13 Absoluto como vontade
HEISIG, James W. Filósofos de la nada: Un ensayo sobre la Escuela de Kioto. Barcelona: Herder, 2002
1. Antes de concluir Investigação do bem, Nishida interessou-se pelos neokantianos de Friburgo, Windelband e Rickert, e por Husserl, que via como aliados na discussão dos valores teóricos a partir da experiência pura, conjectura que se revelou equivocada, pois uma longa crítica de um jovem professor ligado a essa corrente distinguiu valores e significados do mundo dos fatos, e a resposta igualmente longa de Nishida, somada a certo descontentamento por não estar atualizado, convenceu-o a enfrentar essa literatura diretamente.
2. Nishida deixou então a luz ofuscante da experiência pura e entrou num labirinto escuro de túneis, do qual só sairia seis anos depois, produzindo sobretudo os ensaios reunidos em A intuição e a reflexão no autodespertar, que um tradutor inglês chamou “o diário público de uma educação filosófica”, ao fim do qual reconheceu a derrota, dizendo ter quebrado a lança, esgotado a aljava e capitulado no campo inimigo do misticismo, e ainda trinta anos depois duvidava que o livro merecesse nova edição.
3. Mais importante que o desenvolvimento do ponto de vista, que parte da experiência imediata como autoconsciência e termina num monismo da vontade livre absoluta, é a persistência de um método que orientaria o pensamento futuro de Nishida: reduzir cada dualismo a uma realidade imediatamente experimentada e restituir as divisões à unidade original, num experimento que testa a utilidade da experiência pura no discurso filosófico.
4. O foco é o conhecimento de um absoluto único e abrangente manifestado na mente consciente, partindo das funções aparentemente contraditórias que esse conhecimento exige: como intuição, captar a realidade em fluxo sem interrupção de sujeito ou objeto, e como reflexão, sair do fluxo para reconhecê-la, como estar ao mesmo tempo em terra e no mar, pois sem a terra do sujeito o conhecer afunda no oceano da intuição indiferenciada e sem o oceano só se conhece o que se pensa da realidade, propondo Nishida o autodespertar, em que se é ao mesmo tempo sujeito e objeto, como uma jangada à deriva no mar, sem vela nem leme, em busca do absoluto.
5. Dessa jangada Nishida busca mostrar que as oposições da reflexão sobre a experiência, fato e valor, matéria e espírito, eu e outro, sujeito e objeto, conhecimento e volição, passado e futuro, ser e não ser, podem ser apreendidas como a coincidência de opostos visível no ato do eu que se conhece, submetendo-se para isso ao pensamento neokantiano, com o eu ativo de Fichte e o vitalismo de Bergson como contraponto, e terminando num retorno abrupto à vontade, antes associada à força “motivacional” da vida.
6. A vontade torna-se princípio absoluto no centro do eu autoconsciente, pois a autorreflexão, sempre presa ao tempo e objetivada no conhecimento, nunca alcança o eu verdadeiro, ao passo que a vontade, entendida como impulsividade da própria vida e não como livre-arbítrio do sujeito, transcende a temporalidade permanecendo ancorada na realidade do presente.
7. “Como vontade não objetivável, como sujeito verdadeiro, o eu pode tornar presente o passado… A vontade é reflexão absoluta, o ponto unificador de possibilidades infinitas… E, por ser sempre concreta, a vontade, diferentemente do conhecimento, é criativa.”
8. A vontade como absoluto é não só base do eu, mas princípio da própria realidade, o que permite encerrar a viagem sem naufragar na objetividade pura nem virar no mar da subjetividade pura, como se Nishida, deitado na jangada, tivesse visto no abismo escuro do céu outra dimensão, da qual fala com a linguagem contraditória dos místicos e gnósticos, da arte e da religião, uma vontade livre absoluta que subsume as vontades individuais e toda a realidade, “um a priori subjacente a todos os a priori, uma atividade subjacente a todas as atividades”.
9. Essa resposta não o satisfez, deixando-o mais ou menos onde Investigação do bem o deixara, agarrado à toga de filósofo, mas envolto no abraço oceânico do sentimento religioso, reaparecendo Bergson ao fim para reabrir as janelas ao ar fresco da “vida” sufocada pelo Lebensferne neokantiano, e Nishida sentiu ter cumprido suas obrigações de estudante rigoroso da filosofia atual, ficando livre para usar o aprendido e saltar para uma filosofia mais adequada à ponte entre Ocidente e Oriente que queria construir.
10. A partir daqui convém abordar diretamente as ideias maduras de Nishida, sem datá-las nem seguir rigorosamente seu desenvolvimento, deixando de lado as menções passageiras delas nos dois primeiros livros para não ler neles demais.
