18 Identidade
HEISIG, James W. Filósofos de la nada: Un ensayo sobre la Escuela de Kioto. Barcelona: Herder, 2002
Identidade e oposição
1. Em Investigação do bem Nishida falara de uma unidade da realidade anterior à ação dualista da mente, e com o tempo passou a falar do real em termos de autoidentidade, mudança de ênfase significativa em que, rejeitando o princípio ocidental de individuação baseado numa substância subjacente, sugere que a identidade verdadeira do individual só emerge pela coexistência de elementos opostos, dispositivo que critica a identificação habitual das coisas pela linguagem e pelas ideias, mas sobretudo, como o nada, estende-se da lógica à ontologia, assumindo o papel da substância ou hypokeimenon desde Aristóteles, autoidentidade que atua espontaneamente e aponta a natureza verdadeira das coisas.
2. Com um princípio de individuação baseado na oposição, Nishida não quer sugerir um dualismo de princípios absolutos no mundo nem nos elementos particulares, nem apenas relativizar os opostos de um ponto superior ou situá-los num processo dialético em que a oposição acabaria dissolvida, pois o único princípio unificador verdadeiro é o que permite aos indivíduos estarem, tais como são, uns com os outros em contradição absoluta, único modo de conhecer sua identidade verdadeira.
3. “Como declarou Hegel, a realidade é contraditória, e quanto mais intensa a contradição, tanto mais podemos pensá-la como a realidade verdadeira. Pois quanto mais profunda e espontânea se torna a unidade interna, tanto mais inclui em si a contradição.”
4. Como tudo na filosofia de Nishida, as questões lógicas e metafísicas respondem à questão fundamental de iluminar o eu, não buscando um ponto de vista que “transcenda” toda oposição, mas resituando-a no nível da consciência, num ponto de vista de “transdescendência”, de modo que o paradigma final da coexistência de opostos não está no cosmos, mas no autodespertar do indivíduo.
5. A ideia da totalidade como coincidência ou harmonia de opostos tem longa história na filosofia ocidental, e as oposições que levaram Nishida a adotá-la foram sobretudo sujeito/objeto e passado/futuro, falando primeiro de uma “constelação de autocontradições” e depois cunhando a fórmula mais desajeitada, mas própria, de “autoidentidade de contraditórios absolutos”, aplicada a muitas oposições e esclarecida por analogias da filosofia e do pensamento místico, embora sua presença mais difusa esteja na crescente adoção de expressões gramaticais que combinam afirmação e negação.
6. Para Nishida a autoidentidade verdadeira não tem a forma “A é A”, mas a de uma unidade de contraditórios, “quanto mais contraditórios os opostos, mais autoidentidade”, não para negar o princípio de não contradição, mas para relativizá-lo como impróprio para falar da realidade, não dizendo “A é não A”, mas algo como “A-em-não-A é A”, lógica de “nem uma coisa nem outra, mas o contrário” que merece estudo atento para não ser descartada como galimatias, embora às vezes dele se aproxime.
7. A conjunção “-em” traduz o caractere chinês soku, de conhecida ambiguidade, com sentidos como “isto é”, “ao mesmo tempo”, “ou”, “imediatamente” e “como tal”, tendo em comum o acoplamento de dois elementos em que o segundo pertence natural e evidentemente ao primeiro, sem indicar “é” em oposição a “não é” nem implicar o princípio de não contradição, não havendo razão linguística para impedir seu uso na união de elementos que na lógica comum gerariam contradição.
8. Nishida só trata explicitamente da lógica do soku em seu último ensaio, ligada à lógica budista e à correspondência inversa, mas o soku que une contraditórios não indica o tipo de relação das lógicas comuns, e Nishida não pretende dispensar as regras “A não é não A” e “B é não A”, o que o obrigaria a abandonar a argumentação racional, querendo antes dizer que A não é simplesmente A nem não A simplesmente não A, nem ambos dois aspectos de uma mesma coisa, mas que nenhum é real se não pertencerem um ao outro tais como são, o que lhe permite afirmar que “A transforma B e B transforma A” em virtude de “algo comum a ambos”.
9. Pode haver confusão porque o que Nishida chama “contraditórios” muitas vezes se parece com “contrários” ou “correlativos”: afirmação-em-negação, continuidade-em-descontinuidade, sujeito-em-objeto e ser-em-nada são cópulas de contraditórios que não podem estar na mesma coisa sem ofender a lógica, ao passo que eu-em-outro, morte-em-vida e um-em-muitos partilham uma base comum, como o encontro humano, a criatividade, a vontade ou a totalidade, sendo correlativos que se requerem mutuamente e exigem um meio ou universal para serem compreendidos, como na lógica dialética, sem nada logicamente “contraditório”.
10. Surpreendentemente, Nishida parece ter optado pelo primeiro sentido, pois, embora falasse do mundo histórico como processo dialético, sua ideia do nada absoluto como explicação última de por que as coisas são e são como são exigia formulação lógica distinta, enquanto em Hegel a convicção da identidade última de ser e consciência, um desenvolvendo-se do outro, permitia ir além da mediação dialética e ver a contradição lógica como expressão dessa evolução.
11. Algo disso há em Nishida, cuja afirmação-em-negação segue o padrão hegeliano de uma negação que esclarece o sentido de uma afirmação, mas ele não se compromete a ver a dialética nos acontecimentos históricos singulares nem conclui que toda contradição seja manifestação de uma unidade mais profunda, escolhendo exemplos que iluminam como a consciência cai na dicotomia sujeito/objeto e dela se levanta, ou que apontam a contradição básica entre ser e nada, com abordagem epistemológica no primeiro caso e ontológica no segundo.
12. Epistemologicamente, a conjunção de contraditórios absolutos chama atenção para os limites da linguagem e das formas lógicas diante do significado total da experiência consciente, pois como sujeito interessa “o que” a coisa é, distinguida pela linguagem e pela lógica de toda interferência e de outras coisas, mas atentar para o simples fato de “que” é experimentada exige abandonar a objetividade desinteressada e considerar como afeto, vontade, memória e preconceito se entrelaçam no conhecer, bem como a relação da coisa com as demais, abstraída nos juízos sobre o “que”, quebrando-se os juízos claros de afirmação e relação, pois uma identidade da experiência que inclua experimentador e experimentado transborda as regras da linguagem.
13. Dizer que a linguagem é inadequada não significa que a fórmula da autoidentidade de contraditórios absolutos seja melhor que a expressão poética ou artística, em que a realidade flui sem modelos de afirmação ou negação, de modo que sua justificativa deve ser buscada em outro lugar.
14. O motivo ontológico funda-se no princípio metafísico de que, se cada coisa relativa está situada no fundamento absoluto de um nada, sua identidade é automaticamente coincidência de relativo e absoluto, esclarecendo-se que a autoidentidade não realça um elemento ou atributo da realidade, mas afirma que a identidade própria de cada coisa não se deve a um princípio substancial interno, e sim à localização do mundo relativo do ser num absoluto do nada.
15. As duas motivações não são paralelas, mas concorrentes, pois a coincidência de contraditórios e contrários no mundo do ser mostra ao mesmo tempo a dificuldade da consciência e da linguagem em aceder aos fatos crus da experiência e um microcosmo da dialética última de ser e nada, sendo a forma lógica da autoidentidade de contraditórios absolutos outra versão do protótipo da consciência humana como reflexo de como é a realidade.
