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21 Sujeito

HEISIG, James W. Filósofos de la nada: Un ensayo sobre la Escuela de Kioto. Barcelona: Herder, 2002

Sujeito, predicado e universal

1. A chave dos textos sobre a lógica do lugar está em compreender como Nishida retoma a dialética central da intuição ativa, entre sujeito como reflexão mental e objeto como mundo intuído, reestruturando-a em termos das relações entre sujeito e predicado gramaticais nos juízos em que se dá essa colaboração entre eu ativo e mundo intuído.

2. Nishida usa o universal em três sentidos, os dois primeiros sendo o sentido lógico comum de atributo ou relação partilhada por vários indivíduos que permite agrupá-los em classe, taxonomia racional necessária para falar sensatamente, e o de potencialidade atualizada nos indivíduos, mais metafísico, indicando limites do devir das coisas e como elas e seu mundo são construídos, sem que em nenhum dos dois o universal seja “real” fora de um ser individual temporal, determinando universal e individual um ao outro apenas metaforicamente.

3. O terceiro sentido, derivado dos anteriores e mais estimulante para Nishida, é o do universal que se determina a si mesmo, visto como algo real que dá forma aos elementos do mundo, pois cada coisa real é concreta e determinada por ser expressão de uma realidade maior em formação, o universal, e a autodeterminação do indivíduo é ao mesmo tempo manifestação da autoidentidade do universal determinando-se através dele.

4. Surge a questão de relacionar essas duas autodeterminações e explicar por que nunca estão em desacordo, enigma presente desde cedo na terminologia de Nishida, mas só esclarecido com a lógica do lugar.

5. Combinando o universal ativo e autodeterminante que atua por trás do tempo histórico com os dois sentidos lógicos e com a lógica do lugar, segue-se que, assim como há classes dentro de classes, como tulipas vermelhas, tulipas, flores e plantas, pode haver universais autodeterminantes abarcados por universais mais abrangentes, como história, sociedade e indivíduo, e, havendo uma classe de todas as classes, a das coisas reais, deve haver um universal de todos os universais, realidade última que determina tudo determinando-se a si mesma, sendo a passagem de uma classe a outra o que a lógica do lugar busca captar, localizando universais em universais até situar tudo no nada absoluto.

6. Essa é a visão básica de como a realidade “obra” para ser o que é e para aparecer como aparece à consciência humana, oferecendo a lógica do lugar uma ponte do obrar ao ver que é também ponte entre a intuição da realidade como é e o juízo lógico, reflexão racional sobre essa intuição.

7. A linguagem pode parecer desesperadamente emaranhada, mas com as ideias básicas é possível desembaraçá-la e alcançar o sentido geral, como numa passagem tipicamente difícil.

8. “Os indivíduos podem ser considerados como a autodeterminação de um universal. Além disso, o próprio individual pode ser visto como um universal que se determina. Pois na lógica do concreto cada indivíduo é um universal e cada sujeito um predicado. Tudo o que é real tem esse tipo de estrutura lógica. Nesse sentido, pode-se pensar que a unidade dialética possui em si sua própria identidade, por ser uma autoidentidade.”

9. Na lógica aristotélica, a substância subjacente que dá identidade aos indivíduos é expressa como algo no interior do sujeito que impede que “o sujeito se torne predicado”, como a tulipa, da qual se diz que é vermelha ou azul, murcha ou fresca, no campo ou num vaso, sem que ela se torne atributo de outra coisa, estando a autoidentidade em ambivalência diante do universal, que determina e pelo qual é determinada, subordinada às classes mais amplas de que é membro, de modo que, se o sujeito que não pode tornar-se predicado pode ser pensado como substância sólida do mundo, “na forma tradicional do juízo o predicado que não pode tornar-se sujeito é pensado como quadro mais amplo que o do sujeito”.

10. Nishida inverte esse modo de pensar, propondo uma lógica em que o sujeito possa tornar-se predicado e o predicado universal tornar-se sujeito final, sem o que a ideia de indivíduos que se determinam e são ao mesmo tempo autodeterminação de algo exterior se desfaz em pedaços.

11. “Que algo possua sua própria identidade não quer dizer que seja unicamente uma coisa, simplesmente um sujeito que não pode tornar-se predicado. Se o fosse, não seria mais que uma assíntota ou um centro sem raio — em suma, não haveria ponto onde apreendê-lo. Para ser idêntico a si, além de ser sujeito que não pode ser predicado, deve ser predicado de si mesmo; o indivíduo deve determinar-se a si mesmo à maneira de uma predicação. Ou, inversamente, o predicado torna-se sujeito para que o sujeito se determine a si mesmo na predicação.”

12. Nos juízos comuns os sujeitos não podem tornar-se predicados sem que a gramática se desintegre em atributos sem lugar, e Nishida não o nega, mas afirma que o lugar dos juízos comuns, em que universais classificam coisas fixas, não põe em contato com o que realmente acontece, devendo-se transcender essa lógica rumo a um ponto de vista em que ela toda seja predicado de uma atividade mais próxima da realidade, o lugar da consciência, que não é mero espelho, mas modo de captar e obrar a realidade, vendo-se a identidade de cada elemento não como substância independente, mas como dependente de uma consciência que predica às coisas sua identidade, sendo o sujeito consciente o universal desses sujeitos lógicos.

13. Como a consciência pode descobrir-se no ato de obrar racionalmente, sua autoidentidade é obra própria num sentido mais pleno que o da tulipa, pois pode não só atribuir autoidentidade às coisas que intui fora de si, tornando-as sujeitos de predicação, mas também tornar esses próprios juízos sujeitos de predicação.

14. Essa é a essência da autoconsciência, em que o sujeito, “esta tulipa”, de que algo se predica, “é vermelha”, pode ser visto como predicado da consciência, que, captando-se em ação, identifica-se como indivíduo que se determina e sabe disso, não apenas eu que reflete sobre si, mas eu desperto como meio pelo qual dá identidade aos indivíduos, lugar em que o mundo alcança unidade, “universal dialético” que oferece o ambiente para que universais do juízo e indivíduos concretos interajam e se tornem reais, noese do noema.

15. Parar aqui deixaria os universais como consciência subjetiva e levaria a um idealismo ou solipsismo em que o sujeito pensante seria o absoluto, e Nishida dá outro passo, relativizando esse universal em relação a outro mais elevado e abrangente.

16. “Esta não é a autoidentidade verdadeira, pois retém o sentido de ser mais 'uma coisa'. A autoidentidade verdadeira não pode ser considerada nem como simples universal (sujeito) nem como simples individualidade (predicado). Deve ser algo que possa ser pensado ao mesmo tempo como linha reta e como círculo — isto é, um nada absoluto.”

17. Enquanto dá identidade às coisas, a consciência é seu lugar universal, mas, existindo apenas encarnada em pessoas individuais, não pode ser lugar universal de sua própria identidade, sendo a autoconsciência intrinsecamente contraditória e assintótica, como espelho que reflete espelho ou linha reta circular, e o único lugar em que essa contradição última se resolve numa identidade seria uma autoconsciência sem eu, um ver sem vidente, despertar espontâneo que autodeterminaria tudo, a localização do eu no nada absoluto, que é negação do ser como toda classe envolvente nega a ultimidade do envolvido, mas também a última classe de todas as classes, contexto de todos os contextos, “universal de todos os universais”, absoluto e nada, predicado que nunca pode tornar-se sujeito.

18. A introdução de sujeito e predicado gramaticais multiplica geometricamente as paráfrases da autodeterminação do universal, e quase ao acaso se encontram nos ensaios posteriores novas combinações desses ingredientes, mas, ainda que de modo intrincado, isso ajuda a relacionar o autodespertar como ver sem vidente com a ideia de que esse ver é autoexpressão do nada absoluto no mundo histórico do ser, que dá às coisas suas identidades e ao pensamento racional seu lugar legítimo no esquema da realidade.

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