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3 Vontade

NISHIDA, Kitarō. An inquiry into the Good. Tradução: Masao Abe. New Haven, Conn.: Yale Univ. Press, 1992.

1. Do ponto de vista da experiência pura, a vontade, embora costume visar à ação e acompanhá-la, é um fenômeno mental distinto da ação externa, que não constitui sua condição necessária, e seus fins são na verdade fatos internos à consciência, pois sempre se quer o próprio estado, não havendo na vontade distinção entre interno e externo.

  • Mesmo quando circunstâncias externas impedem a ação, a vontade continua a operar.
  • Como afirmam os psicólogos, basta recordar uma memória passada de movimento e dirigir-lhe a atenção para que o movimento se siga naturalmente.
  • Visto a partir da experiência pura, o próprio movimento é apenas continuação da sensação de movimento presente na recordação.

2. A vontade não é um poder especial, mas apenas a experiência da passagem de uma imagem mental a outra, de modo que querer algo é dirigir-lhe a atenção, como se vê com clareza na conduta dita involuntária, em que o deslocamento da atenção e o avanço da vontade coincidem exatamente; a atenção pode ter alcance mais amplo, mas a vontade existe em geral como estado de atenção voltado ao sistema de representações de movimento, surgindo quando esse sistema ocupa a consciência e com ela se torna uno.

3. A diferença entre simplesmente atentar a uma representação e tomá-la como fim da vontade reside no sistema a que ela pertence, pois toda consciência é sistemática e nenhuma representação surge isolada, de modo que representações idênticas podem tornar-se objeto de conhecimento ou fim da vontade.

  • Ao recordar um copo de água, ele é objeto de conhecimento quando associado apenas a condições do mundo externo, e fim da vontade quando associado aos próprios movimentos.
  • A ideia de Goethe de que as estrelas inalcançáveis do céu são belas relaciona-se ao fato de que aquilo que não entra no sistema das próprias representações de movimento não pode ser fim da vontade.

4. Todos os desejos surgem da recordação de experiências passadas e caracterizam-se por sentimentos intensos, ligados ao fundamento do sistema de representações de movimento nos mais fortes instintos vitais, e por sensações de tensão, que são as sensações musculares do movimento; recordar um movimento, porém, ainda não é querê-lo, pois a vontade só age decisivamente quando essas representações ocupam toda a consciência e se tornam puramente unas com ela.

5. No início do desenvolvimento da consciência não há distinção entre sistemas de representações de movimento e sistemas de representações do conhecer, e mesmo quando se diferenciam não chegam a diferir em natureza, constituindo apenas dois modos de designar um mesmo fenômeno mediante a separação de seus aspectos distintivos.

  • Os organismos realizam originalmente movimentos para preservar a vida, e como a consciência evolui a partir desses movimentos instintivos, o estado primordial é impulsivo e não perceptivo.
  • Com o acúmulo de experiências e associações de ideias, tornam-se possíveis dois sistemas, um centrado na percepção e outro no movimento.
  • O conhecer puro possui algum significado prático, e a vontade pura baseia-se em algum conhecimento, estando ambos os aspectos presentes nos fenômenos mentais concretos.
  • Nessa perspectiva, a percepção é uma espécie de vontade impulsiva e a vontade uma espécie de recordação; a vontade, tida como fortuita, apoia-se em algum estímulo, e a percepção também pode fixar previamente seu fim e dirigir a ele os órgãos dos sentidos.
  • O pensamento é inteiramente voluntário, ao passo que a vontade impulsiva é completamente passiva.

6. Representações de movimento e de conhecimento não diferem inteiramente em natureza, e a distinção entre vontade e conhecer é apenas relativa, pois os sentimentos de prazer e dor e a sensação de tensão próprios da vontade acompanham, ainda que fracos, a atividade de conhecer, que, subjetivamente, pode ser vista como desenvolvimento de uma força latente interna, sendo ambos desenvolvimentos sistemáticos de uma realidade oculta.

7. Separando sujeito e objeto, costuma-se dizer que no conhecimento o sujeito se subordina ao objeto e na vontade o objeto ao sujeito, mas ambos têm um ponto em comum, pois nenhum desses movimentos é completo.

  • No conhecimento, parte-se primeiro de uma suposição e examina-se à luz dos fatos, e por mais empírica que seja a pesquisa, supõe hipóteses prévias, tidas como verdadeiras quando concordam com os chamados objetos.
  • Nos movimentos volitivos, ter um desejo não leva diretamente à ação decisiva, que só ocorre após considerá-lo à luz dos fatos objetivos e apreender as possibilidades adequadas.
  • O desejo só se realiza pela concordância com o objeto, tornando-se a vontade tanto mais ineficaz quanto mais se afasta dele e tanto mais eficaz quanto mais dele se aproxima.

8. Para realizar um fim elevado distante da realidade, é preciso considerar meios e avançar passo a passo, o que equivale a buscar harmonia e acordo com o objeto, restando, se não se encontram meios adequados, apenas alterar o fim; já quando o fim está próximo da realidade dada, como na conduta habitual da vida cotidiana, o desejo converte-se imediatamente em execução, agindo-se então a partir do objeto e não do sujeito.

9. Assim como na volição o objeto não se subordina inteiramente ao sujeito, no conhecimento o sujeito não se subordina inteiramente ao objeto, pois quando as ideias constituem verdade objetiva, seguindo as leis da realidade que opera segundo elas, realiza-se um ideal, sendo o pensamento uma atividade aperceptiva, vontade interna baseada na exigência de conhecer, cuja meta alcançada é uma espécie de realização da vontade; a diferença está em que a volição modifica os fatos segundo o ideal e produz, enquanto o conhecimento modifica o ideal segundo os fatos e descobre, já que a verdade não é produzida, mas aquilo segundo o qual se deve pensar.

10. Do ponto de vista da experiência pura, não há objeto separado do sujeito, sendo a verdade aquilo que unifica os fatos da experiência e a verdade objetiva o sistema de representações mais eficaz e integrador, de modo que conhecer a verdade é unificar a experiência, passar de uma unidade menor a uma maior e, tomando essa atividade unificadora como o verdadeiro eu, conformar-se a esse eu maior e atualizá-lo, como na afirmação de Hegel de que a meta de todo saber é o espírito conhecer-se em todas as coisas do universo, ampliando-se a atividade do eu à medida que o que não era eu entra em seu sistema.

11. O conhecer parece passivo porque o pensamento se centra habitualmente em exigências individuais, mas torna-se ativo quando o centro da consciência se desloca para as exigências racionais, pois, como disse Espinosa, conhecimento é poder, e também o domínio sobre o próprio corpo não difere essencialmente do conhecimento das mudanças externas.

  • O corpo é matéria como os demais corpos materiais, e conhecer pela visão a mudança de uma coisa externa equivale a sentir pela sensação muscular o movimento do próprio corpo, abrangendo o “mundo externo” tanto o corpo quanto as demais coisas materiais.
  • Do ponto de vista da experiência pura, mover o corpo por meio da representação de movimento significa apenas reconhecer que uma sensação de movimento acompanha certa representação antecipatória, o que equivale à realização de mudanças antecipadas no mundo externo.
  • Na consciência primordial, o movimento do próprio corpo e o de um objeto externo são talvez idênticos, distinguindo-se com o avanço da experiência: o que ocorre sob condições específicas é tido como mudança externa, e o que obedece imediatamente à representação antecipatória, como movimento próprio.
  • Essa distinção não é absoluta, pois movimentos um pouco complexos não obedecem diretamente às representações antecipatórias, aproximando-se aí nitidamente a atividade da vontade da atividade do conhecimento.

12. Considerando a mudança no mundo externo como mudança no mundo da consciência, isto é, na experiência pura, e a presença ou ausência de condições como diferença de grau, a realização do conhecimento e a da vontade mostram-se de mesma natureza.

  • Pode-se objetar que a representação antecipatória na volição causa diretamente o movimento, ao passo que no conhecer não causa a mudança externa.
  • A causalidade, porém, é fundamentalmente uma continuidade invariável de fenômenos de consciência.
  • Supondo um mundo externo inteiramente independente da consciência, a representação antecipatória volitiva não poderia ser causa do movimento externo, mas apenas paralela a ele, tornando-se sua relação com o movimento idêntica à da representação antecipatória no conhecimento com o mundo externo.
  • De fato, representação antecipatória volitiva e movimento corporal só se acompanham sob certas condições.

13. A chamada liberdade da vontade não consiste em produzir desejos livremente, pois o desejo é essencialmente algo dado, mas em agir segundo um motivo profundo recebido, sentindo-se então ativo e livre, e sentindo coação quando se age contra ele, sendo a liberdade nesse sentido sinônimo do desenvolvimento sistemático da consciência.

  • No conhecimento há liberdade do mesmo modo.
  • Poder desejar qualquer coisa significa apenas a possibilidade de desejar, pois os desejos efetivos são dados em momentos específicos e, salvo quando um motivo está em desenvolvimento, não se sabe de antemão o que o eu desejará no instante seguinte.
  • Não é o eu que produz desejos, mas os motivos atualizados são o próprio eu.
  • Não existe um eu transcendente, exterior ao desejo, que decida livremente os motivos, e se existisse, suas decisões seriam fortuitas e nada livres.

14. Não há distinção absoluta entre volição e conhecimento, que, como fatos de experiência pura, são indistinguíveis e constituem juntos o processo de autorrealização sistemática de uma realidade universal, cuja unidade culmina na verdade e, ao mesmo tempo, na práxis.

  • Qualquer distinção suposta é juízo arbitrário imposto de fora.
  • Nas sequências perceptivas, conhecimento e vontade ainda não estão separados, sendo o conhecer o próprio agir.
  • Com o desenvolvimento da consciência, o conflito entre sistemas, avanço rumo a uma unidade maior, permite distinguir ideais e fatos, separa mundos subjetivo e objetivo e faz surgir a ideia de que a volição vai do sujeito ao objeto e o conhecimento do objeto ao sujeito.
  • Essa distinção nasce quando se separam sujeito e objeto e se perde o estado unificado da experiência pura.

15. Tanto os desejos da vontade quanto as ideias do conhecer são estados de desunião em que ideais se separam dos fatos, sendo a ideia também uma exigência diante dos fatos e a verdade uma ideia que concorda com eles e deve ser atualizada, idêntica, portanto, a um desejo ajustado aos fatos e realizável, com a diferença de ser universal e o desejo individual; realizar a vontade ou culminar a verdade significa passar da desunião ao estado de experiência pura.

16. A verdade é o que mais se aproxima dos fatos mais concretos da experiência, e não uma comunidade abstrata, pois sua culminação são os fatos diretos e concretos que sintetizam os diversos aspectos da experiência, dos quais a verdade é abstraída e construída.

  • Se por universalidade da verdade se entende generalidade abstrata, está-se longe da verdade.
  • A verdade reside na unidade, mas não numa unidade de conceitos abstratos, e sim nos fatos diretos.
  • A verdade perfeita pertence à pessoa individual e é atual, não podendo ser expressa em palavras, razão pela qual a verdade científica não pode ser considerada perfeita.

17. O critério da verdade não é externo, mas reside no estado de experiência pura, sendo conhecer a verdade conformar-se a esse estado; mesmo em disciplinas abstratas como a matemática, os princípios fundamentais repousam na intuição e na experiência direta, e, incluída a consciência de relações como experiência, a intuição matemática também é experiência, julgando-se a verdade ou falsidade de duas experiências diretas segundo uma terceira que as envolva.

18. A convicção da verdade surge no estado de experiência direta, quando sujeito e objeto se fundem e não se consegue duvidar da realidade única do universo, e a atividade da vontade é expressão dessa experiência e estabelecimento da unidade da consciência.

  • A expressão do desejo, como a de uma representação, é simples fato de experiência direta.
  • Chegar a uma decisão após o conflito de desejos, como formar um juízo após deliberações, é estabelecer uma unidade interna.
  • Assim como conjecturas científicas se comprovam pela experimentação, o que se manifesta quando a vontade se realiza no mundo externo é a experiência mais unificada e direta, que rompe a distinção sujeito-objeto.
  • A objeção de que a unidade interna é livre, enquanto a unidade com o mundo externo exige conformar-se à natureza, não procede, pois toda unidade é dada, e as distinções entre interno e externo são relativas.

19. A atividade da vontade não é mera esperança, que é estado de desunião da consciência em que a realização da vontade está obstruída, pois a unidade da consciência é o próprio estado da vontade ativa: por mais que a realidade contrarie a verdadeira esperança do eu, quando a vontade se satisfaz e se une puramente a ela, a realidade é a realização da vontade, e, inversamente, por mais completas que sejam as circunstâncias, havendo esperanças à parte e desunião, a vontade se obstrui, ligando-se atividade e negação da vontade a simplicidade e não simplicidade, unidade e desunião.

20. No instante de ver uma caneta não há conhecimento nem volição, mas uma só realidade, e quando surgem associações o centro da consciência se desloca e, objetivada a consciência original, esta se torna meramente intelectual; já a ideia associada de que a caneta serve para escrever cartas é conhecimento enquanto permanece como franja da consciência original, mas torna-se desejo quando passa a sustentar-se por si e atrai o centro da consciência, sendo vontade, e ao mesmo tempo verdadeiro conhecer, quando se torna realidade cada vez mais independente.

21. Todo estado em que o sistema da consciência se desenvolve atualmente é atividade da vontade, inclusive no pensamento, quando a atenção se concentra num problema e busca solução, ao passo que no beber chá ou saquê a mera atualidade do ato é vontade e o surgimento central de uma consciência que procura degustar o sabor é conhecimento, sendo, porém, essa própria consciência degustadora vontade; a vontade é o sistema mais fundamental da consciência, seu centro de unidade, e a distinção entre conhecimento e volição não está no conteúdo, mas no lugar que ocupam no sistema.

22. Razão e desejo, aparentemente opostos, têm a mesma natureza e diferem apenas em amplitude e profundidade, pois as exigências da razão são exigências de uma unidade maior, do sistema universal da consciência que transcende o indivíduo, manifestação de uma grande vontade transindividual; sendo o indivíduo apenas um pequeno sistema dentro da consciência, se se toma como centro não o pequeno sistema nucleado no corpo, mas o grande sistema da consciência, este é o eu e seu desenvolvimento a realização de sua vontade, como se vê em religiosos, estudiosos e artistas.

23. As leis da razão, que dizem “Tem de ser assim”, e a tendência da vontade, que diz apenas “Quero que seja assim”, parecem inteiramente diversas, mas partilham o mesmo fundamento, pois a atividade unificadora da vontade opera na base de toda razão e de toda lei, e, como sustentaram Schiller e outros, até os axiomas nasceram de necessidades práticas, não diferindo em origem das esperanças; a tendência da vontade, embora pareça alheia às leis, rege-se por leis necessárias e é a unidade de uma consciência individual, sendo razão e vontade leis do desenvolvimento do sistema da consciência que diferem apenas no alcance de sua eficácia.

24. A distinção entre vontade e razão fundada na cegueira da vontade não se sustenta, pois tampouco se podem explicar um fato direto ou os princípios intuitivos na base da razão, já que explicar é incluir outras coisas num sistema único, e aquilo que é o próprio núcleo de uma unidade é inexplicável e, nesse sentido, cego.

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