8 Formação da realidade
NISHIDA, Kitarō. An inquiry into the Good. Tradução: Masao Abe. New Haven, Conn.: Yale Univ. Press, 1992.
A Verdadeira Realidade Tem Sempre o Mesmo Modo de Formação
1. A verdadeira realidade é o estado de consciência em que sujeito e objeto se dissolvem na união de pensar, sentir e querer, forma na qual se manifesta a realidade independente e autossuficiente, que deve ser realizada com todo o ser, e não refletida, analisada ou expressa em palavras, cabendo, porém, examinar o modo de formação pelo qual ela se estabelece para esclarecer como dela surgem as diversas discriminações do conhecimento reflexivo.
2. A verdadeira realidade, como o verdadeiro sentido da arte, não pode ser transmitida de uma pessoa a outra, pois só se transmite uma casca abstrata, e ainda que se julgue compreender o mesmo por meio da mesma linguagem, o conteúdo necessariamente difere em alguma medida.
3. A verdadeira realidade independente e completa em si estabelece-se em todas as coisas do mesmo modo: o todo aparece primeiro implicitamente, dele o conteúdo se desenvolve por diferenciação e, concluído esse desenvolvimento, a totalidade da realidade (jitsuzai) se atualiza e completa como uma única entidade que se desenvolveu a si mesma.
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Esse modo de desenvolvimento vê-se com máxima clareza na atividade da consciência.
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Na vontade, há primeiro a concepção de um fim, a partir da qual, segundo as circunstâncias, se organizam sistematicamente as concepções adequadas à sua realização, e completada essa organização começa a ação, pela qual o fim se realiza e a atividade volitiva termina.
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O mesmo vale para o pensamento, a imaginação e outras atividades cognitivas, nas quais da concepção inicial de um fim emergem ligações conceituais até que, alcançada a união adequada, a atividade se complete.
4. Como disse James em “O fluxo do pensamento” (The Stream of Thought), toda consciência assume essa forma, como na concepção de uma frase, que já está inteiramente implícita no instante em que o sujeito gramatical surge na consciência e cujo conteúdo se desenvolve e se atualiza quando aparece o predicado.
5. Embora esse modo seja evidente em fenômenos de consciência desenvolvidos como vontade, pensamento e imaginação, e na percepção e no impulso o todo pareça atualizar-se de imediato, a consciência nunca é passiva nem simples, mas sempre ativa e complexa, estabelecendo-se necessariamente por todo o processo modal, e, sendo a vontade, como sustentam os voluntaristas, a forma originária da consciência, toda consciência, por mais simples, se constitui segundo o mesmo modo da vontade.
6. Impulso e percepção diferem de volição e pensamento em grau e não em natureza, sendo inconsciente nos primeiros o processo que nos segundos é consciente, de modo que ambos devem ter a mesma estrutura, como mostra o desenvolvimento da percepção a partir de experiências diversas, pois uma música a princípio nada comunica e só aos poucos, com o hábito do ouvido, chega a ser claramente percebida, podendo-se afirmar que a percepção é uma espécie de pensamento.
7. A distinção entre consciência passiva e ativa gera mal-entendidos, pois embora na consciência passiva os conceitos pareçam unificados por circunstâncias externas, sem que uma realidade total se desenvolva de dentro, essa distinção não é estrita, mas apenas de grau.
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Atividades como associação e memória não são regidas por uma suposta lei de associação nem por circunstâncias do mundo externo.
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As qualidades internas da pessoa são sua força motriz, e uma realidade unificadora desenvolve-se a partir de si mesma.
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Na consciência ativa, essa realidade unificadora emerge claramente como concepção, enquanto na passiva é inconsciente ou opera como uma espécie de sentimento.
8. A distinção entre ativo e passivo, isto é, a ideia de que o espírito atua de dentro ou é afetado de fora, deriva da suposição de que mente e matéria existem independentemente e de que os fenômenos de consciência surgem de sua atividade mútua, distinção ausente na experiência pura, em que ativo e passivo diferem apenas em grau, considerando-se ativa a consciência quando há clara concepção de um fim.
9. Contra o empirismo, para o qual toda consciência se desenvolve pela atividade dos objetos externos, nenhum fenômeno de consciência surgiria sem um caráter interno a priori que respondesse às funções das coisas externas, como uma semente que, por mais nutrida de fora, só se torna planta se tiver em si a força de crescer, embora tampouco haja planta apenas com a semente, de modo que ambas as visões captam um só aspecto, sendo a atividade da verdadeira realidade o autodesenvolvimento de uma entidade sem par, e as distinções entre interno e externo, ativo e passivo, formulações do pensamento para explicá-lo.
10. Todos os fenômenos de consciência estabelecem-se no mesmo modo, e embora pareça muito difícil incluir nele também os acontecimentos do mundo natural, tidos como fenômenos externos, um mundo puramente material separado da consciência é conceito abstrato, não havendo verdadeira realidade fora dos fenômenos de consciência, e a realidade realizada na experiência direta manifesta-se sempre no mesmo modo.
11. Costuma-se pensar que coisas materiais fixas existem como fatos, mas o fato efetivo é sempre um acontecimento, e, como disse Heráclito, tudo flui e nada permanece (Alles fliesst und nichts hat Bestand), sendo a realidade uma sucessão de acontecimentos que fluem sem cessar.
12. O chamado mundo objetivo não está separado dos fenômenos de consciência, mas consiste neles unificados por certa atividade unificadora, sendo considerado mundo objetivo independente quando esses fenômenos são universais e mantêm uma unidade que transcende a consciência individual limitada, como uma lâmpada diante de si, que, se vista por um só, poderia ser tida por alucinação subjetiva, mas, reconhecida igualmente por todos, torna-se fato objetivo, nascendo desse caráter universal o mundo objetivo e independente.
