4 Intuição intelectual
NISHIDA, Kitarō. An inquiry into the Good. Tradução: Masao Abe. New Haven, Conn.: Yale Univ. Press, 1992.
1. A intuição intelectual (intellektuelle Anschauung) é a intuição de coisas ideais, em geral transexperienciais, que apreende aquilo que só poderia ser conhecido dialeticamente, como ocorre na intuição de artistas e religiosos, sendo idêntica à percepção comum quanto ao processo de intuir, mas muito mais rica e profunda quanto ao conteúdo.
2. A intuição intelectual não é uma capacidade mística especial nem uma fantasia ociosa desligada dos fatos da experiência, mas é da mesma natureza que a percepção comum, sem fronteira nítida entre ambas, pois a percepção nunca é puramente simples, contendo elementos ideais e sendo composicional, de modo que o que se vê no presente é visto mediado, de maneira explicativa, pela força da experiência passada.
3. Os elementos ideais da percepção não são ideias associadas acrescentadas de fora, mas elementos que a estruturam e transformam, podendo tornar-se extremamente ricos e profundos e variando conforme o talento e o grau de desenvolvimento experiencial de cada pessoa.
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Com o avanço da experiência, tanto o que antes não podia ser experimentado quanto o que só gradualmente se conhecia dialeticamente passam a aparecer como fatos intuitivos.
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O alcance da intuição não pode ser medido pela própria experiência presente, pois o que alguém não consegue intuir agora pode ser intuído por outros, como Mozart, que, segundo se conta, abarcava de uma só vez o todo de suas composições, mesmo longas, como um quadro ou uma estátua.
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Os elementos ideais não se acumulam apenas quantitativamente, mas aprofundam-se qualitativamente, culminando na intuição do religioso que, pelo amor humano, intui a unidade entre si e o outro.
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Saber se uma intuição extraordinária é fantasia ociosa ou intuição objetivamente real depende de sua relação com outras coisas e de seus efeitos, pois na experiência direta ambas têm a mesma qualidade essencial, diferindo apenas quantitativamente no alcance de suas unidades.
4. A ideia de que a intuição intelectual se distingue da percepção comum por transcender espaço, tempo e pessoa individual e penetrar diretamente a natureza da realidade não se sustenta, pois, do ponto de vista estrito da experiência pura, a experiência não está presa a essas formas, que derivam de uma intuição que as transcende.
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Em todo estado de experiência direta não há distinção entre sujeito e objeto, encontrando-se a realidade face a face.
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Isso não se limita a uma intuição intelectual particular, pois a “identidade” (Identität) de Schelling é também um estado de experiência direta.
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A distinção entre sujeito e objeto é forma relativa que surge quando se perde a unidade da experiência, e tomá-los como realidades mutuamente independentes é uma visão arbitrária.
5. A intuição pura sem vontade de Schopenhauer não é dom especial do gênio, mas o estado mais natural e unificado da consciência, como nas intuições de uma criança inocente, e a intuição intelectual é justamente o que aprofunda e amplia esse estado de experiência pura, manifestando uma grande unidade no desenvolvimento sistemático da consciência.
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Essa unidade manifesta-se quando o estudioso alcança uma nova ideia, a pessoa moral um novo motivo, o artista um novo ideal e o religioso um novo despertar, conquistas todas enraizadas na intuição mística.
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Uma consciência meramente sensorial não iria além da intuição perceptiva comum, mas o espírito idealista busca uma unidade ilimitada, que lhe é dada na forma da intuição intelectual.
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A intuição intelectual, como a percepção, é o estado mais unificado da consciência.
6. Assim como a percepção comum é tida por passiva, a intuição intelectual é vista como contemplação passiva, mas a verdadeira intuição intelectual é a atividade unificadora na experiência pura, apreensão da vida semelhante ao domínio de uma arte ou, mais profundamente, ao espírito estético, como quando a inspiração surge no pintor e o pincel se move espontaneamente, operando por trás dessa atividade complexa uma realidade unificadora cujas transições não são inconscientes, por serem desenvolvimento e completude de uma única coisa.
7. A intuição intelectual, discernimento dessa realidade única, encontra-se não apenas nas belas-artes, mas em toda conduta disciplinada, sendo fenômeno extremamente comum que, embora reduzido por psicólogos a hábito ou atividade orgânica, é, do ponto de vista da experiência pura, o estado de unidade entre sujeito e objeto e a fusão de conhecer e querer.
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No esquecimento mútuo de si e do objeto, nem o objeto move o eu nem o eu move o objeto, havendo apenas um mundo, uma cena.
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Embora pareça atividade subjetiva, a intuição intelectual é estado que transcendeu sujeito e objeto.
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A própria oposição entre sujeito e objeto surge por meio dessa unidade, à qual chegam coisas como a inspiração artística.
8. A intuição intelectual não é intuição de uma universalidade abstrata separada dos fatos, pois o espírito de uma pintura, embora distinto das coisas individuais representadas, não se desprende delas, já que verdadeira universalidade e individualidade não se opõem, podendo o verdadeiro universal exprimir-se pela determinação da individualidade, como cada pincelada primorosa do artista exprime o verdadeiro sentido do todo.
9. A intuição intelectual subjaz ao pensamento, que, sendo um sistema, exige em sua base uma intuição de unidade, de modo que a intuição do gênio no pensamento difere do pensar comum apenas em grau e não em qualidade, sendo simplesmente uma nova e profunda intuição de unidade.
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Como observou James em “O fluxo do pensamento” (The Stream of Thought) acerca da consciência de que “o baralho está sobre a mesa”, ao se ter consciência do sujeito o predicado está implicado, e ao se ter consciência do predicado o sujeito está implicado.
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Na base dessa consciência há uma intuição única, essencialmente idêntica ao domínio de uma arte.
10. A intuição está na base de todas as relações, que por meio dela se estabelecem, e por mais que o pensamento se estenda não pode ultrapassar a intuição fundamental sobre a qual se ergue, razão pela qual não pode ser explicado exaustivamente.
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Na base do pensamento há um intuir inexplicável sobre o qual se constrói toda prova, e uma realidade mística sempre oculta, o que vale até para os axiomas da geometria.
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Diz-se que o pensamento pode ser explicado e a intuição não, mas “explicação” significa apenas a capacidade de retornar à intuição fundamental.
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O intuir que fundamenta o pensamento é base da explicação e, ao mesmo tempo, a própria força de pensar, e não mera forma estática do pensamento.
11. A intuição intelectual opera também na base da vontade, que por ela se estabelece, pois querer algo é intuir a unidade entre sujeito e objeto, sendo o avanço da vontade o desenvolvimento e a completude dessa unidade intuitiva e sua realização a completude dessa unidade.
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Por operar essa intuição, sente-se que o eu atua na vontade, não existindo o eu à parte dela, já que o verdadeiro eu é essa intuição unificadora.
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Nessa perspectiva, o que os antigos chamavam agir da manhã à noite sem agir pode ser chamado quietude no movimento, um fazer do não fazer.
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Assim se transcendem conhecimento e vontade, descobrindo-se sua unidade na intuição que lhes subjaz.
12. O verdadeiro despertar religioso não é conhecimento abstrato fundado no pensamento nem sentimento cego, mas a realização, com todo o ser, da profunda unidade na base do conhecimento e da vontade, uma espécie de intuição intelectual e apreensão profunda da vida que a espada da lógica não penetra nem o desejo move, fundamento de toda verdade e contentamento, presente como intuição fundamental na base de todas as religiões, sob formas diversas, e devendo a religião estar na base do saber e da moralidade, que por ela vêm a existir.
