectiva moral não é arrependimento religioso, mas remorso que deixa um resíduo de força própria (jiriki); o verdadeiro arrependimento acompanha-se de vergonha diante do outro e exige repudiar-se e abandonar-se não diante da sociedade, mas diante da origem do próprio si, de um Deus Pai ou de um Buda Mãe, envergonhando-se da própria existência, onde se encontra o numinoso de que fala Otto.
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No arrependimento moral, envergonha-se diante de si mesmo tomado como objeto, isto é, diante do próprio sentimento moral.
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Refletindo profundamente sobre a própria origem, como dizem os budistas, o sujeito contempla a si mesmo.
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Contemplar, no budismo, não é ver o Buda objetivamente como coisa externa, mas iluminar e refletir a origem do si; perceber Deus externamente não passa de magia.
22. Quanto mais profundamente se reflete sobre o fundamento do si, mais se manifesta a necessidade religiosa, porque o si é existência absolutamente contraditória: tudo passa, o que vive morre e sem morte não há vida, mas um mero organismo não conhece sua morte e por isso não tem si nem morre, ao passo que morrer é entrar no nada eterno, o que torna o si único e individual; conhecer a própria morte é ser tanto nada quanto ser, limite extremo da autocontradição onde reside a verdadeira autoconsciência, cuja constituição individual e pessoal tem por fundamento a autonegação do absoluto.
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Conhecer a própria morte significa ultrapassá-la, mas o que transcende a morte não é algo vivo.
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A autocontradição é conhecida quando se ultrapassam as ações do si, o que comumente se chama autoconsciência.
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Se isso bastasse, o si seria apenas universal e racional, sem um si único que acontece uma só vez nem autoconsciência genuína.
23. O verdadeiro absoluto, contendo sempre sua autonegação e determinando-se como negação-e-contudo-afirmação absoluta, constitui na própria autonegação o mundo do si, o mundo humano, e essa negação-e-contudo-afirmação é a criação divina; a relação entre Deus e o homem é correlação inversa, como exprime Daitō Kokushi: “Separados por uma eternidade, e nem por um instante distantes; face a face o dia inteiro, e nem por um instante próximos. E isso pertence a todas as pessoas”, e por isso o sentimento religioso não nasce do si, mas é chamado e obra de Deus ou do Buda, surgindo da mesma origem em que o si se constitui.
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Porque há os seres sencientes há o Buda, e porque há o Buda há os seres sencientes.
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O relativo diante do absoluto não é mera imperfeição, mas tem o sentido da negação.
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Agostinho, no início das Confissões, escreve: “inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti”.
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Os estudiosos que ignoram isso consideram Deus apenas do ponto de vista humano e confundem problemas religiosos e morais, como quem tenta disparar uma flecha de olhos vendados.
24. A moralidade está entre os valores humanos mais elevados, mas a religião não é necessariamente mediada por ela nem a usa como passagem, pois na relação religiosa com o ser absoluto, origem da vida, sábio e tolo, bom e mau são iguais, como se lê: “Se até os bons nascem na Terra Pura, quanto mais os pecadores!”; no mundo humano, autocontraditório, há por toda parte ocasiões que conduzem à religião, que é a subversão absoluta dos valores, sendo mais difícil a um moralista arrogante aderir a ela do que a um camelo passar pelo buraco de uma agulha.
25. O cristianismo, personalista, situa com extrema seriedade a origem da religião na queda do homem: o pecado original de Adão, desobediente ao Deus Criador, transmite-se aos descendentes, pecadores desde o nascimento e sem saída, libertados apenas pelo sacrifício do Filho Unigênito enviado por amor, isto é, pela fé na revelação de Cristo; embora moralmente pareça irrazoável, pensar o pecado original como fundamento do homem é uma visão religiosa profundíssima, que exprime um fato radical da vida humana, constituída a partir da autonegação absoluta de Deus e destinada desde a origem às chamas eternas do inferno.
26. Também a Verdadeira Escola da Terra Pura funda a existência humana no mal cármico, afirmando que os homens são seres sencientes profundamente pecadores, atormentados por paixões violentas e salvos apenas pela fé no Sagrado Nome do Buda, e o budismo em geral situa o fundamento último dos homens na ilusão, origem do mal cármico, que surge ao tomar o si objetivado como o si; por isso o Mahayana fala de salvação pelo satori, palavra mal compreendida, que não é percepção de um objeto, mas visão clara do fundamento do próprio nada e da origem do próprio mal cármico.
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A origem da ilusão está no modo de ver o si próprio da lógica objetiva.
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Ver o Buda objetivamente faria da via budista pura magia.
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Dōgen afirma: “Aprender o caminho do Buda é aprender o si; aprender o si é esquecer o si”, modo de ver totalmente contrário à lógica objetiva.
27. Uma religião baseada na força própria é conceito contraditório e não deveria sequer existir, equívoco em que caem os próprios budistas, pois religião da força do Outro (forza Altra) ou da força própria, zen ou Verdadeira Escola da Terra Pura, pertencem à tradição Mahayana, situam-se originariamente na mesma perspectiva e em seu cumprimento dão-se as mãos; a chamada prática fácil pode ser a mais difícil, como indica Shinran ao falar de uma fé na Terra Pura “fácil de alcançar, mas na qual ninguém nasceu”, pois toda religião exige um esforço de autonegação.
28. Quem desperta verdadeiramente para a consciência religiosa deve “apagar as chamas dos próprios cabelos que pegaram fogo”, mas a questão é de que ponto de vista e em que direção esforçar-se: pôr Deus ou o Buda numa terra ideal objetivamente inalcançável e esforçar-se por chegar lá por negação-e-contudo-afirmação é uso típico da força própria, que não é religião, nada tem a ver com o salto transversal (salto trasversale) de que fala Shinran e é totalmente alheio à Verdadeira Escola da Terra Pura.
