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1 Introdução

MARTÍN MORILLAS, Antonio Miguel. La nada en el segundo Heidegger y el vacío en oriente hermenéutica constrastativa. Granada: Editorial de la Universidad de Granada, 2007.

1. A pesquisa parte da aparente contradição entre o senso comum de que nada se pode dizer com conteúdo sobre o nada e o vazio e a suspeita, desenvolvida ao longo do trabalho com Martin Heidegger e o pensamento oriental, de que o nada pode ser uma realidade de outra ordem e o vazio uma fonte de plenitude.

  • O percurso investigativo contou com a ajuda da segunda filosofia de Heidegger e da extensa experiência do pensamento oriental.
  • Os primeiros contatos com o Oriente ocorreram em viagens ao Japão e à Coreia no final dos anos 80, em programas de ensino de línguas e cultura europeia.
  • O interesse pelo oriental ganhou direção inesperada no contato com círculos da Companhia de Jesus no Japão, sobretudo na Universidade de Sofia, dedicados ao diálogo intercultural Oriente-Occidente em nível filosófico.
  • A aproximação com o Toho-Kenkyu-Kai do professor Nakamura Hajime, da Universidade Imperial de Tóquio, abriu possibilidades para esse diálogo.
  • Após o retorno à Espanha e a decisão de fazer o doutorado, surgiu a intenção de realizar uma investigação filosófica de caráter intercultural, inicialmente motivada pela leitura de que existiria relação entre Heidegger e o pensamento oriental.
  • A descoberta de vasta bibliografia desconhecida sobre o tema exigiu dois anos e meio de trabalho para compor um panorama mediano do terreno investigativo.
  • Um inoportuno cambio de planos de doutorado impossibilitou apresentar os resultados de forma mais satisfatória sem violar prazos legais, mas o aprendizado e a concretização do desejo compensaram o esforço.

2. O terreno da investigação remete ao segundo Heidegger e sua relação com o pensamento oriental, tomando como eixo central o estudo das temáticas gerais do nada e do vazio.

  • Busca-se apresentar os principais flancos da reflexão do segundo Heidegger, posterior à virada, acerca do nada.
  • Busca-se também apresentar a reflexão oriental sobre o vazio segundo as ópticas taoísta e mahayana.

3. A pesquisa conta com uma pista fundamental: a crescente bibliografia sobre Heidegger e Oriente, cujo primeiro objetivo é conhecer o que ela diz.

  • Parece haver consenso de que Heidegger conhecia o Oriente melhor do que se supunha e se interessou especialmente pelo taoísmo e pelo budismo zen.
  • Não há consenso sobre até que extremo chegou esse interesse: alguns autores defendem influência direta do pensamento oriental na filosofia do segundo Heidegger, outros defendem similitude mais ou menos externa por harmonia, correspondência ou concordância.
  • Além do primeiro objetivo, coloca-se um segundo: calibrar o tipo e o grau do encontro de Heidegger com o pensamento oriental, determinando se se trata de influência, coincidência casual e extrínseca ou convergência interna de fundo.

4. Para cobrir esses objetivos, a investigação estuda o tema do nada em Heidegger à luz de seu contraste com o tratamento dado por autores ou escolas relevantes do pensamento oriental.

  • A questão do nada (das Nichts) ocupa lugar importante na evolução do pensamento heideggeriano.
  • A noção de vazio (sunyata, xu) desempenha papel destacado em linhas mestras do pensamento oriental, concretamente nas duas que interessaram a Heidegger.
  • Atenção especial foi dada à seleção de momentos da obra heideggeriana, sobretudo do segundo Heidegger, que tratam direta ou indiretamente do nada.
  • Atenção especial foi dada à detecção das raízes mais autorizadas que forjaram no Oriente o pensamento e a experiência do vazio.

5. Existem provas de que Heidegger estava familiarizado com a filosofia oriental, e algumas ideias importantes de sua filosofia guardam parecido com termos, locuções e sintaxe de traduções alemãs que ele manejou.

  • Destacam-se as ideias de nada, vazio e claro, semelhantes a termos de traduções alemãs de textos clássicos do taoísmo chinês, como o Dao-de-jing de Laozi e o Zhuangzi.
  • Também há semelhanças com manuais sobre o budismo zen chinês-japonês, como traduções alemãs de Ohama Shuei de seleções de mestres do zen ou escritos de D. T. Suzuki.
  • Heidegger pôde enriquecer seu conhecimento sobre o mundo oriental por meio de numerosas conversas na Alemanha com professores chineses e japoneses ao longo de várias décadas.
  • Manteve correspondência com filósofos japoneses destacados, como Kuki Shuzo, Tanabe Hajime, Miki Kiyoshi e Nishitani Keiji.
  • No verão de 1946, Heidegger iniciou a tradução alemã de oito capítulos selecionados de Laozi em colaboração com o professor chinês Paul Hsiao.
  • A visita do professor japonês Tezuka Tomio em 1954 inspirou um conhecido diálogo recolhido em Unterwegs zur Sprache, no qual se discutem ideias relativas ao mundo oriental, incluindo-se uma tradução do relatório de Tezuka na Addenda final.
  • Vários investigadores apontam indícios de que Heidegger tomou impulso para seu novo começo do pensar como superação da metafísica inspirando-se em aspectos de uma tradição que ou desconhecia a metafísica ou se tornara antimetafísica após descobri-la.
  • Ressalta-se a boa acolhida da filosofia do nada de Heidegger no Oriente, sobretudo no Japão, primeiro país a traduzir Sein und Zeit e a receber com grande interesse Was ist Metaphysik?, especialmente entre representantes da escola de Kyoto.

6. Entende-se assim a recente aparição de número cada vez maior de artigos e monografias sobre o parecido entre diversas escolas orientais, principalmente taoísmo e budismo zen, e determinados hitos do caminho do pensar de Martin Heidegger.

  • Boa parte do trabalho a desenvolver deve considerar o estatus da questão Heidegger-Oriente.
  • O trabalho deve considerar também sua importância para o cada vez mais necessário diálogo intercultural entre Oriente e Ocidente.
  • Não se trata tanto de provar um catálogo de influências ou paralelismos, mas de contrastar estilos mentais (ways of thinking) com vistas a provocar a comunicação, real ou possível, entre as tradições filosóficas oriental e ocidental.
  • A pretensão do estudo é menos de ordem historiográfica que de caráter tipológico-ideográfico, dirigida a preparar uma experiência de encontro.

7. O tema do nada permite estudar a influência (May), a correspondência (Strolz, Parkes) ou a convergência entre o pensamento de Heidegger e a filosofia do Extremo Oriente.

  • No segundo Heidegger incluem-se os três tópoi fundamentais do nada (Nichts), do vazio (Leere) e do claro (Lichtung), que guardam relação com textos orientais por ele conhecidos.
  • A ideia heideggeriana de que ser e nada se pertencem mutuamente coincide com formulações da versão alemã dos capítulos 1-2 do clássico de Laozi e com sentenças do Shinjin-mei do zen japonês (o Sin-sin-ming chinês).
  • A ideia de que a coseidade de uma coisa não é ela mesma uma coisa, e de que o ser dos entes não é um ente, coincide com expressões do capítulo 22 do Zhuangzi em alemão.
  • A ideia de que o vazio do ser não pode ser preenchido pela totalidade dos entes e a caracterização do nada como vazio mediante a metáfora do recipiente conectam com o capítulo 11 de Laozi.
  • A noção mesma de claro como espaço vazio coincide com a interpretação literal do ideograma chinês para nada (wu), que recorre também à metáfora do bosque talado.
  • Diante desses e outros antecedentes, parece justificado aprofundar a compreensão da negatividade, do nada e do vazio em Heidegger e no pensamento oriental, fixando seus aspectos mais importantes e prestando atenção à sua gênese e desenvolvimento segundo suas fontes.

8. A apresentação é resultado de uma primeira fase de familiarização com os escritos de Heidegger e com os mais famosos do Oriente.

  • Era necessário conhecer medianamente bem o segundo Heidegger, o que não era o caso no início, quando apenas se havia estudado a fundo o Heidegger de Sein und Zeit para o Trabalho de Investigação do ciclo de doutorado.
  • Também não se sabia muito sobre o Oriente.
  • A segunda fase consistiu na organização dos materiais, ordenando temas fundamentais ligados ao nada nos textos do segundo Heidegger com o que dizem sobre temas relacionados ao vazio textos relevantes selecionados do Oriente.
  • Encontraram-se dificuldades para superar a dispersão da referência a esses temas na obra do segundo Heidegger e para selecionar textos destacados do Oriente, onde há enorme quantidade de escritos, períodos e escolas interessantes.
  • Houve problemas de acesso e disponibilidade a boa parte dos escritos.
  • O critério seletivo adotado foi acudir aos textos fundacionais disponíveis mais representativos das correntes filosóficas conhecidas por Heidegger.
  • Os resultados quanto à seleção de textos são mais confiáveis em Heidegger que no Oriente, podendo faltar referência a algum texto interessante de Heidegger, mas certamente faltam referências a obras importantes do Oriente.

9. Reconhece-se a possibilidade de efetuar melhor articulação da exegese dos materiais, tanto em Heidegger quanto no Oriente, possibilidade entendida como dívida a ser abordada em trabalhos posteriores.

  • Não foi possível acessar tudo o que se publicou sobre Heidegger e Oriente, sobretudo artigos, nem consultar as contribuições de muitos comentaristas.
  • No caminho da investigação, muitos temas possíveis foram sacrificados, como a destruição do cogito, a comparação entre interpretações heideggerianas das origens gregas da filosofia ocidental e tradições do pensamento oriental, entre místicas cristã e oriental ou entre poesia oriental e ocidental, a crítica à técnica no marco da superação do dispositivo pela quadratura, e as implicações da filosofia de Heidegger e do pensamento oriental para desenvolver uma ecologia profunda.
  • Muitos desses subtemas podem servir de entrada para estudos futuros, aparecendo em maior ou menor medida implicados no desenvolvimento dos temas principais deste escrito.

10. Aprecia-se de entrada um neto contraste entre os estilos mentais de Heidegger e dos pensadores orientais: uma finalidade fundamentalmente ontológica no caso de Heidegger e uma atitude mais sapiencial e ético-soteriológica entre os orientais.

  • O pensar essencial de Heidegger e as escolas taoísta e zen são metodologias diferentes com finalidades diversas, mas não realidades divergentes.
  • Todas exploram com enfoques dinâmicos e são tentativas de pensar e experimentar a mobilidade do transcender.
  • Praticam uma sorte de coincidentia oppositorum, tentando superar toda expressão de dualismo e conceptualismo.
  • Sua proximidade de enfoques e conteúdos ressalta melhor quando se considera seu acordo naquilo que negam.
  • Compartilham uma sorte de convergência negativa.
  • Convergem em seu anti-sustancialismo e anti-essencialismo: o ser é acontecimento ou caminho.
  • Convergem em seu anti-cosismo e anti-dualismo: ser, nada e vazio se copertencem na duplicidade de ser e ente ou de caminho e coisas.
  • Convergem em seu anti-humanismo: o homem não é o centro e dono do mundo, mas está entregue ao claro do ser ou à iluminação do caminho.
  • Convergem em seu anti-intelectualismo e anti-objetivismo: o linguagem da meditação se funda no silêncio e transcende o âmbito da representação conceitual.
  • Convergem em seu anti-moralismo: mais além das morais convencionais há uma ética originária da serenidade ou uma soteriologia do regresso ao caminho.
  • É, em definitivo, uma convergência de fundo, que em geral tem a ver com a superação do pensamento metafísico.
  • A metafísica é por comum fundamentalmente conceitual, e o conceptualismo gera de por si diferenças de pensamento.
  • Não assim o pensar heideggeriano e a sabedoria místico-filosófica oriental, que promovem a convergência na unidade e linhas de encontro para o pensamento.

11. Entre as monografias existentes, há estudos que enfocam diversos paralelismos entre o pensamento de Heidegger e o pensamento oriental sobre pontos concretos.

  • Destacam-se os trabalhos sobre a problemática do tempo, sobretudo os que comparam a temporalidade em Heidegger com a impermanência em Dogen, um dos mestres fundadores da escola zen do Japão.
  • Não abundam, no entanto, investigações compreensivas sobre o problema do nada, questão tratada de maneira fragmentária e dispersa, normalmente em artigos, quando possui grande importância nas filosofias de Heidegger e oriental.
  • Cabe aproveitar os esforços realizados por investigadores no relativo ao enfoque de alguns problemas metodológicos.
  • A obra de Parkes, Heine, Abe ou Nakamura pode fornecer algumas chaves valiosas a respeito.
  • Não foi possível aplicar nem avaliar as distintas propostas metodológicas sugeridas pelos autores, o que foi posposto para estudos futuros, embora se tenha aproveitado alguns de seus avisos.
  • A falta de um modelo definitivo, optou-se por um modelo provisório de contrastação hermenêutica entre os escritos de Heidegger e do Oriente, tentando ter os textos em todo momento como ponto de referência, ajudando a que sejam eles os que falem por si mesmos.
  • Ao longo da leitura, prestando ouvido à possível proximidade do dito por Heidegger e pelos escritos orientais, vão-se assinalando linhas de verificação de uma convergência entre ambos segundo cada um dos temas assinalados.

12. No que se refere a Heidegger, o problema do nada pode ser posto em relação com algumas ideias matrizes chaves para a compreensão de seu segundo pensamento.

  • Os temas principais são: I. Nada e acontecimento propiciante. II. Nada e diferença ontológica. III. Nada e claro-vazio. IV. Nada e palavra-silêncio. V. Nada e serenidade.
  • É possível até certo ponto inventariar uma base aproximada de registros temáticos que afetam a questão do nada em Heidegger.
  • O nada nunca é em Heidegger um nihil absolutum, mas, para começar, aquilo que não é ente.
  • No primeiro Heidegger, o nada é visto desde a finitude do ser-aí e do mundo de que se cura; no segundo, o nada é contemplado desde a negatividade intrínseca à desocultação histórico-destinal do ser ou, melhor, do acontecimento propiciante (Er-eignis).
  • Por um lado, a apresentação finita dos entes como resultado do processo pelo qual o ser se manifesta como acontecimento propiciante remete imediatamente ao tema do mistério de sua ocultação e desocultação.
  • O nada como negatividade do apresentar-se finito do ser guarda relação com outra noção central do pensamento de Heidegger: a diferença ontológica.
  • A busca heideggeriana do sentido do ser se traduz em esforço por entendê-lo como o acontecer da verdade pelo qual surge a diferença ontológica entre os entes e o ser.
  • O nada guarda também relação com as noções de claro (Lichtung) e vazio (Leere).
  • A equivalência entre o mistério do ser e o nada está vinculada à equivalência entre a palavra original e o silêncio.
  • A compreensão ontológica da negatividade da manifestação do ser se traduz nas atitudes fundamentais do ser-aí autêntico: a resolução no primeiro Heidegger e a serenidade no segundo.
  • A compreensão heideggeriana do nada (Nichts) desde as inter-relacionadas temáticas do mistério do acontecimento histórico-destinal do ser, a diferença ontológica entre o ser e os entes, a vacuidade do claro como condição de toda revelação, o silêncio como fala original, e a resolução e a serenidade como formas fundamentais da autenticidade humana, entre outras chaves conceituais possíveis, parece proporcionar suficiente jogo para iniciar com garantias uma hermenêutica produtiva do nada na obra do segundo Heidegger.

13. Menos fixa é a questão da negatividade no relativo à filosofia oriental.

  • Embora nenhum autor oriental enquadre seu pensamento em divisão similar à esboçada, os temas heideggerianos guardam maior ou menor similitude, ao menos de maneira implícita, com pontos abordados por algumas escolas clássicas de pensamento da Índia, China ou Japão.
  • Além disso, na perspectiva oriental divisam-se aspectos não contemplados pelo pensar essencial de Heidegger, e vice-versa.
  • Foi preciso estudar como entendem a negatividade certas sutras budistas autorizadas e Nagarjuna na Índia; o taoísmo e o budismo ch'an na China; e o budismo zen no Japão.
  • Do zen japonês, a investigação se cingiu a um escrito de Dogen.
  • Houve que renunciar a estender a investigação ao hinduísmo.
  • Não se pôde sortear a limitação de fundo da barreira linguística ao acudir a fontes originais diretas, servindo-se de traduções, seleções e coleções em línguas ocidentais, sobretudo inglesas.

14. Uma vez compreendido que no segundo Heidegger o nada serve de pano de fundo nas questões do essenciar-se do ser como acontecimento propiciante, da diferença ontológica como duplicidade do essenciar-se do ser do ente, do claro da desocultação do ser, do silêncio da linguagem originária e da passividade da ética da serenidade, decidiu-se organizar os materiais da leitura de Heidegger segundo essas mesmas questões.

  • Viu-se na questão do acontecimento propiciante o pórtico pelo qual ingressar nas outras quatro.
  • Partindo dessa base de cinco faces do nada, buscou-se, com as limitações aludidas, se dizia algo e o que dizia o Oriente a respeito nos textos selecionados.
  • Concedeu-se maior extensão às apresentações de pontos orientais, incorporando alguma informação sobre aspectos elementares da filosofia oriental e tentando não inclinar a balança demasiado nem para o taoísmo nem para o zen.
  • Preferiu-se inclusive dar espaço às raízes do zen na literatura do budismo mahayana, pensando que Heidegger ou não teve acesso ou não prestou atenção ao fato de que o zen é uma derivação tardia e original do mahayana.
  • Todas elas, desgraçadamente, deixam de fora interessantes passagens e ampliações dos aspectos tratados.
  • Após esgotar as exegeses dos distintos escritos de ambas as partes, passou-se a contrastá-las entre si.
  • Ensaio-se uma metodologia contrastativa de aproximação dos textos segundo os cinco temas acotados, traçando paralelismos e diferenças conceituais, com o apoio de fontes escritas autorizadas, uma contrastação de afinidades e diferenças por ideias matrizes.
  • Alguns pontos de um e outro âmbito (heideggeriano e oriental) podem carecer de correlato preciso, e todos podem ordenar-se e imbricar-se de diferentes maneiras.
  • Pretende-se submeter a exame inicial a hipótese de que a aproximação ou mútua exposição dos textos permite verificar que há uma cercania convergente entre a direção do pensamento do segundo Heidegger e, se não com todo, ao menos com o que ele conhecia do Oriente (taoísmo e zen, principalmente).

15. Echando a mirada a Oriente, os temas heideggerianos da dimensão ética do homem, com o problema da finitude e da existência caída, assim como a necessidade de um novo início do habitar no mundo, parecem prometedores se vinculados ao budismo mahayana.

  • Os escritos mais antigos e importantes do budismo mahayana são as Prajña-paramita-sutra (Escrituras da sabedoria perfeita), que expõem a doutrina da vacuidade (sunyata) universal.
  • Foram selecionadas as conhecidas versões Do diamante e Do coração dessas sutras.
  • O pensamento da vacuidade do budismo mahayana se condensa principalmente na escola madhyamika de Nagarjuna.
  • Foi estudada sua obra principal, a Mula-madhyamika-karika (Versos fundacionais do caminho médio).
  • O taoísmo pode resultar fecundo para os temas do acontecimento propiciante, o claro, a diferença ontológica e a serenidade.
  • A doutrina taoísta se formula no Dao-de-jing de Laozi e no Zhuang-zhi.
  • Algumas de suas raízes remontam à escola do yin e o yang do livro clássico I-jing.
  • Foram trabalhadas as três obras.
  • Para terminar, os temas do mistério, o silêncio e a resolução, assim como a ênfase posta na experiência estética, aparecem tratados no budismo zen chinês-japonês.

16. Em resumo, a contrastação hermenêutica entre o segundo Heidegger e o taoísmo e o budismo mahayana orientais avança em cinco passos, tratando de cingir-se ao seguinte mapa:

1. SEGUNDO HEIDEGGER

1. Acontecimento propiciante (Ereignis), diferença ser-ente (e acontecimento-ser), o claro (Lichtung), fala silente do ser e serenidade (Gelassenheit).

2. TAOÍSMO

1. Caminho (Tao), diferença Tao-cosas, o vazio (Xu), a linguagem do Tao e não-agir (Wu-wei).

3. BUDISMO MAHAYANA

1. Dharma (cooriginación interdependiente (Prattiya-samutpada) e nirvana), diferença vazio-fenômenos, a vacuidade (Sunyata), linguagem convencional e linguagem da verdade última, não-eu e não-mente (as quatro nobres verdades e o nirvana).

17. Dentro da necessária modéstia e prudência a guardar nessas questões, acredita-se que o esforço se vê recompensado com sua contribuição, de certa relevância para o panorama filosófico espanhol, em concreto para os interessados em Heidegger, ao informar que o filósofo alemão conhecia o Oriente e que existe um debate sobre sua relação com a cultura oriental.

  • Mais modesta ainda há de ser a posição nesse debate pelo limitado da investigação.
  • Mais que posição, trata-se aqui de inclinação, decantamento.
  • É agora, no momento de acabar a tese, quando se encontra uma base suficientemente sólida para trabalhar mais a fundo no segundo objetivo da investigação, a consideração de se a relação de Heidegger com o Oriente há de estabelecer-se em chave de influência, de correspondência ou de convergência.
  • Nesse ponto, a investigação é aberta, não concluída.
  • Oferecem-se apenas resultados provisórios, conscientes de que esse campo de estudo exige trabalhar em equipe.

18. Finalmente, esta investigação se pode enquadrar na necessidade e oportunidade de um diálogo filosófico em profundidade entre Oriente e Ocidente.

  • O diálogo entre essas duas grandes culturas é fundamental para uma cultura do diálogo em geral.
  • Em época de globalização ressalta o valor da filosofia e do encontro filosófico a todos os níveis.
  • Pode-se aprender muito de comparar em ambas as direções os grandes pensadores do Ocidente com os hitos do pensamento oriental.
  • Nesse contexto, se destaca a aportação de Martin Heidegger é porque encarna com seu exemplo a decisão de um filósofo de primeira linha de fazer experiência do Oriente dentro de suas conjunturais limitações.
  • Ali onde não chega o indivíduo pode chegar o grupo.
  • O exemplo de Heidegger deve servir de incentivo para que filósofos de ambas as partes do globo se impliquem no desenvolvimento de atividades acadêmicas, programas e grupos de investigação transculturais.
  • Essa linha de trabalho se encontra bastante avançada em outras universidades, fundamentalmente norte-americanas, asiáticas e da Oceania.
  • Algo se faz na França, Alemanha, Inglaterra e Itália.
  • É de desejar que pronto constitua uma realidade mais estendida na universidade espanhola.
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