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4 Si mesmo
TREMBLAY, Jacynthe. Auto-éveil et temporalité: les défis posés par la philosophie de Nishida. Paris: l’Harmattan, 2007.
O si, basho do tempo
1 — O espírito-basho
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O presente constitui o basho do tempo, isto é, o lugar em que passado, presente e futuro podem emergir como série temporal, mas ele próprio exige um basho ainda mais abrangente; esse aprofundamento conduz ao espírito, no qual memória, atenção e expectativa tornam possível a presença conjunta das três dimensões temporais.
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A análise augustiniana da medida do tempo desloca seu fundamento do movimento cosmológico para o espírito: passado e futuro, por já não existirem ou ainda não existirem, não podem ser medidos como realidades exteriores, e o presente pontual, desprovido de extensão, tampouco oferece por si mesmo a duração necessária à medida.
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A distentio animi resolve a aporia da extensão temporal ao situar no próprio espírito a distensão que torna o tempo mensurável, de modo que a temporalidade deixa de depender do movimento físico e passa a ser compreendida mediante a tensão interna entre memória, atenção e expectativa.
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A sucessão dos sons mostra que não se mede diretamente aquilo que já passou, aquilo que ainda virá ou mesmo aquilo que está simplesmente passando, mas as impressões conservadas no espírito, graças às quais elementos temporalmente ausentes permanecem presentes e podem ser comparados.
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O presente deixa assim de significar um ponto imóvel e torna-se intenção presente (praesens intentio), atividade pela qual aquilo que é esperado atravessa a atenção e se transforma em lembrança, diminuindo progressivamente a expectativa do futuro enquanto cresce a memória do passado.
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A distensão temporal consiste na não coincidência das três tensões do espírito: a expectativa dirige-se ao que virá, a memória conserva o que passou e a atenção efetua ativamente a passagem entre ambas, de maneira que a unidade temporal se constitui precisamente por essa diferenciação interna.
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A solução da aporia do tempo repousa, portanto, na interioridade: não são futuro e passado enquanto tais que possuem extensão, mas a expectativa do futuro e a memória do passado, ambas presentes como afecções do espírito e articuladas pela atividade atual da atenção.
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A concepção augustiniana aproxima-se da lógica nishidiana do basho porque permite compreender memória e expectativa como contidas em uma consciência presente mais profunda, na qual o próprio tempo encontra seu lugar e deixa de manter com o espírito uma relação meramente exterior.
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O verdadeiro presente ou presente-basho não se encontra sobre uma linha temporal exterior ao si, mas penetra na profundidade não objetivável do próprio si; passado como memória, presente como intuição direta e futuro como expectativa coexistem, portanto, no espírito que os engloba como seu basho.
2 — O problema da percepção
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O vínculo entre o si e o presente já se anuncia na experiência pura: somente o presente possui efetividade imediata, enquanto o passado não pode ser recuperado como aquilo que foi e permanece acessível apenas a partir da atividade presente que continuamente modifica sua significação em função do futuro.
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O passado não constitui uma realidade imóvel determinada mecanicamente, mas recebe sua significação no interior de uma causalidade teleológica, na qual acontecimentos posteriores podem reorganizar retrospectivamente o sentido do que os precedeu; por isso, tanto o si passado quanto o si futuro possuem realidade somente mediante sua representação no si presente.
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O verdadeiro si não corresponde ao si objetivado pela reflexão, mas ao si presente que age e não pode tornar-se inteiramente objeto de conhecimento; a irreversibilidade temporal permanece válida para o si conhecido, enquanto o si como vontade e sujeito atuante pode fazer o passado tornar-se presente mediante sua atividade.
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A percepção interior torna decisiva a coincidência entre quem conhece e aquilo que é conhecido, mas essa coincidência não pode ser explicada pela simples junção entre representação e juízo, pois requer uma consciência atuante que unifique conhecimento e agir em um nível anterior à oposição entre sujeito e objeto.
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A evidência não pertence primariamente à representação objetiva, mas ao auto-despertar do agir: o conhecimento só alcança sua evidência quando se aprofunda até o ato em que conhecer é/não é agir e agir é/não é conhecer, exprimindo a unidade contraditória que sustenta a percepção interior.
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O problema decisivo da percepção interior reside em compreender como o objeto pode tornar-se conteúdo da consciência sem perder sua transcendência, isto é, como imanência e transcendência podem coincidir sem que a coisa conhecida seja simplesmente reduzida a uma representação interna.
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A consciência objetiva alcança apenas aquilo que já se manifestou e, portanto, aquilo que imediatamente se converteu em passado; por isso, o presente não pode ser capturado como objeto, embora seja justamente a consciência presente do “eu” atual que funda a objetividade de todo conhecimento dos fatos.
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A memória evidencia essa estrutura paradoxal: seu conteúdo pertence ao passado, mas a representação memorial pertence à consciência presente, de modo que o conhecimento do passado pressupõe uma continuidade imediata sustentada por um si atuante que pode conhecer diretamente seu próprio ato sem transformá-lo em objeto.
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O presente funciona como limite inacessível e, ao mesmo tempo, como condição previamente conhecida de toda continuidade temporal, exigindo a passagem da consciência dos objetos para a consciência do próprio ato; a experiência imediata e o presente compartilham, assim, o caráter de fundamento que não pode ser plenamente objetivado.
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O si psicológico pertence à ordem dos objetos determinados segundo tempo e espaço e não deve ser confundido com o si que conhece: este último, embora atue no mundo espaço-temporal, simultaneamente o transcende e constitui a continuidade a partir da qual o si psicológico pode ser pensado.
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A continuidade efetiva da consciência não decorre da simples coexistência sucessiva de conteúdos psíquicos ao longo do tempo linear; ela depende do si atuante e não objetivável que associa os momentos da consciência e, como o “eu penso”, acompanha as representações sem ser ele próprio uma representação entre outras.
3 — O si como hypokeimenon do tempo
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O tempo é categoria necessária para conhecer a realidade e o si empírico, mas o verdadeiro si não está situado no tempo como mais um de seus conteúdos: sua profundidade não objetivável coincide com o presente como limite inalcançável, e passado e futuro aparecem como determinações projetadas a partir desse si presente.
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O presente verdadeiro não é um ponto fixável sobre uma linha temporal previamente orientada, pois isso o reduziria à mesma ordem estática dos objetos; ele deve ser o ponto em que infinitas direções podem unificar-se e a partir do qual diferentes mundos temporais podem ser instaurados.
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O tempo verdadeiro constitui a marca ou o traço do si atuante: cada presente possui significação absoluta porque cada si, em seu agir, determina sua própria direção temporal em vez de simplesmente ocupar um ponto de uma sucessão objetiva previamente estabelecida.
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A relação entre si e presente aprofunda-se mediante o auto-despertar e o nada absoluto: o presente encontra-se onde o si se conhece, e o si encontra-se onde o presente se autodetermina, porque nem o verdadeiro si nem o verdadeiro presente possuem um fundamento positivo anterior que os determine.
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A temporalidade nasce da autodeterminação do nada absoluto; se algo previamente dado determinasse o fundo do presente ou do si, ambos perderiam sua capacidade de autodeterminação e o próprio surgir do tempo ficaria impossibilitado.
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O presente absoluto é a determinação auto-desperta do nada absoluto que engloba todas as autodeterminações particulares, comparável a um círculo infinito cujo centro está em toda parte e cuja circunferência não está em parte alguma; cada ser humano livre constitui, por sua vez, uma determinação circular que engloba seu próprio tempo.
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A multiplicidade dos seres humanos corresponde a uma multiplicidade de temporalidades: cada si possui seu tempo próprio porque o tempo não contém exteriormente a pessoa, mas se estabelece nela a partir da autodeterminação do presente.
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O si pode, por isso, ser compreendido como hypokeimenon do tempo: não é o “eu” que existe dentro do tempo, mas o tempo que existe no “eu”, pois a determinação temporal encontra seu fundamento no auto-despertar que simultaneamente a engloba e a produz.
4 — Modalidades das relações entre o si e a temporalidade
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A identidade entre autodeterminação do presente e autodeterminação do si envolve simultaneamente proveniência e englobamento: o passado retorna e se apaga no si, enquanto o futuro parte dele, de modo que razão e vontade livre exprimem aspectos diferentes de uma autodeterminação que, em seu fundo, não recebe determinação de nenhum princípio exterior.
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A temporalidade verdadeira, por ser internamente contraditória, não pode ser compreendida a partir do universal determinado e do mundo objetivo, mas apenas mediante a dimensão transcendente do auto-despertar, na qual o ser se situa no nada como autodeterminação do próprio nada.
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Torna-se necessário distinguir o tempo objetivo, correspondente à linha da determinação noemática e ao mundo histórico enquanto objetivamente configurado, do tempo absoluto, que surge na linha de contato entre o limite dessa determinação objetiva e a autodeterminação auto-desperta do nada absoluto.
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O verdadeiro si ultrapassa o tempo objetivo e, nesse sentido, também ultrapassa a história enquanto mera sequência objetivável; contudo, sua transcendência não o separa do mundo histórico, pois ele deve autodeterminar-se nele corporalmente e adquirir aí sua singularidade concreta.
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O si verdadeiro é um si corporal e atuante, não um simples eu consciente concebido psicologicamente; sua existência encontra-se onde o presente se autodetermina no mundo histórico, expressando temporalmente a determinação do nada mediante agir e vontade livre.
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Na relação “eu-tu”, o indivíduo só pode determinar-se na oposição e na reciprocidade com outro indivíduo, de maneira que o “eu” nasce juntamente com o “tu”; o outro absoluto é encontrado no fundo do próprio si como aquilo que simultaneamente o nega e lhe dá origem.
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A dimensão causal do tempo, proveniente do passado, corresponde ao movimento pelo qual o “eu” encontra em si o outro absoluto, enquanto a dimensão teleológica, proveniente do futuro, corresponde ao movimento pelo qual esse outro faz nascer o si; sua unidade ocorre na autodeterminação presente mediante a identidade contraditória de negação e afirmação absolutas.
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Cada ser humano possui seu próprio curso temporal, mas essa pluralidade não é isolada: os inúmeros tempos objetivos pertencentes aos indivíduos são simultaneamente determinados pelo tempo absoluto, no interior do qual cada si se autodetermina ao encontrar o outro absoluto em si mesmo.
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O presente concebido como basho é uma determinação espacial que engloba o próprio tempo e reúne seu começo e seu fim no si auto-desperto; aquilo que existe historicamente situa-se, assim, ao mesmo tempo no auto-despertar e no curso infinito do tempo.
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Na auto-identidade absolutamente contraditória, o mundo forma-se como presente no movimento do que é criado para aquilo que cria; o presente é uma intuição atuante na qual passado e futuro se unificam contraditoriamente, e a consciência surge como momento dessa autoformação em vez de constituir seu princípio originário.
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A consciência abstrata distancia-se da intuição atuante e pode apagar a temporalidade concreta, mas sua possibilidade pertence ao próprio processo pelo qual o mundo se forma como presente; o si permanece um indivíduo desse mundo e sua ação consciente adquire caráter de dever diante daquilo que coloca em questão sua vida e sua morte.
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O presente absoluto não significa supressão estática de passado e futuro, mas sua auto-identidade contraditória em um mundo infinitamente móvel e criador, no qual cada si nasce assumindo um passado infinito e abrindo-se a um futuro infinito que conferem singularidade tanto à sua existência quanto ao mundo.
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A unidade do mundo histórico requer a combinação entre passado e futuro por meio da negação absoluta: cada momento constitui um fato absoluto que nega o mundo e simultaneamente se nega, tornando possível que temporalidades irredutíveis se articulem concretamente sem serem dissolvidas em uma continuidade homogênea.
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A verdadeira intuição não é uma união supratemporal e passiva entre sujeito e objeto, mas uma atividade infinita em que os pontos se combinam segundo a auto-identidade contraditória e se unificam à maneira do basho; longe de pressupor o tempo como mediação, esse processo de auto-despertar é precisamente aquilo que engendra o tempo.
5 — Eu de ontem e eu de hoje. A unidade da consciência
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O verdadeiro si presente constitui o ponto de unidade entre o si passado e o si futuro, de modo que o problema temporal da identidade pessoal se concentra na relação entre o “eu” de ontem e o “eu” de hoje e exige articular memória, vontade e unidade da consciência.
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A identidade do si não repousa sobre uma substância imutável situada por trás de seus atos, mas no próprio auto-despertar pelo qual o si se reflete em si; posteriormente, essa concepção é aprofundada mediante a identificação do verdadeiro si com o si presente, centro a partir do qual passado e futuro são rememorados ou imaginados.
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O si passado é um si pensado e objetivado, privado do caráter criador próprio do agir presente: o si atual pode relacionar-se com ele, mas não retornar efetivamente a ele, porque somente o presente possui a profundidade atuante e não objetivável em que a temporalidade encontra seu fundamento.
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A memória exige uma consciência que transcenda a sucessão dos instantes, pois a comparação entre consciência passada e consciência presente seria impossível se ambas fossem apenas momentos independentes de uma série temporal; essa consciência transtemporal torna possível tanto a intuição do passado quanto a abertura ao futuro.
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A consciência transtemporal assume a forma de impulso ou vontade e permanece eternamente presente; nessa perspectiva, não é a consciência que está contida no tempo, mas o tempo que está contido nela, e a vontade constitui o auto-despertar da unidade ativa que Nishida identifica ao tempo verdadeiro.
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A unidade da consciência encontra sua raiz no nada que engloba o ser e contém possibilidades infinitas, não em um substrato positivo ou em uma continuidade psicológica meramente formal; sua configuração amadurecida situa a consciência de si no campo presente em que passado e futuro se combinam mediante auto-identidade contraditória.
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A identidade entre o “eu” de ontem e o “eu” de hoje não é uma combinação noemática de conteúdos objetivos, mas uma combinação diretamente noética de dois atos ou noeses, pela qual momentos temporalmente distintos constituem imediatamente um único si.
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A memória é o basho no qual o “eu” de ontem e o “eu” de hoje podem relacionar-se diretamente, sendo indispensável tanto à constituição do si quanto ao auto-despertar; até mesmo o esquecimento pertence à memória enquanto campo mais abrangente em que se determina a relação com o passado.
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No fundo da memória encontra-se uma autodeterminação do nada vinculada ao amor de si, que orienta a direção das recordações; a memória constitui sua determinação noemática e, simultaneamente, uma autodeterminação do presente capaz de englobar passado, presente e futuro.
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A continuidade da memória não pode ser fundamentada nem no cérebro, nem em conteúdos psíquicos interiores, nem numa unidade objetiva das sensações; ela depende da autodeterminação circular do nada, pela qual elementos descontínuos são reunidos em uma continuidade da descontinuidade.
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Quanto mais profundamente noética é a unidade, menos ela corresponde a uma fusão homogênea: fatos absolutos permanecem distintos e são unificados disjuntivamente, fazendo da memória e da identidade pessoal uma unidade da não-unidade originada no fundo da negação absoluta.
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Cada consciência momentânea reivindica a totalidade do si e possui caráter independente e autoexpressivo, enquanto o si as unifica negativamente; a unidade da consciência não resulta, portanto, de uma progressão temporal retilínea, mas da auto-identidade contraditória em que passado e futuro se combinam no presente.
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O “eu” de ontem e o “eu” de hoje devem ser compreendidos como personalidades livres e fatos absolutos, nenhum podendo determinar retrospectiva ou antecipadamente o outro; a personalidade consiste precisamente na unidade desses diferentes momentos que permanecem absolutamente livres.
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A unidade pessoal realiza-se quando a autodeterminação noética do nada combina imediatamente dois “eus” não objetiváveis, produzindo uma continuidade da descontinuidade; em sua raiz encontra-se o amor, graças ao qual duas personalidades livres podem constituir uma unidade sem perder sua diferença absoluta.
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Essa unidade pessoal não corresponde à continuidade objetiva, mas a uma determinação dialética que nega a própria forma da unidade objetiva; identidade pessoal e identidade objetiva orientam-se, portanto, em sentidos diferentes.
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Corpo e personalidade constituem determinações reciprocamente implicadas: a personalidade é um corpo sublimado e o corpo uma personalidade materializada, pois o verdadeiro si, embora transcenda a determinação temporal objetiva, só pode existir concretamente como individualidade corporal no mundo histórico.
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A unidade do “eu” de ontem e do “eu” de hoje fundamenta-se também na expressão atuante: ambos se encontram no mundo da expressão, e sua continuidade interior articula efetividade histórica e produção de significação mediante a unidade entre aquilo que expressa e aquilo que é expresso.
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A própria possibilidade do conhecimento depende dessa unidade disjunta e dialética, na qual cada fato se autodetermina e se unifica negando uma totalidade previamente estabelecida; a unidade interior do si é, portanto, uma unidade-basho de caráter noético, na qual a autodeterminação dos fatos precede sua síntese pelo sujeito cognoscente.
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O aprofundamento da unidade da consciência em unidade pessoal reúne como determinações essenciais a dimensão noética, a continuidade da descontinuidade, a negação absoluta, a memória, o amor e a expressão, preparando a passagem para o problema ainda mais abrangente do agora eterno, que não designará uma eternidade exterior ao tempo, mas uma estrutura inseparável do mundo histórico e do auto-despertar do nada absoluto.
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