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0 Prefácio

NISHIDA, Kitarō. An inquiry into the Good. Tradução: Masao Abe. New Haven, Conn.: Yale Univ. Press, 1992.

1. Escrevi este livro durante meus anos de ensino na Quarta Escola Secundária Nacional em Kanazawa, e a princípio pretendia desenvolver minhas ideias na seção sobre a realidade e então publicar o que havia escrito, mas impedido por doença e outras circunstâncias, falhei em alcançar este objetivo, e nos anos seguintes meu pensamento mudou um pouco e comecei a sentir a dificuldade de fazer o que inicialmente pretendia, decidindo naquele ponto publicar este livro tal como estava.

  • Escrevi as partes II e III primeiro e depois adicionei as partes I e IV.
  • A Parte I esclarece a natureza da experiência pura, que é a fundação de meu pensamento, mas aqueles que estão lendo o livro pela primeira vez devem deixar esta seção para depois.
  • Expus meu pensamento filosófico na parte II, a seção central do livro.
  • Escrevi a parte III com o objetivo de expor o bem com base nas ideias apresentadas na parte II, mas pode-se considerá-la uma ética independente.
  • A Parte IV consiste em minhas ideias sobre religião, que de minha perspectiva constitui a consumação da filosofia.
  • Escrevi esta parte do livro enquanto doente, então há numerosas passagens rudes; ainda assim consegui chegar ao fim do que havia me proposto discutir.
  • Entitulei o livro Uma Investigação sobre o Bem porque senti que, embora a investigação filosófica constitua a primeira metade, o problema da vida humana é a preocupação central que percorre todo o livro.
  • Renderizamos o título original, Zen no kenkyō, como Uma Investigação sobre o Bem em vez de usar a renderização comum, Um Estudo do Bem; para Nishida este livro não era um mero estudo teórico do bem mas, antes, como ele mesmo afirma nas próximas frases do Prefácio, uma investigação mais prática e existencial do bem como um grande problema da existência humana.
  • Ernst Mach (1836-1916) foi um físico e filósofo austríaco que estava conectado com o Círculo de Viena de positivistas lógicos; em sua Análise das Sensações, Mach argumenta que a psicologia e a filosofia devem ser baseadas em sensações, e ao se mover em direção a uma abordagem científica e objetiva dos fenômenos mentais, Mach se afastou das doutrinas anteriores da alma e dos sistemas de metafísica. Ver R. S. Peters, ed., Brett's History of Psychology (Londres: George Allen & Unwin, 1953), 488-490.
  • Solipsismo (latim solus, sozinho, e ipse, self) é a teoria de que o self pode conhecer apenas sua própria experiência, que não necessariamente reflete o modo como as coisas são objetivamente (solipsismo epistemológico), ou que o self é a única coisa existente (solipsismo metafísico); historiadores da filosofia frequentemente consideram George Berkeley (1684-1751) e Johann Gottlieb Fichte (1762-1814) como avançando tipos de solipsismo.
  • Nishida está se referindo ao idealismo alemão, que inclui Fichte, Friedrich Wilhelm Joseph Schelling (1775-1854) e Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831).

2. Por muitos anos quis explicar todas as coisas com base na experiência pura como a única realidade, e a princípio li pensadores como Ernst Mach, mas isto não me satisfez.

  • Ao longo do tempo percebi que não é que a experiência existe porque há um indivíduo, mas que um indivíduo existe porque há experiência.
  • Assim cheguei à ideia de que a experiência é mais fundamental que as diferenças individuais, e deste modo pude evitar o solipsismo.
  • Além disso, ao considerar a experiência como ativa, senti que podia harmonizar meu pensamento com a filosofia transcendental começando por Fichte.
  • Eventualmente escrevi o que se tornou a parte II deste livro e, como disse, certas seções ainda estão incompletas.

3. Aqueles que especulam poderiam ser ridicularizados por Mefistófeles como sendo como animais que se alimentam de capim seco enquanto estão num campo luxuriante e verde, e um filósofo (Hegel) disse que estava condenado a pensar sobre a verdade filosófica, e de fato, para alguém que comeu do fruto proibido, tal angústia é inescapável.

  • Kyoto, janeiro de 1911.

PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO

1. Publiquei este livro pela primeira vez há mais de dez anos, vários anos depois de escrevê-lo, e após me mudar para Kyoto, pude me concentrar na leitura e reflexão, o que me permitiu refinar e enriquecer meu pensamento.

  • Fiquei insatisfeito com este livro e até considerei tirá-lo de circulação.
  • Mais tarde, no entanto, várias pessoas me pediram para reimprimi-lo.
  • Sentindo que precisaria de vários anos para expor uma declaração atualizada e abrangente de meu pensamento, decidi imprimir este livro mais uma vez.
  • Estou profundamente em dívida com os Professores Mutai e Sera, que assumiram o fardo de corrigir e editar o texto para esta edição.
  • Janeiro de 1921.

AO REAJUSTAR O TIPO

1. Com numerosas reimpressões deste livro, certas letras vieram a perder sua clareza, então o editor agora reajustou o tipo.

  • Este livro, no qual organizei minhas ideias até certo ponto, é minha obra publicada mais antiga e consiste em ideias de meus dias mais jovens.
  • Neste ponto eu gostaria de revisar várias seções, mas como os pensamentos de alguém têm uma integridade viva em cada ponto no tempo, não posso mudar o livro agora, décadas depois de escrevê-lo, não tendo outra escolha senão deixá-lo como está.

2. Como o vejo agora, o ponto de vista deste livro é o da consciência, que poderia ser pensado como uma espécie de psicologismo.

  • No entanto, mesmo que as pessoas o critiquem como sendo demasiado psicológico, há pouco que posso fazer agora.
  • Eu penso, no entanto, que o que jazia profundo em meu pensamento quando o escrevi não era algo que é meramente psicológico.
  • Em Intuição e Reflexão na Autoconsciência, através da mediação do Tathandlung de Fichte, desenvolvi o ponto de vista da experiência pura no ponto de vista da vontade absoluta.
  • Então, na segunda metade de Do Ator ao Vidente, através da mediação da filosofia grega, desenvolvi-o ainda mais, desta vez na ideia de lugar.
  • Deste modo comecei a estabelecer uma base lógica para minhas ideias.
  • Em seguida concretizei a ideia de lugar como um universal dialético.
  • Intuição e Reflexão na Autoconsciência (1917) é a segunda grande obra de Nishida, na qual, seguindo sua discussão da realidade e do bem do ponto de vista da experiência pura em Uma Investigação sobre o Bem, ele tenta esclarecer, do ponto de vista da autoconsciência, a relação entre intuição e reflexão e a conexão de ser e valor, fato e significado; em seu prefácio à tradução inglesa de 1987 do texto, Joseph S. O'Leary escreve que ele crônica a busca ávida de Nishida por uma fundamentação mais sofisticada da experiência imediata numa explicação da autoconsciência vagamente inspirada por Fichte, bem como seu prolongado confronto com os filósofos neokantianos Cohen, Natorp, Rickert e Windelband, então no zênite de sua fama, mas agora, apesar do interesse revivescente de alguns historiadores, esquecidos (p. x).
  • Ao desenvolver o idealismo de Kant com sua visão da coisa-em-si e do sujeito cognitivo como dualistas, Fichte enfatizou o Tathandlung (ato) como o princípio da unidade de cognição e realidade, pensamento e ação; especificamente, na Wissenschaftslehre (Doutrina da ciência) de Fichte, Tathandlung se refere à atividade do ego transcendental que se põe ou afirma a si mesmo, então se limita pondo o não-ego, e finalmente põe o ego, o sujeito epistemológico que se opõe a seu objeto (o não-ego), e nesta dialética o ato existe antes do dualismo sujeito-objeto e constitui a base da consciência.
  • Do Ator ao Vidente (1927) representa uma mudança significativa no desenvolvimento do pensamento de Nishida; nesta obra ele se move de seu voluntarismo anterior à la Fichte para um intuicionismo, inspirado por Plotino; em Intuição e Reflexão na Autoconsciência Nishida havia considerado a intuição a base da vontade, e porque seu interesse ia além da epistemologia para um foco primário no problema da realidade última, ele rejeitou o idealismo subjetivista moderno e se moveu para a intuição nas profundezas da autoconsciência, para o ver sem vidente, que ele desenvolve como o lugar do nada absoluto.
  • Com suas noções de lugar (basho) e lógica do lugar, Nishida elabora uma base lógica para a intuição exposta em Do Ator ao Vidente; sua mudança do voluntarismo para um intuicionismo envolve uma mudança paralela da experiência existencial para a lógica, portanto, para Nishida, o lugar não é apenas metafísico mas também lógico; como expressão para o nada absoluto, o lugar envolve tanto a Ideia de Hegel quanto o indivíduo concreto em toda sua irracionalidade, isto é, a substância de Aristóteles como o sujeito que não pode se tornar predicado.
  • Nishida desenvolve a noção de universal dialético em Os Problemas Fundamentais da Filosofia, vol. II (1934), no qual ele afirma que o universal tem três dimensões diferentes: o universal judicativo (o reino da natureza), o universal autoconsciente (o reino da consciência) e o universal intelectual (o reino do intelecto).

3. E deu àquele ponto de vista uma expressão direta em termos de intuição-ação.

  • O que chamei no presente livro de mundo da experiência direta ou pura agora passei a pensar como o mundo da realidade histórica.
  • O mundo da intuição-ação, o mundo da poiesis, não é outro que o mundo da experiência pura.
  • O reino do intelecto é, em termos concretos, o reino da cultura e do mundo sociohistórico pelo qual entramos no universal dialético através da ação.
  • Intuição-ação (kōiteki-chōkkan) aparece nos escritos posteriores de Nishida, incluindo A Lógica do Topos e a Visão Religiosa do Mundo; por este termo ele indica que a intuição não é um estado passivo mas uma atividade formativa como vista em grandes artistas; vemos, conhecemos e trabalhamos através do corpo no mundo; nossa autoformação é a autoformação do mundo; no corpo, ver e trabalhar, ou intuição e ação, são idênticos através da contradição.

4. Gustav Fechner disse que uma manhã, enquanto relaxava numa cadeira no Rosenthal em Leipzig, contemplou à luz brilhante do sol um prado de primavera com flores fragrantes, pássaros cantando e borboletas esvoaçantes, e ficou absorto no que chamou de perspectiva do dia, na qual a verdade são as coisas tal como elas são, em oposição à perspectiva incolor e silenciosa da noite encontrada nas ciências naturais.

  • Não sei o que me influenciou, mas desde há muito tempo tenho a ideia de que a verdadeira realidade deve ser a atualidade tal como ela é e que o assim chamado mundo material é algo conceitualizado e abstraído dela.
  • Ainda me lembro de um tempo no ensino médio quando caminhava pelas ruas de Kanazawa absorto nesta ideia como se estivesse sonhando.
  • De fato, minhas ideias daquele tempo constituem a fundação deste livro.
  • Gustav Theodor Fechner (1801-1887), um filósofo e psicólogo alemão, expressou esta ideia em Die Tagesansicht gegenüber der Nachtansicht (A visão diurna em oposição à visão noturna); ele tentou integrar a Naturphilosophie de Hegel na psicologia experimental; em obras como Elemente der Psychophysik, ele avançou a psicofísica, uma teoria da correspondência de eventos mentais e físicos; Erwin A. Esper, A History of Psychology (Filadélfia: W. B. Saunders, 1964), 235-236.

5. Quando mais tarde escrevi este livro, não tinha ideia de que seria lido por tanto tempo por tantas pessoas, ou que viveria o suficiente para ver numerosas edições dele.

  • Não posso deixar de me sentir como Saigyo: nunca pensei que cruzaria o Monte Nakayama novamente; no entanto, envelhecendo, vivo o suficiente para fazê-lo esta noite.
  • Saigyo (1118-1190), um monge budista e poeta renomado, era originalmente um guerreiro da corte com o nome secular Satō Norikiyo; aos vinte e três anos renunciou a seu cargo na corte e se tornou um monge itinerante, viajando por todo o Japão, compondo poesia e dando palestras; seus poemas foram compilados no volume Sankashū por volta de 1179, e um suplemento foi compilado mais tarde.
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