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12 Natureza

NISHIDA, Kitarō. An inquiry into the Good. Tradução: Masao Abe. New Haven, Conn.: Yale Univ. Press, 1992.

1. Embora haja uma só realidade, ela aparece sob formas diversas conforme os modos de considerá-la, e a natureza concebida como realidade objetiva inteiramente independente da subjetividade é conceito abstrato e não verdadeira realidade, pois seu aspecto numênico é o fato da experiência direta em que sujeito e objeto ainda não se separaram.

  • A erva e as árvores verdadeiras são as de cor e formas vivas, fatos intuitivos.
  • Só ao separar a atividade subjetiva da realidade concreta se pode pensá-las como natureza puramente objetiva.
  • Levado ao extremo, esse modo de pensar produz a ideia de natureza em sentido estrito dos cientistas, a mais abstrata e mais distante do verdadeiro estado da realidade.

2. O que habitualmente se chama natureza é o que resta da realidade concreta depois de removido o aspecto subjetivo, a atividade unificadora, razão pela qual não há eu na natureza, movida apenas de fora segundo a lei da necessidade e incapaz de agir espontaneamente de dentro, sendo a ligação dos fenômenos naturais não uma unidade interna, como nos fenômenos mentais, mas ligação acidental no tempo e no espaço, e as leis naturais, obtidas por indução, meras suposições de que, sucedendo-se invariavelmente dois fenômenos, um é causa do outro, explicação que o avanço das ciências apenas torna mais detalhada e abrangente, sem aprofundá-la.

3. A tendência atual da ciência de tornar-se o mais objetiva possível leva a explicar os fenômenos psicológicos pela fisiologia, os fisiológicos pela química, os químicos pela física e os físicos pela mecânica, mas a matéria pura que fundamenta essa perspectiva mecânica é conceito completamente abstrato.

  • A matéria pura é realidade que não se pode sequer começar a experimentar, e, se fosse experimentada, teria de surgir como fenômeno de consciência, que é subjetivo e não matéria puramente objetiva.
  • A matéria pura não tem qualidades positivas apreensíveis, possuindo apenas características quantitativas como o movimento espacial e temporal, à semelhança de um conceito matemático.

4. A matéria é concebida como algo que preenche o espaço e pode ser percebido diretamente, mas a extensão concretamente pensável das coisas é apenas fenômeno consciente do tato e da visão, e o que parece grande à sensação não consiste necessariamente em grande quantidade de matéria, pois esta é determinada na física pela quantidade de energia, inferida de relações funcionais entre coisas físicas, e nunca é fato intuitivo.

5. Concebida em termos puramente materiais, a natureza não admite distinção entre animais, plantas e vida em geral, reduzindo-se à atividade de uma energia mecânica em toda parte idêntica, na qual os fenômenos naturais perdem todas as características e significados próprios e o ser humano não difere de um torrão de terra.

6. A natureza real efetivamente experimentada nunca é tal conceito abstrato nem mera atividade de energia mecânica uniforme, pois animais são animais, plantas são plantas e metais são metais, cada qual fato concreto com características e significado próprios, e montanhas, rios, ervas, árvores, insetos, peixes, aves e feras têm individualidade própria, podendo ser explicados de vários pontos de vista, sem que a natureza como fatos intuitivos diretamente dados possa ser minimamente alterada.

7. A ideia de que a natureza puramente mecânica é a verdadeira realidade objetiva e a natureza concreta da experiência direta um fenômeno subjetivo deriva da suposição de que todos os fenômenos de consciência são fenômenos subjetivos do eu, mas, não sendo possível pôr uma realidade à parte desses fenômenos, se algo é subjetivo por relacionar-se com eles, também a natureza mecânica o é, já que tempo, espaço e movimento não podem ser pensados fora da consciência, sendo objetivos apenas relativamente e não absolutamente.

8. A natureza como realidade verdadeiramente concreta não vem a ser sem atividade unificadora, possuindo também ela uma espécie de eu, que se torna mais claro à medida que se passa dos cristais inorgânicos aos organismos, surgindo o verdadeiro eu apenas no espírito.

  • As formas, variações e movimentos de uma planta ou animal não são meras uniões ou movimentos mecânicos de matéria insignificante, mas, por sua relação inseparável com o todo, expressões do desenvolvimento de um eu unificador.
  • Patas, pernas, nariz, boca e demais partes de um animal relacionam-se estreitamente com o fim da sobrevivência, e fora disso seu significado é incompreensível.
  • A explicação dos fenômenos vegetais e animais exige pôr a força unificadora da natureza, e os biólogos explicam os fenômenos vitais pelos instintos de vida.
  • Essa atividade unificadora existe em certa medida até nos cristais inorgânicos, tendo todo mineral uma forma cristalina particular.

9. A explicação estritamente mecânica da ciência atual tem de explicar o desenvolvimento teleológico dos organismos pelas leis da física e da química, tomando-o como resultado acidental, e, por desconsiderar amplamente os fatos, recorre à suposição de uma força potencial presente em ovos e sementes que gera os respectivos organismos, força que corresponde à força unificadora da natureza.

10. Admitir na explicação da natureza uma força unificadora distinta da energia mecânica não gera conflito, mas complementaridade rumo a uma explicação completa, como numa estátua de bronze, cujo material obedece a leis físicas e químicas, sem que a estátua seja mero bloco de bronze, pois é obra de arte que exprime ideais e surgiu por sua força unificadora, pertencendo a atividade unificadora dos ideais e as leis que regem o material a esferas diversas que de modo algum se chocam.

11. Somente com um eu unificador a natureza tem finalidade, adquire significado e se torna natureza verdadeiramente viva, e a força unificadora que é sua vida não é conceito abstrato criado artificialmente pelo pensamento, mas fato que aparece na intuição, como ao ver a flor predileta ou o animal de estimação, em que se apreende imediatamente no todo uma realidade unificadora, o eu da coisa, sua natureza fundamental ou númeno, intuição em que os artistas mais se destacam, discernindo de relance a verdade da coisa e exprimindo não um fato superficial, mas a realidade numênica imutável oculta no fundo das coisas.

12. Goethe dedicou-se ao estudo dos seres vivos e antecipou a atual teoria da evolução, sustentando haver por trás dos fenômenos naturais um fenômeno originário (Urphänomen) intuído pelos poetas, do qual as diversas plantas e animais são variações da planta e do animal originários, refletindo todos um padrão fixo e imutável, razão pela qual todos os seres vivos teriam evoluído.

13. O eu unificador por trás da natureza, tido por incognoscível por se considerarem os fenômenos naturais puramente objetivos e alheios à subjetividade, não é entidade desconhecida sem relação com a consciência, mas a própria atividade unificadora da consciência, já que na verdadeira realidade subjetividade e objetividade não se separam e a natureza efetiva é fato concreto de consciência que inclui sujeito e objeto.

  • A compreensão do significado e da finalidade (telos) da natureza torna-se possível pela unificação subjetiva dos ideais, sentimentos e volições do eu.
  • O significado fundamental dos órgãos e comportamentos animais é intuído diretamente pelo sentimento e pela vontade, sem os quais seria incompreensível.
  • Quanto mais profundos e amplos os ideais, sentimentos e volições, mais se compreende o verdadeiro significado da natureza.
  • A unidade subjetiva e a força unificadora objetiva da natureza são originariamente idênticas: vista objetivamente, é a força unificadora da natureza, e subjetivamente, a unidade de conhecimento, sentimento e volição do eu.

14. A força material, que alguns julgam inteiramente alheia à unidade subjetiva, é talvez a mais insignificante das unidades, mas não existe à parte dela, pois a crença numa força na matéria que executa diversas funções provém de considerar objetivamente a atividade volitiva do eu.

15. A ideia de que inferir o significado da natureza a partir dos ideais, sentimentos ou volições do eu é mera analogia e não verdade firme nasce de pensar subjetividade e objetividade como independentes e de tomar mente e natureza como duas espécies de realidade, quando, do ponto de vista da experiência pura, ambas são idênticas.

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