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5 Ereignis e o pensamento oriental

MARTÍN MORILLAS, Antonio Miguel. La nada en el segundo Heidegger y el vacío en oriente hermenéutica constrastativa. Granada: Editorial de la Universidad de Granada, 2007.

O acontecimento apropriador em Heidegger e suas afinidades com o pensamento oriental

  • O acontecimento apropriador (Ereignis) articula a diferença ontológica, a clareira, a linguagem e a serenidade mediante um movimento de doação e retraimento.
  • As aproximações com o Tao e o Dharma dizem respeito sobretudo à negatividade fecunda, à transformação temporal e à relação entre o originário e a existência humana, sem pressupor identidade entre essas noções.

5.1. O acontecimento apropriador em Heidegger

  • O acontecimento apropriador reúne o essenciar-se do ser, sua retração, a doação de mundo e tempo, o destino histórico e a copertença entre ser e homem.
  • Sua dimensão de vazio e sua fecundidade abrem pontos de aproximação com o Tao e o Dharma.

5.1.1. O acontecimento apropriador e o essenciar-se do ser

  • O ser é pensado em seu essenciar-se (Wesung), como acontecimento, e não como essência fixa ou fundamento representável dos entes.
  • O acontecimento apropriador possui caráter singular: suas manifestações são finitas, enquanto permanece inesgotável a possibilidade de novas aberturas de mundo.
  • O pensamento que lhe corresponde é um caminho histórico de passagem para outro início, sustentado pela pertença humana ao ser.
  • A identidade originária consiste na copertença entre homem e ser, anterior à identidade metafísica do ente consigo mesmo.

5.1.2. O nada do acontecimento apropriador

  • O nada designa o retraimento pelo qual o acontecimento se reserva enquanto possibilita a manifestação do ser e dos entes.
  • Ocultação e desocultação pertencem ao mesmo movimento: toda abertura conserva um fundo que não se deixa tornar inteiramente disponível.
  • A ausência de fundamento último abre um fundamento abissal, diante do qual o pensamento abandona a pretensão de domínio e aprende a acolher sinais do ser.

5.1.3. O acontecimento apropriador como doação e proximidade

  • Ser e tempo não são entes existentes em alguma parte; ambos se dão a partir do acontecimento apropriador.
  • A doação abre mundo, sentido e presença, enquanto o próprio doar permanece resguardado.
  • O acontecimento é próximo do homem porque já constitui o âmbito no qual sua existência encontra o ser.

5.1.4. A doação do acontecimento apropriador como destinação histórico-epocal

  • O ser se destina historicamente em configurações epocais de desocultação, sem se reduzir à sucessão dos atos humanos.
  • Cada época recebe uma possibilidade de manifestação precisamente porque outras possibilidades permanecem retidas.
  • A história originária é o jogo entre envio e reserva do acontecimento, do qual depende também a possibilidade de outra relação com os entes.

5.1.5. A temporalidade do acontecimento apropriador de tempo e ser

  • O tempo originário excede a sequência cronológica de passado, presente e futuro: a presença é um alcançar que reúne dimensões temporais distintas.
  • O acontecimento oferece a extensão na qual o que foi, o que vem e o presente se pertencem mutuamente.
  • A doação do tempo esclarece a presença sem eliminar a ocultação daquele que a concede.

5.1.6. A apropriação e propiciação do acontecimento apropriador

  • O acontecimento conduz ser e tempo ao que lhes é próprio e possibilita sua copertença na doação.
  • Homem e ser se pertencem reciprocamente: o homem é requerido para guardar a verdade do ser, e sua existência recebe dessa relação sua determinação histórica.
  • A apropriação inclui o retraimento, pelo qual a relação permanece aberta e não se converte em posse definitiva.

5.1.7. A repercussão da noção de acontecimento apropriador em outros temas do segundo Heidegger

  • A dinâmica de doação, apropriação e reserva orienta a compreensão da diferença ontológica, da clareira, da linguagem e da serenidade.

5.1.7.1. Acontecimento apropriador e diferença ontológica

  • Pensar o ser sem reduzi-lo ao ente exige ultrapassar sua interpretação como simples presença permanente ou disponibilidade para cálculo.
  • A diferença entre ser e ente acontece na abertura que deixa os entes aparecerem e, ao mesmo tempo, retém sua própria origem.
  • O acontecimento acolhe a relação entre ambos sem convertê-los em duas coisas separadas.

5.1.7.2. Acontecimento apropriador e clareira

  • A clareira (Lichtung) é a abertura na qual os entes podem aparecer e na qual se situa a existência histórica humana.
  • A iluminação concedida pelo acontecimento inclui sombra e ocultação; a abertura jamais equivale a transparência completa.
  • O homem habita essa proximidade do ser como aquele que responde à abertura, sem produzi-la por sua vontade.

5.1.7.3. Acontecimento apropriador e linguagem

  • A linguagem originária nasce da correspondência ao dizer silencioso do acontecimento, que convoca a escuta antes da formulação de enunciados.
  • O dizer humano pode guardar a verdade do ser quando acolhe o silêncio e deixa os entes aparecerem em vez de apenas representá-los.
  • A linguagem é a morada histórica dessa relação, embora também possa encobrir sua fonte ao se fixar exclusivamente nos entes.

5.1.7.4. Acontecimento apropriador e serenidade

  • A serenidade (Gelassenheit) consiste em deixar as coisas serem e em corresponder à abertura que as concede.
  • Diante do domínio técnico, essa disposição afasta a exigência de controlar tudo e mantém viva a atenção ao mistério.
  • A espera e o recolhimento exprimem a pertença humana ao âmbito originário, cuja chegada não pode ser fabricada.

5.2. O Tao e o Dharma no Oriente

  • O Tao e o Dharma articulam, em tradições distintas, vazio, transformação, origem e libertação, oferecendo termos de comparação para o acontecimento apropriador.

5.2.1. O Tao no taoismo chinês

  • O Tao é considerado em seu sentido próprio nos clássicos taoistas, como caminho e dinamismo originário do qual procedem as transformações do mundo.

5.2.1.1. A noção de Tao nos textos do taoismo clássico

  • O Tao reúne os sentidos de caminho, ordem, destino e princípio das transformações, sem se deixar reduzir a um método humano.
  • Sua ação engendradora permanece discreta: o vazio originário possibilita a multiplicidade das coisas sem assumir a forma determinada de nenhuma delas.
  • A vida conforme ao Tao requer receptividade ao movimento espontâneo do mundo, para além das distinções rígidas impostas pelo pensamento discriminador.

5.2.1.2. Os antecedentes do Tao no “I-jing”

  • As transformações surgem da interação entre o criativo e o receptivo, forças cuja alternância configura situações sempre mutáveis.
  • Retorno, quietude, irrupção e desenvolvimento exprimem ritmos de um movimento no qual presença e ausência se condicionam.
  • A sabedoria prática acompanha a ocasião propícia de cada mudança sem pretender imobilizar o devir.

5.2.1.3. O Tao de Laozi e Zhuangzi

  • Laozi e Zhuangzi desenvolvem o Tao como origem indeterminada e caminho de retorno à unidade, associando sua fecundidade ao abandono da imposição voluntarista.

5.2.1.3.1. O Tao no “Dao-de-jing”

  • O Tao, vazio de forma determinada, engendra os seres e sustenta suas transformações por meio da eficácia de sua virtude (de).
  • Sua fecundidade se exerce sem apropriação: dá origem, alimenta e deixa cada coisa desenvolver-se segundo sua natureza.
  • O não agir (wu wei) expressa a ação ajustada ao curso das coisas, livre da intervenção que força resultados.
  • O retorno ao originário e a complementaridade entre ser e não ser mostram que o vazio é condição viva da manifestação.

5.2.1.3.2. O Tao no “Zhuangzi”

  • O Tao é origem inesgotável das coisas e unidade anterior às divisões com que o pensamento fixa identidades e oposições.
  • As distinções particulares são relativas ao movimento contínuo das transformações, no qual vida, morte, presença e ausência se entrelaçam.
  • A liberdade humana amadurece na quietude, no desprendimento e na capacidade de acompanhar espontaneamente as mudanças.

5.2.2. A noção de Dharma no budismo mahayana

  • O Dharma é considerado como verdade da vacuidade, da cooriginação interdependente e do nirvana, desde os sutras indianos até suas formulações zen.

5.2.2.1. O Dharma dos sutras “Prajña-paramita”

  • O Dharma designa a verdade segundo a qual os fenômenos são vazios de existência própria e surgem em dependência recíproca.
  • A sabedoria perfeita (prajña-paramita) ultrapassa a fixação conceitual e a oposição entre um sujeito isolado e objetos substanciais.
  • Forma e vacuidade se implicam: reconhecer o vazio não suprime o mundo fenomênico, mas transforma a maneira de compreendê-lo.
  • A prática do bodhisattva une discernimento e compaixão sem converter libertação, mérito ou nirvana em objetos de posse.

5.2.2.2. Cooriginação interdependente e nirvana na escola madhyamika

  • A cooriginação interdependente impede atribuir essência autônoma aos fenômenos: nada surge ou subsiste por si mesmo.
  • A vacuidade também é vazia de natureza própria e não constitui uma substância oculta por trás das coisas.
  • Verdade convencional e verdade última se articulam na mesma realidade, compreendida ora segundo as relações usuais, ora sem a ilusão de entidades independentes.
  • A libertação do sofrimento decorre da cessação do apego às construções conceituais; a distinção absoluta entre samsara e nirvana perde fundamento.

5.2.2.3. O Dharma do budismo zen

  • O zen acentua a experiência direta da natureza verdadeira, a superação das divisões conceituais e a realização do Dharma na vida presente.

5.2.2.3.1. A mente original em Bodhidharma

  • A natureza verdadeira compartilhada pelos seres permanece encoberta pela sensação e pelo pensamento ilusório, embora esteja sempre presente.
  • A realização do Dharma implica reconhecer a mente original sem procurar uma realidade separada da existência concreta.
  • O despertar transforma a relação com os fenômenos ao dissipar a discriminação que obscurece sua vacuidade.

5.2.2.3.2. Contribuições dos mestres zen chineses

  • O Caminho é ilimitado e se manifesta na própria atividade cotidiana quando cessa a separação ilusória entre a mente e a realidade.
  • A compreensão da vacuidade desfaz oposições fixas e permite perceber a interpenetração dos fenômenos.
  • Silêncio, palavra e ação podem servir à realização, desde que nenhum método ou formulação seja tomado como verdade definitiva.
  • A não dualidade do Uno reúne a multiplicidade sem apagar as diferenças concretas.

5.2.2.3.3. O tempo-ser em Dogen

  • O tempo-ser (uji) exprime a inseparabilidade entre existir e temporalizar-se: cada ente é uma realização temporal, e não algo situado dentro de um tempo independente.
  • Cada momento singular manifesta a totalidade das relações temporais sem perder sua posição própria.
  • Passado, presente e futuro se entrecruzam no agora efetivo, cujo alcance excede a simples sucessão de instantes.
  • A morada do Dharma reúne a singularidade de cada ocasião e o movimento integral da realidade interdependente.

5.3. A convergência do acontecimento apropriador heideggeriano com o Tao e o Dharma orientais

  • A convergência reside em pensar a realidade como acontecimento, transformação e abertura, preservadas as diferenças entre Heidegger, o taoismo e o budismo.

Dinamismo do ser

  • O essenciar-se do ser, o engendramento pelo Tao e a cooriginação interdependente do Dharma privilegiam processos vivos em lugar de essências imóveis.

Transcendência do representacionismo e do conceitualismo

  • O acesso ao originário requer ultrapassar conceitos que pretendem fixar por completo o acontecimento, o Tao ou a vacuidade.

Superação do dualismo sujeito-objeto e da primazia do ente

  • A relação originária antecede a separação de um sujeito autônomo diante de objetos dotados de identidade intrínseca.

Singularidade e maravilha do “é”

  • A singularidade do acontecer, a fecundidade misteriosa do Tao e a percepção da talidade convergem na admiração diante do aparecer das coisas.

Mistério e ocultação

  • O originário se manifesta sem se esgotar na manifestação, conservando uma dimensão irredutível de ocultação.

Plenitude e reserva

  • A reserva do acontecimento, a potência geradora do Tao e a vacuidade do Dharma exprimem uma fecundidade que não depende de substância fixa.

Identidade e copertença

  • A copertença entre homem e ser encontra afinidade com a unidade dinâmica do Tao e com a interdependência não dual dos fenômenos no Dharma.

Passo atrás para um novo começo

  • O retorno ao originário implica afastar-se da objetivação metafísica, da discriminação egocêntrica e do apego às dualidades.

Caminho do pensamento

  • O pensamento, a vida conforme ao Tao e a prática budista se realizam como caminhos de transformação, sem posse antecipada de seu termo.

Salto ao abismo

  • A passagem para uma compreensão originária exige abandonar fundamentos inteiramente assegurados e acolher a profundidade indeterminada do real.

Fundamento abissal

  • O acontecimento, o Tao e a vacuidade sustentam o aparecer sem constituir um substrato substancial disponível.

Recepção do ente

  • A abertura originária permite deixar cada coisa aparecer em sua condição própria, em vez de reduzi-la a recurso ou projeção subjetiva.

Finitude e infinitude

  • A inesgotabilidade do originário se manifesta em acontecimentos e seres finitos, sem que a manifestação esgote sua fonte.

Dependência do homem em relação ao originário

  • O homem participa de uma ordem de acontecimento e de transformação que precede sua iniciativa e requer sua resposta.

Apropriação, desapropriação e reapropriação

  • A relação com o originário envolve abandonar a posse ilusória de si e das coisas para reencontrar uma pertença mais fundamental.

Requerimento

  • O acontecimento requer a participação humana na guarda do ser, assim como a realização do Tao e do Dharma se exprime na vida humana.

Apresentar-se e ausentar-se, doação e recusa

  • O aparecer das coisas se entrelaça com a retirada daquilo que as possibilita, de modo que presença e ausência não formam polos isolados.

Ocultação e iluminação

  • O esclarecimento do mundo conserva a profundidade do oculto, enquanto o despertar não converte a realidade em objeto inteiramente transparente.

Abertura de amplitude e trânsito na transcendência

  • A abertura originária amplia as possibilidades de mundo e de existência, permitindo uma passagem além dos limites da representação habitual.

Proximidade

  • O originário é próximo porque atravessa a existência e os fenômenos cotidianos, embora essa familiaridade frequentemente encubra sua força.

Correspondência no estranhamento e na espera

  • A resposta humana amadurece na atenção, na espera e no reconhecimento de que a transformação não se produz por simples vontade.

Inefabilidade

  • O acontecimento, o Tao e a verdade última do Dharma excedem sua formulação verbal, sem que isso elimine toda possibilidade de dizer ou ensinar.

Sinal e retração

  • O originário se deixa entrever por sinais e manifestações que simultaneamente apontam para sua retirada.

Doação de ser e tempo

  • O acontecer heideggeriano, a geração das coisas pelo Tao e a inseparabilidade budista entre existência e temporalidade vinculam o real a uma doação dinâmica.

Destino e temporalidade

  • As épocas do ser, os ritmos mutáveis do Tao e as irradiações do tempo-ser exprimem temporalidades que excedem a sucessão linear.

Temporalidade extática e impermanência

  • A presença reúne dimensões temporais, enquanto a transformação taoista e a impermanência budista impedem tomar os entes como permanências autossuficientes.

Tempo-ser

  • A copertença heideggeriana entre ser e tempo encontra afinidade com a dinâmica taoista de retorno e transformação e com a concentração, em cada momento, da totalidade temporal descrita por Dogen.

Senhorio do originário e disposição humana para servir

  • A existência humana encontra sua medida ao abandonar a pretensão de dominar o mundo e ao corresponder à ordem originária do ser, do Tao ou do Dharma.

Lei originária

  • A lei do originário designa a possibilidade de as coisas virem ao que lhes é próprio: no Tao, como ordem das transformações; no Dharma, como verdade da interdependência e da vacuidade.
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