8 Linguagem e silêncio
MARTÍN MORILLAS, Antonio Miguel. La nada en el segundo Heidegger y el vacío en oriente hermenéutica constrastativa. Granada: Editorial de la Universidad de Granada, 2007.
A palavra e o silêncio em Heidegger e no Oriente
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A linguagem originária se vincula ao silêncio porque a palavra capaz de manifestar a verdade nasce de uma escuta anterior à formulação de conceitos. Em Heidegger, essa escuta se dirige ao acontecimento apropriador; no taoismo e no budismo mahayana, a palavra do sábio procura corresponder ao Tao ou ao Dharma, cuja realidade última não se deixa encerrar em nomes.
8.1. A linguagem e o silêncio no segundo Heidegger
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Em Ser e tempo, a escuta e o silêncio pertencem à possibilidade de uma fala autêntica, capaz de responder à consciência e ao outro, em contraste com o falatório impessoal. Após a virada, a questão da linguagem passa a ser pensada a partir do próprio ser e do acontecimento apropriador.
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O silêncio possui duas dimensões inseparáveis: o homem precisa calar para acolher o chamado do ser, enquanto o próprio acontecimento fala originariamente na quietude. A poesia e o pensamento podem trazer à palavra algo desse chamado sem esgotá-lo.
8.1.1. Da linguagem como transcendental do ser à fala do acontecimento apropriador
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A linguagem deixa de ser compreendida apenas como uma capacidade constitutiva do ser-aí e passa a ser pensada como o âmbito em que o ser se concede ao homem. A fala humana autêntica depende, assim, de uma manifestação mais originária que ocorre silenciosamente no acontecimento apropriador.
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Escutar essa fala exige ultrapassar o uso da linguagem como instrumento de informação e domínio, pois as palavras podem corresponder à abertura do ser somente quando permanecem atentas àquilo que se retira em toda manifestação.
8.1.1.1. A linguagem como “casa do ser”
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O ser toma a iniciativa na relação com o homem e se oferece ao pensamento por meio da linguagem; por isso, a linguagem é a morada em que o homem pode habitar a proximidade do ser, e não uma ferramenta produzida livremente por um sujeito autossuficiente.
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Pensar leva a cumprimento uma relação que não criou: acolhe a manifestação do ser e procura preservá-la na palavra, enquanto pensadores e poetas guardam essa morada contra a redução da linguagem à comunicação utilitária.
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Quando a palavra se ocupa exclusivamente de representar e controlar os entes, a verdade do ser permanece esquecida; recuperar sua abertura requer um dizer capaz de deixar aparecer o que se mostra e de resguardar o que ainda se oculta.
8.1.1.2. Linguagem e acontecimento apropriador
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A essência da linguagem não se esclarece pela simples análise de formas gramaticais ou pela investigação dos vocábulos como objetos; ela se manifesta no dizer originário que abre um mundo e deixa os entes virem à presença.
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O acontecimento apropriador concede ao homem a possibilidade de falar ao trazê-lo para uma relação de pertença com o ser. A palavra humana recebe dessa relação seu poder de mostrar, embora jamais possa tornar inteiramente disponível a fonte de sua doação.
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O dizer originário reúne manifestação e retraimento: aquilo que chega à palavra ganha figura histórica, enquanto o acontecimento que possibilitou sua vinda permanece reservado. A fala adequada guarda essa diferença em vez de suprimi-la por definições conclusivas.
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A linguagem se realiza como resposta e correspondência a um chamado anterior; seu exercício mais próprio requer escuta, espera e disposição para que o não dito possa orientar aquilo que efetivamente se diz.
8.1.2. A linguagem como criação poética
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A poesia revela de modo privilegiado a dimensão criadora da linguagem, pois nela a palavra abre possibilidades de mundo e acolhe a verdade do ser sem reduzir sua manifestação a uma descrição de objetos.
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O silêncio permanece no centro dessa criação: o poeta não fabrica a abertura que torna a obra possível, mas responde ao que nela pede para ser trazido à palavra.
8.1.2.1. A poesia como linguagem originária
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A obra de arte faz acontecer a verdade ao instaurar uma abertura na qual os entes podem mostrar-se de outra maneira. Essa manifestação se conquista numa tensão persistente entre o mundo que se abre e a terra que se resguarda.
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A poesia é originária porque nomeia e, ao nomear, permite que algo entre pela primeira vez num horizonte de sentido compartilhado; sua força não reside em ornamentar uma realidade já inteiramente conhecida.
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Toda criação artística participa de uma dimensão poética quando transforma a relação humana com o que aparece, preservando na obra tanto a claridade do descoberto quanto a resistência do que não se deixa revelar por completo.
8.1.2.2. A obra poética e a função do poeta
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Numa época marcada pelo afastamento do sagrado e pela expansão da racionalidade técnica, a palavra poética mantém aberta a possibilidade de perceber sinais que o trato calculador com os entes não alcança.
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O poeta recebe e transmite uma experiência histórica que excede sua iniciativa individual: ao nomear o que se aproxima e ao preservar os vestígios do que se retirou, oferece a um povo novas possibilidades de habitar o mundo.
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A obra poética não elimina a indigência de seu tempo por decisão voluntária; ela a suporta e lhe dá expressão, preparando uma morada verbal na qual uma transformação histórica possa encontrar acolhimento.
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Habitar poeticamente significa permanecer exposto à proximidade das coisas, à distância do divino e ao mistério de seu encontro, sem transformar essa relação em objeto de posse.
8.1.2.3. Poesia e pensamento essencial
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O pensador e o poeta se aproximam porque ambos recebem sua palavra de uma experiência do silêncio: o pensamento procura dizer o ser, enquanto a poesia nomeia aquilo que se manifesta sob seu chamado.
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A atenção comum à palavra exige rigor e cuidado, pois um dizer capaz de guardar a verdade precisa resistir tanto ao uso gasto dos vocábulos quanto à pretensão de expressar integralmente o indizível.
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Poesia e pensamento percorrem caminhos próprios, mas se encontram na tarefa de manter aberta a tensão entre o que chega à presença e o que nela continua oculto; dessa tensão depende sua capacidade de instaurar sentidos históricos.
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O dizer mais essencial não mede seu valor pela quantidade de informações comunicadas, mas pela possibilidade de conduzir o homem à escuta daquilo que sustenta e ultrapassa as palavras.
8.1.3. O silêncio, linguagem oculta do acontecimento apropriador
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O silêncio é a fonte do dizer originário porque o acontecimento se manifesta sem se converter numa voz audível ou num enunciado disponível. A palavra humana pode corresponder a ele quando nasce da escuta dessa quietude.
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O diálogo autêntico e a experiência poética tornam sensível essa relação: em ambos, falar supõe acolher uma interpelação e conservar espaço para aquilo que ainda não encontrou expressão.
8.1.3.1. Diálogo e silêncio
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O diálogo depende da capacidade de ouvir; a comunicação entre pessoas só adquire profundidade quando cada fala responde a uma abertura compartilhada, anterior à simples troca de proposições.
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Essa escuta também possui alcance histórico, pois a existência humana se forma no diálogo pelo qual recebe, transforma e transmite possibilidades de mundo.
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No encontro entre culturas, a compreensão exige suspender a imposição imediata dos próprios conceitos, de modo que a palavra do outro possa mostrar um sentido ainda não antecipado.
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Calar não equivale a interromper toda relação: pode constituir uma forma intensa de atenção, na qual se acolhe uma questão e se prepara uma resposta que ainda não se precipitou em palavras.
8.1.3.2. O silêncio como essenciar-se da fala originária
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Experimentar a fala requer deixar-se tocar por seu acontecimento, em vez de tratá-la somente como objeto de uma teoria ou como matéria para produzir sistemas de informação.
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A palavra poética torna perceptível essa experiência quando faz chegar ao dizer algo que permanecia não falado, sem apagar a distância entre o que pode ser nomeado e aquilo de que a nomeação provém.
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O silêncio do acontecimento não é simples falta de som: é a quietude a partir da qual o dizer reúne, convoca e deixa as coisas aparecerem em suas relações.
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A fala humana encontra sua medida ao retornar a essa fonte silenciosa; quanto mais procura corresponder ao originário, menos pode identificar sua própria voz com uma expressão definitiva da verdade.
8.2. A linguagem e o silêncio no Oriente
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O Tao engendra silenciosamente e o Dharma se manifesta no surgimento interdependente dos fenômenos; em ambos os casos, a realidade última excede os nomes pelos quais se procura indicá-la.
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As palavras podem orientar a existência e conduzir à compreensão, mas também podem fixar distinções ilusórias. A concentração, a escuta e o silêncio permitem reconhecer o limite dos conceitos sem dispensar todo uso da linguagem.
8.2.1. No taoismo chinês
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O Tao não possui nome que esgote sua realidade, pois antecede as formas determinadas às quais os nomes podem ser atribuídos. Seu movimento gerador é silencioso, embora as transformações do mundo deixem entrever sua ação.
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A linguagem cotidiana corre o risco de impor separações rígidas ao fluxo das coisas; quando as distinções verbais são tomadas como verdades absolutas, perde-se a experiência da unidade dinâmica do Tao.
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A escuta do grande som silencioso exige desprendimento do ego, quietude e sintonia com o curso espontâneo da existência. O sábio pode falar, mas sua palavra permanece consciente de que aponta para algo que não se deixa capturar.
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Narrativas, imagens, paradoxos e expressões poéticas deslocam os hábitos do pensamento discriminador. Sua função consiste em conduzir para além da fixação nas próprias palavras e favorecer uma experiência direta do Tao.
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O silêncio humano corresponde ao não agir (wu wei): ambos deixam espaço para que as coisas se desenvolvam segundo seu curso, sem que a vontade de dominar substitua a atenção ao que acontece.
8.2.2. No mahayana indo-chinês-japonês
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A palavra budista possui uma função orientadora, mas a verdade da vacuidade não pode ser convertida numa proposição sobre a essência fixa dos fenômenos. A escuta dos ensinamentos deve amadurecer numa compreensão que ultrapasse o apego às suas formulações.
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Sutras, argumentação filosófica e práticas zen fazem usos diferentes da linguagem, unidos pela exigência de que a palavra não se transforme num novo obstáculo à libertação.
8.2.2.1. Nos sutras “Prajña-paramita”
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A escuta dos sutras abre caminho para a sabedoria perfeita quando permite perceber que os signos e as designações não correspondem a entidades dotadas de existência própria.
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Os nomes são úteis na transmissão dos ensinamentos e na vida convencional, mas se tornam fonte de ilusão quando o pensamento se apega a eles como se revelassem a natureza última das coisas.
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A linguagem da vacuidade frequentemente nega aquilo que acabou de nomear para impedir a fixação de um eu, de um dharma ou da própria iluminação como objeto substancial.
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A sabedoria se realiza quando a palavra conduz à experiência do que está além da apropriação conceitual; nesse ponto, o silêncio não desmente o ensinamento, mas resguarda a verdade para a qual ele orienta.
8.2.2.2. Na “Mula-madhyamika-karika”
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A designação dos fenômenos pertence à verdade convencional: é possível falar coerentemente de causas, efeitos e acontecimentos sem lhes atribuir uma essência existente por si.
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A análise de Nagarjuna mostra que toda definição da natureza última fracassa quando transforma relações dependentes em propriedades inerentes. A vacuidade impede que a linguagem filosófica converta seus próprios conceitos em absolutos.
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O silêncio diante de afirmações últimas não exige abandonar a argumentação; ela é empregada para desfazer posições contraditórias e mostrar os limites daquilo que se pretende dizer sobre uma realidade independente.
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A palavra filosófica cumpre sua função libertadora quando conduz ao reconhecimento de que também suas distinções são convencionais, deixando de reclamar para si uma visão substantiva da verdade última.
8.2.2.3. Nos escritos do zen
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A transmissão do Dharma não depende da adesão literal às escrituras nem de definições da iluminação. Gestos, palavras, silêncio e ações cotidianas podem abrir uma compreensão que o raciocínio representativo, por si só, não alcança.
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A crítica zen ao culto da escrita e da recitação se dirige ao apego aos sinais: repetir ensinamentos sem transformar a maneira de experimentar a realidade conserva intacta a separação ilusória entre a mente e o mundo.
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Os ditos paradoxais e os koans interrompem respostas habituais para favorecer uma percepção direta da vacuidade e da mente original, embora seu efeito não possa ser reduzido a uma técnica de produção automática do despertar.
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O silêncio do mestre não indica falta de ensinamento, assim como sua palavra não pretende descrever exaustivamente o nirvana. Ambos podem corresponder à ocasião concreta e conduzir o discípulo para além da oposição fixa entre falar e calar.
8.3. Convergências no tratamento heideggeriano e oriental da linguagem e do silêncio
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A fala autêntica nasce de uma relação de pertença e escuta com o originário; sua força consiste em manifestar algo da verdade sem converter em objeto o acontecimento, o Tao ou o Dharma.
Linguagem autêntica
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A fala autêntica responde à abertura do ser e preserva sua dimensão oculta; de modo correspondente, a palavra do sábio taoista ou budista orienta para a verdade sem pretender substituí-la por uma formulação definitiva.
Linguagem inautêntica
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O falatório impessoal e a linguagem submetida ao cálculo afastam o homem da escuta do ser, assim como os nomes tomados por realidades independentes obscurecem o Tao e a vacuidade dos fenômenos.
Silêncio do ser e palavra do homem
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A palavra humana pode surgir como resposta a um chamado silencioso que a antecede: o acontecimento concede a abertura do dizer, enquanto o Tao e o Dharma se deixam reconhecer nas manifestações sem se reduzirem às palavras que os designam.
A morada da linguagem
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O homem habita a linguagem porque nela se configura sua relação com o mundo e com a verdade; a aproximação oriental situa essa morada numa pertença mais ampla ao Tao ou ao Dharma, cuja fecundidade não depende da iniciativa humana.
Pertença e escuta
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Escutar significa reconhecer que a palavra mais própria não começa na vontade de um sujeito isolado, mas numa relação prévia com aquilo que o interpela e exige uma resposta cuidadosa.
Silêncio e escuta
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O silêncio liberta a atenção das formulações apressadas e permite acolher o que permanece encoberto pelo ruído cotidiano; na meditação oriental, essa quietude também abre a percepção do curso do Tao ou da vacuidade dos fenômenos.
Interpelação do ser e correspondência do homem
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O chamado silencioso do ser convoca o homem a uma existência mais própria, enquanto a consciência do sofrimento e da desorientação pode conduzir, nas tradições orientais, à busca de uma resposta conforme ao Tao ou ao Dharma.
Manifestação do originário
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A linguagem pode deixar transparecer a verdade do originário quando a palavra recebe o que se mostra sem reclamar domínio sobre sua fonte; o dizer conserva, então, a ligação entre manifestação concreta e profundidade inexaurível.
Linguagem e erro
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O mesmo poder de nomear que abre mundo pode encobrir sua origem ao transformar tudo em objeto de representação. A crítica oriental às distinções tomadas como absolutas também identifica na palavra uma possibilidade de ignorância e sofrimento.
Criatividade da linguagem
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A criação poética abre maneiras novas de perceber os entes e de habitar o mundo, enquanto a palavra e a arte orientais podem tornar sensível a harmonia das transformações ou a interdependência dos fenômenos.
O originário no pensamento e na poesia
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Pensamento e poesia alcançam sua força quando recebem uma verdade que não produziram; as palavras dos sábios e os ensinamentos budistas também podem trazer à expressão algo da realidade última sem reduzir seu alcance ao sentido literal.
Resistência da Palavra originária
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A palavra que possibilita o dizer não se deixa apreender como mais um ente nomeável. De modo afim, “Tao” e “Dharma” são designações necessárias na linguagem convencional, mas insuficientes para encerrar aquilo que indicam.
Doação e retração da Palavra
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A palavra originária concede presença ao que chega ao dizer, embora retenha a fonte de sua própria força; no horizonte oriental, o Tao e o Dharma se manifestam nas coisas e nos ensinamentos sem esgotar neles sua profundidade.
Irrupção do originário na palavra
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O homem encontra-se lançado numa linguagem que pode dar expressão ao aparecimento do ser; a palavra do sábio também pode tornar perceptível o curso do Tao ou a verdade da vacuidade dentro de uma situação histórica concreta.
O essenciar-se da linguagem
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A linguagem acontece como dizer que reúne e deixa aparecer, antes de tornar-se um conjunto de enunciados disponíveis. Seu parentesco com as tradições orientais se evidencia quando falar é compreendido como resposta ao dinamismo de uma realidade que excede a representação.
Origem misteriosa, inesgotável e silenciosa da linguagem
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O dizer provém de um fundo que não se torna audível como uma voz entre outras: o acontecimento, o Tao e o Dharma permanecem inesgotáveis mesmo quando suas manifestações encontram expressão nas palavras humanas.
Silêncio como quietude e como escuta
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A quietude do originário e a escuta humana se correspondem sem se confundirem; calar é uma disposição ativa de acolhimento que prepara um dizer atento ao momento de sua manifestação.
Nomeação e invocação
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Nomear pode fazer uma coisa comparecer em sua proximidade, enquanto invocar reconhece que sua presença não é fabricada pelo nome; as palavras orientais também apontam para o real sem pretender possuir aquilo que convocam.
Dizer e agradecer, dialogar e interpretar
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O dizer atento recebe antes de formular, de modo que pensar e agradecer se aproximam numa resposta à doação; o diálogo e a interpretação prolongam essa recepção sem fechar numa última explicação aquilo que permanece aberto.
Linguagem e caminho
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A palavra pode abrir um caminho de retorno e transformação quando conduz além das representações fixadas: o pensamento segue o chamado do ser, a sabedoria taoista acompanha a via do Tao e a prática budista se orienta pelo Dharma.
Caminho e sofrimento
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A experiência da perda e do sofrimento pode romper a segurança das explicações habituais e tornar sensível a necessidade de um caminho; sua elaboração poética ou meditativa exige atravessar a distância do originário sem suprimi-la por uma resposta fácil.
Silêncio na unidade de vazio e forma
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O vazio e a forma não precisam ser separados como realidades incompatíveis: a manifestação concreta pode guardar uma abertura silenciosa que a ultrapassa, assim como a vacuidade budista não elimina as formas pelas quais se torna perceptível.
Silêncio na unidade de graça e encantamento
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O encontro com as noções japonesas de iki e kotoba aproxima o dizer de uma graça que sobrevém discretamente: a palavra floresce como sinal sensível de um acontecimento cuja força encantadora permanece vinculada ao silêncio.
A fala do silêncio
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O silêncio originário é o âmbito a partir do qual a palavra pode ressoar com sentido; o homem lhe corresponde quando seu dizer regressa à escuta e deixa que mundo, tempo e presença se manifestem sem pretender encerrá-los numa explicação definitiva.
