Coisa que age...
NISHIDA, Kitarō. De la chose qui agit au soi qui voit. Tradução: Jacynthe Tremblay. Montréal: Les Presses de l’Université de Montréal, 2023.
Prefácio de Nishida
1. Em Estudo sobre o bem buscou-se resolver, a partir da experiência pura, o problema da constituição da matéria e do espírito e as diversas questões a ele ligadas, examinando-se, em consonância com a filosofia de Bergson, de que modo essa posição poderia sustentar-se diante de um kantismo como o de Rickert.
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A experiência pura funcionava ali como ponto de partida capaz de fundar tanto a matéria quanto o espírito, sem pressupor sua separação prévia.
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A afinidade com Bergson fornecia apoio para uma concepção de experiência imediata e viva, anterior às construções conceituais.
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O desafio consistia em defender essa posição perante o neokantismo da escola de Rickert, que privilegia a validade e os valores em detrimento da experiência imediata.
2. Num momento seguinte, a referência central passou a ser o puro ato de autoposição (Tathandlung) de Fichte, e Intuição e reflexão no autodespertar (autoéveil) constituiu uma tentativa nessa direção, não por identidade plena com Fichte, mas pelo exame de certos problemas a partir de uma espécie de voluntarismo de tipo fichtiano, desdobrado em O problema da consciência, sobre as diferenças entre conhecimento, sentimento e vontade, e em Arte e moral, sobre o domínio dos objetos da arte e da moral e suas relações mútuas.
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O ato de autoposição fichtiano oferecia um modelo em que o eu se constitui na própria atividade, e não como substância dada.
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O voluntarismo adotado não significava adesão integral a Fichte, mas o uso de sua perspectiva como instrumento para enfrentar problemas próprios.
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O problema da consciência aplicou essa posição à distinção entre as faculdades de conhecer, sentir e querer e às questões que dela decorrem.
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Arte e moral estendeu a investigação aos domínios de objetos estéticos e éticos, examinando como se delimitam e se relacionam.
3. Desde a redação de Intuição e reflexão no autodespertar, a intuição foi posta no fundamento da vontade e adotou-se de Plotino a concepção de que agir é ver, fazendo-se da “vontade absoluta” a posição última, e, concluído Arte e moral, o interesse voltou-se para a religião, problema ao qual a reflexão passou a dirigir-se cada vez mais.
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Ao situar a intuição sob a vontade, o voluntarismo fichtiano já começava a ser transformado por um elemento contemplativo.
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A fórmula plotiniana de que agir é ver sugere que a ação mais profunda coincide com uma forma de visão, e não com mero esforço voluntário.
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A “vontade absoluta” representava, naquele estágio, o ponto extremo alcançado pela reflexão, do qual se abriu o caminho para a questão religiosa.
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Os verbos “apoiar-se em”, “estabelecer-se sobre” e “fundar-se em” acompanham sempre uma posição ou plano, como o da intuição, do conhecimento construtivo ou da vontade, mencionados explicitamente ou não.
4. Movido por essa exigência, o livro Da coisa que age ao si que vê (De la chose qui agit au soi qui voit) começou com o ensaio “O que é dado diretamente”, segundo o qual o dado imediato não é a sensação ou a percepção, como comumente se crê, mas uma coisa criadora, não mera matéria, e sim algo que contém a forma, embora ainda sem esclarecer positivamente como conceber tal coisa, tratando-se apenas da intuição artística e da atividade da vontade com base em concepções anteriores.
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A tese rompe com o empirismo sensualista, para o qual o primeiro dado seria um conteúdo sensível passivo.
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O dado imediato é já formador e criativo, portador de forma, e não um material informe à espera de elaboração.
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A insuficiência reconhecida estava em ainda não dispor de um conceito positivo dessa coisa criadora, recorrendo-se a modelos já conhecidos, como a intuição artística e a vontade.
5. Para exprimir a reflexão daquele momento acrescentou-se o breve ensaio “A intuição e a vontade”, e, buscando esclarecer a concepção de que o si que vê se encontra no fundamento da coisa que age, passou-se a refletir sobre o modo como se constituem os fenômenos físicos e sobre o que se acha por trás deles.
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A relação entre intuição e vontade é o eixo da passagem do voluntarismo a uma posição mais intuitiva.
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O projeto consiste em mostrar que a coisa que age tem por fundamento um si que vê, invertendo a primazia da ação sobre a visão.
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O plano de fundo (arrière-plan) e o fundo último (arrière-fond) exprimem a transcendência na direção do predicado, antecipando a lógica do lugar.
6. No ensaio “O que se encontra por trás dos fenômenos físicos” tratou-se do autodespertar volitivo no fundamento do espaço e das forças físicas, fazendo dos diversos aspectos da coisa que age, por meio da percepção interna, formas desse autodespertar e apresentando a causalidade empírica como caso particular do desenvolvimento ideal, de modo que, no quadro da percepção interna própria da vontade, o sentido de “o que é dado diretamente” tornou-se mais claro, exigindo examinar a fundo a própria percepção interna.
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Espaço e forças físicas deixam de ser realidades últimas e passam a ser compreendidos como expressões de um autodespertar da vontade.
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A percepção interna é o meio pelo qual os aspectos da coisa que age se revelam como formas desse autodespertar.
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A causalidade empírica, longe de princípio autônomo, aparece como caso particular de um desenvolvimento ideal mais amplo.
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O ganho de clareza quanto ao dado imediato impôs, como tarefa seguinte, a análise rigorosa da percepção interna.
7. No ensaio “Sobre a percepção interna”, o tema foi problematizado a partir do pensamento de Meinong, considerando-se percepção interna e externa segundo uma forma fundamental idêntica e a percepção externa como espécie de percepção interna, e, para esclarecer essa concepção, analisaram-se o subjectum, a substância e a unidade sintética do sujeito por meio do hypokeimenon (ὑποκείμενον) de Aristóteles, isto é, do substrato, sem que o objetivo fosse ainda plenamente alcançado.
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O diálogo com Meinong serviu para situar o problema da percepção interna no debate da teoria dos objetos.
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Unificar percepção interna e externa numa forma fundamental comum elimina a oposição rígida entre mundo interior e exterior.
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O recurso ao substrato aristotélico visava esclarecer o que subjaz como sujeito, confrontando a substância clássica com a unidade sintética moderna do sujeito.
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O reconhecimento de que a meta não fora plenamente atingida prepara a guinada lógica posterior.
8. No ensaio “O ato de expressão” buscou-se verdadeiramente o dado imediato no conteúdo desse ato, mostrando que, na consciência própria do ato de expressão, se vê sem consciência subjetiva, numa consciência que envolve a consciência subjetiva, e estabeleceu-se que a percepção interna própria da vontade é justamente o que ali se procura.
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A expressão oferece um modelo de consciência que não se reduz ao sujeito individual, mas o engloba.
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Ver sem consciência subjetiva significa uma visão anterior à separação entre sujeito e objeto.
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A percepção interna da vontade encontra no ato de expressão sua forma mais adequada.
9. A consciência do ato de expressão foi alcançada ao buscar, no fundamento da coisa que age, o si que vê, mas permaneciam obscuras as relações entre a intuição ou percepção interna da vontade e o conhecimento conceitual, pois a intuição fora até então pensada com base na consciência ou na experiência, e fundá-la logicamente exigia investigar as relações entre a coisa que age, ou o si que conhece, e o substrato aristotélico, como se tentara em “Sobre a percepção interna”.
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A dificuldade central era articular a intuição com o conhecimento por conceitos, sem reduzir uma ao outro.
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Pensar a intuição a partir da consciência ou da experiência mostrava-se insuficiente para uma fundamentação lógica.
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A retomada do substrato aristotélico indica que a solução passava por uma nova teoria do sujeito do juízo.
10. No ensaio “A coisa que age” examinou-se esta a partir do fato de que o predicado se torna subjectum, invertendo a primazia tradicional do sujeito gramatical e lógico.
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Na lógica aristotélica, o substrato é o que é sujeito e nunca predicado, e aqui o movimento parte do predicado.
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Essa inversão abre caminho para situar o fundamento da realidade na direção do predicado, e não na de uma substância subjacente.
11. O ponto de partida dessa fundamentação lógica foi exposto no ensaio “O lugar”, que fez do “predicado transcendente” o plano da consciência, permitindo apreender o que repousa no fundamento do pensamento e marcar a passagem de um voluntarismo fichtiano a uma espécie de intuicionismo, em que a intuição tem alcance diverso do intuicionismo anterior, não se fundando numa intuição equivalente à união sujeito/objeto, mas vendo tudo o que existe e age como sombra do si que se reflete por si mesmo em si e pondo no fundamento de todas as coisas um si que vê sem vidente.
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O “predicado transcendente” é o plano que envolve todos os sujeitos, identificado ao plano da consciência.
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A mudança de posição é explícita: do primado da vontade ativa ao primado de uma visão que fundamenta a ação.
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O novo intuicionismo recusa a noção corrente de intuição como fusão de sujeito e objeto.
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As coisas existentes e atuantes aparecem como reflexos ou sombras de um si que se reflete em si mesmo.
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O “si que vê sem vidente” designa uma visão sem sujeito vidente substancial, fundamento último de todas as coisas.
12. A “Resposta ao Professor Sōda” respondeu a suas objeções e esclareceu a posição adotada em relação à escola de Rickert, e o ensaio “O si que conhece” tratou do modo como se combinam o ato de consciência propriamente dito e o sentido, examinando o conhecer a partir das relações de subsunção e resolvendo diversos problemas ao apresentar o universal concreto como universal do silogismo.
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O diálogo com Sōda permitiu delimitar a posição própria diante do neokantismo de Rickert.
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A articulação entre ato e sentido enfrenta a separação neokantiana entre o psicológico e o válido.
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O conhecer é pensado como relação de subsunção, em que o particular se inscreve num universal.
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O universal concreto, entendido como universal do silogismo, é a chave para mediar particular e universal sem abstração.
13. Na cultura ocidental, que fez do eidos (εἶδος) o ser e da forma o bem, a preferência recaiu naturalmente sobre o que é digno de respeito e pode ser estudado, mas no fundamento da cultura oriental, que nutriu os antepassados por milênios, oculta-se o “ver a forma do sem-forma” e “ouvir a voz do sem-voz”, algo que o coração não cessa de buscar e a que se pretende dar fundamento lógico.
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A tradição ocidental identifica ser e forma, privilegiando o determinado, o visível e o cognoscível.
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A tradição oriental, ao contrário, orienta-se para o informe e o silencioso como fonte mais profunda da forma e da voz.
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A exigência oriental não é apresentada como mera sensibilidade, mas como algo que reclama fundamentação lógica rigorosa.
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O projeto filosófico consiste, assim, em dar à experiência do sem-forma uma lógica própria, capaz de dialogar com a filosofia ocidental.
