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13 Espírito

NISHIDA, Kitarō. An inquiry into the Good. Tradução: Masao Abe. New Haven, Conn.: Yale Univ. Press, 1992.

1. A natureza, que à primeira vista parece realidade puramente objetiva e independente do espírito (seishin), não está separada da subjetividade, pois, vistos sob seu aspecto subjetivo, isto é, a atividade unificadora, os chamados fenômenos naturais são todos fenômenos de consciência, como uma pedra, que só se torna natureza se suposta produzida por uma realidade incognoscível independente da subjetividade, mas que, vista como fato da experiência direta, é união de sensações visuais, táteis e outras, estabelecida pela unidade da consciência, perspectiva da qual deriva a tese idealista de que o mundo é representação.

2. A crença de que todos têm a mesma ideia de uma mesma pedra é ilusória, pois as ideias diferem conforme o caráter e a experiência de cada um, de modo que a realidade concreta é inteiramente subjetiva e individual, e a chamada realidade objetiva desaparece como mero conceito abstrato partilhado por todos.

3. O que se chama espírito em oposição à natureza, os chamados fenômenos mentais, é apenas o aspecto unificador ou ativo da realidade considerado abstratamente, pois na realidade verdadeira não há distinção entre subjetivo e objetivo nem entre espírito e matéria, mas o estabelecimento da realidade requer uma atividade unificadora que, vista em abstrato e oposta aos objetos unificados, aparece como fenômeno mental.

  • Uma sensação presente não é independente de todas as demais coisas, mas se estabelece em oposição a outra, comparada e distinguida dela, e essa atividade de comparação e distinção, a atividade unificadora, é o espírito.
  • Com o desenvolvimento dessa atividade, a distinção entre espírito e matéria torna-se cada vez mais clara.
  • Na infância o espírito é natural e a atividade subjetiva fraca, mas com a maturidade a atividade unificadora floresce e alcança-se a consciência do próprio espírito como distinto da natureza objetiva.

4. Por isso o espírito é comumente tido como realidade independente distinta da natureza objetiva, mas, assim como a natureza puramente objetiva separada da unidade subjetiva do espírito é conceito abstrato, também o espírito puramente subjetivo separado da natureza objetiva o é, havendo sempre algo unificado e uma atividade que unifica, de modo que, mesmo supondo uma essência espiritual que sente a atividade das coisas, há uma coisa que atua e uma mente que a sente, sendo incognoscível tanto o espírito que não atua quanto as coisas que não atuam.

5. A atividade unificadora da realidade distingue-se de seu conteúdo e surge como realidade independente em razão das contradições e conflitos entre as diversas unidades da realidade, pois quando esses sistemas se chocam e se contradizem aparecem claramente na consciência, havendo espírito onde há conflitos e contradições e conflitos e contradições onde há espírito, como na ação volitiva, em que, sem conflito entre motivos, não há consciência e se aproxima a chamada natureza objetiva, ao passo que, quanto mais nítido o conflito, mais clara a consciência da vontade e da própria mente (kokoro).

6. Os conflitos e contradições de um sistema provêm do próprio caráter da realidade, que é ao mesmo tempo conflito infinito e unidade infinita, sendo o conflito aspecto indispensável da unidade, pelo qual se avança a uma unidade maior, e o espírito, atividade unificadora da realidade, toma consciência de si não quando a unidade funciona, mas quando há conflito.

7. Quem amadureceu numa arte, alcançando a unidade da realidade, está inconsciente e não conhece a própria unidade, mas ao buscar maior profundidade surgem conflitos com o já alcançado e a consciência renasce, pois nasce sempre de tais conflitos, o que se compreende pelo fato de o espírito ser acompanhado de ideais, que significam contradição e conflito com a realidade, de modo que, surgindo o espírito pelo conflito, há sempre nele sofrimento, e a tese pessimista de que o mundo é marcado pelo sofrimento contém algo de verdade.

8. Sendo o espírito a atividade unificadora da realidade, há unidade e, portanto, espírito em todas as coisas, e, em sentido estrito, o espírito percorre toda a realidade, havendo também na natureza um eu unificador idêntico ao espírito humano, embora só no espírito a realidade se torne perfeita, independente e autorrealizada.

  • Uma árvore, como fenômeno de consciência, é comumente tida por realidade objetiva produzida por forças naturais, mas, vista como sistema de fenômenos de consciência, estabelece-se pela atividade unificadora da consciência.
  • Nos chamados seres não vivos, o eu unificador ainda não apareceu como fato da experiência direta, pois a árvore não tem consciência de sua atividade unificadora, que se encontra na consciência de outro, sendo unificada de fora e não internamente e, por isso, ainda não realidade independente e autorrealizada.
  • Nos animais, ao contrário, uma unidade interna ou eu exprime-se na realidade, e todos os seus fenômenos, como forma e comportamento, são expressão dessa unidade interna.
  • Toda realidade se estabelece pela unidade, mas no espírito a unidade surge como fato claro.

9. Nas coisas sem espírito, a unidade é dada de fora e não é unidade interna de um eu, variando conforme o observador, como a árvore, que aos olhos do químico é composto orgânico de elementos químicos, podendo-se dizer que não há realidade separada chamada árvore, ao passo que o espírito dos animais não pode ser visto assim, pois, embora seu corpo possa ser tratado como composto, o espírito não muda conforme o observador e, qualquer que seja a interpretação, exprime verdadeiramente uma unidade imóvel.

10. A teoria moderna da evolução, segundo a qual se avança da matéria inorgânica às plantas, aos animais e por fim ao ser humano, indica que a realidade exprime gradualmente sua essência oculta como atualidade, aparecendo apenas no desenvolvimento do espírito o caráter fundamental do estabelecimento da realidade, pois, como disse Leibniz, evolução é involução.

11. O eu, como unificador do espírito, é a atividade unificadora fundamental da realidade, expressão de sua força unificadora e força eterna e imutável, razão pela qual é sentido como sempre criativo, livre e infinitamente ativo.

  • Certa escola psicológica reduz o eu a uma união de ideias e sentimentos, fora da qual nada haveria, mas essa visão negligencia o lado da unidade e considera o eu apenas pelas distinções analíticas.
  • A análise não encontra atividade unificadora, mas não deve levar a desconsiderá-la, pois as coisas se estabelecem por uma unidade, e ideias e sentimentos tornam-se realidade concreta pela força de um eu unificador.

12. O que se sente, pela reflexão interior, como uma espécie de sentimento que seria o eu não é o verdadeiro eu, pois não pode agir, e só quando a unidade da realidade atua interiormente se sente que se governa a realidade segundo os próprios ideais e que o eu exerce atividade livre, sentindo-se o eu, por ser infinita a atividade unificadora da realidade, infinito e envolvendo o universo.

13. A atividade unificadora da realidade poderia parecer, do ponto de vista da experiência pura, mera ideia abstrata e não fato da experiência direta, mas os fatos da experiência direta não são ideias nem sentimentos, e sim a atividade da vontade, sendo a atividade unificadora elemento indispensável dessa experiência.

14. O espírito, tido comumente como função unificadora da realidade e realidade especial diante da natureza, não existe à parte dela, pois não há atividade unificadora sem o unificado nem espírito subjetivo sem natureza objetiva, e conhecer algo significa que o eu se une a ele.

  • Ao ver uma flor, o eu tornou-se a flor, e investigá-la e esclarecer sua natureza fundamental é descartar todas as conjecturas subjetivas do eu e unir-se a essa natureza.
  • A razão não é fantasia subjetiva, mas algo comum a todos e princípio fundamental pelo qual se estabelece a realidade objetiva.
  • A verdade indiscutível alcança-se descartando constantemente o eu subjetivo e tornando-se objetivo, e o aprofundamento do conhecimento significa união com a natureza objetiva.

15. O mesmo vale para a vontade, que, puramente subjetiva, nada pode e só se realiza em acordo com a natureza objetiva, pois mover a água é seguir sua natureza, governar pessoas é seguir a natureza delas e governar-se é seguir a própria natureza, sendo as vontades eficazes na medida em que se tornam objetivas, como Sakyamuni e Cristo, que ainda movem as pessoas milênios após a morte porque seu espírito foi verdadeiramente objetivo, sendo os maiores aqueles sem eu, que extinguiram o eu.

16. A distinção entre fenômenos mentais internos e materiais externos nasce da suposição arbitrária de que o espírito está no corpo, mas, do ponto de vista da experiência direta, tudo é fenômeno de consciência, sem distinção entre interno e externo, sendo o chamado espírito interno e subjetivo um espírito superficial e débil, fantasia individual, enquanto o espírito grande e profundo é a atividade do universo unida à sua verdade, que acompanha por si a atividade do mundo externo e nada faz senão agir, como na inspiração do artista.

17. A alegria e o sofrimento da mente humana decorrem de o espírito estar num estado de completude e unidade, que produz prazer, ou num estado incompleto e de desunião, que produz dor, de modo que a mente não alcança prazer absoluto, mas pode manter felicidade infinita quando, pelo esforço, se torna objetiva e se une à natureza.

  • Sendo o espírito atividade unificadora da realidade, contradições e conflitos acompanham necessariamente sua unidade, e sempre que ocorrem há dor.
  • A atividade unificadora infinita busca imediatamente superá-los e alcançar unidade maior, fazendo surgir desejos e ideais, cuja satisfação, com a conquista dessa unidade, produz prazer.
  • Assim, um aspecto do prazer inclui necessariamente dor, e um aspecto da dor é necessariamente acompanhado de prazer.

18. A tese dos psicólogos de que o prazer é o que favorece a vida e a dor o que a impede equivale, sendo a vida o desenvolvimento da natureza fundamental dos seres vivos, isto é, a manutenção da unidade do eu, a dizer que o prazer é o que sustenta a unidade e a dor o que a obstrui.

19. Sendo o espírito a atividade unificadora da realidade e unindo-se o grande espírito à natureza, experimenta-se muito sofrimento quando se toma o pequeno eu como o próprio eu, e felicidade quando o eu se amplia e se une à natureza objetiva.

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