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Mundo da vida como paradigma

STEIN, Ernildo. As ilusões da transparência: Dificuldades com o conceito de mundo da vida. Ijuí: Editora Unijuí, 2012.

Mundo da vida como elemento paradigmático na formação de estilos de filosofar

1. A diferenciação do conceito de mundo da vida ocorre fundamentalmente por dois caminhos, sendo o primeiro deles o uso independente de estilos de pensamento ou paradigmas filosóficos, quando o conceito surge com interesses teóricos de epistemologia ou de fundamentação da própria Filosofia.

2. Torna-se necessário distinguir o uso do conceito de mundo da vida independentemente de sua origem e de seu paradigma filosófico, para depois reconhecer que, apesar de uma aparente neutralidade, ele possui vertente concreta dentro de determinado estilo de pensamento.

3. Deve-se distinguir se um filósofo utiliza o conceito de mundo da vida como recurso disponível no reservatório geral de conceitos filosóficos ou se seu uso decorre de um parentesco teórico geneticamente vinculado a determinado paradigma filosófico.

4. O uso do conceito de mundo da vida por filósofos que o escolhem simplesmente por acharem-no interessante pode ser enumerado quase ao infinito, ainda que restrito basicamente ao campo da Filosofia e das Ciências Humanas.

5. No contexto das Ciências Humanas, o conceito de mundo da vida encontra aplicação na Sociologia compreensiva, na Psicologia, na Antropologia e mesmo na Filosofia do Direito, campo em que a formação de normas jurídicas, a criação de leis pelo legislador e sua aplicação pelo juiz encontram-se enraizadas em determinado conceito de mundo da vida.

6. Distingue-se, no campo das Ciências Humanas, o uso do conceito de mundo da vida por ciências que tratam mais diretamente da questão do ser humano daquele feito por ciências voltadas às expressões humanas como Direito, Literatura, Economia e Política.

7. O uso mais ou menos indiscriminado do conceito de mundo da vida apresenta dificuldade pela superposição de dois sentidos distintos: um sentido de horizonte ou conceito-limite, próximo ao desenvolvido por Husserl, e outro sentido, destacado por Habermas, referente ao lugar dos recursos concretos com que trabalham a Filosofia e as Ciências Humanas.

8. Habermas faz uso explícito do segundo sentido do conceito de mundo da vida, atribuindo-lhe a função de lugar de recursos, de reflexão e de alimentação da cultura, da sociedade e da personalidade, constituindo um fundo inesgotável no qual se movimenta a própria imanência do ser humano.

9. O ser humano não pode arrancar suas raízes deste fundo, do qual depende tanto do ponto de vista da cultura quanto da sociedade e da personalidade, evidenciando-se a funcionalidade dupla do conceito de mundo da vida como horizonte e como fonte alimentadora da reflexão filosófica.

10. Em Habermas, a validade de determinadas formas de argumentação depende daquilo que denomina situação ou contexto de referência, mostrando que a racionalidade se multiplica e assume formas diferentes conforme mergulha no mundo da vida concreto, afastando-se assim a racionalidade habermasiana da ideia de razão em sentido hegeliano ou marxiano.

11. Recapitula-se a diferenciação dos usos do conceito de mundo da vida quanto à origem — como parte do repertório geral de conceitos filosóficos ou como ligado a determinadas escolas e paradigmas — e quanto aos dois níveis identificados no âmbito da Filosofia e da epistemologia das Ciências Humanas: o de horizonte e o de conceito-limite alimentador da cultura, da sociedade e da personalidade.

12. O uso indiscriminado do conceito de mundo da vida como recurso teórico esquece a função fundamental para a qual foi concebido, que era encobrir ou superar uma crise da Filosofia e das Ciências Humanas, como evidencia o próprio título husserliano A crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental.

13. Quem utiliza o conceito de mundo da vida como recurso extraído de um fundo de reservas conceituais tende a esquecer sua ideia fundamental de crise, dividida em crise de fundamento na Filosofia, que perdeu seus fundamentos metafísicos últimos, e crise nas Ciências Humanas, que jamais tiveram fundamento suficiente comparável ao das ciências empírico-matemáticas.

14. As Ciências Humanas buscam no conceito de mundo da vida o recurso último de onde extraem, direta ou indiretamente, a formação de seus conceitos, não podendo esquecer-se de que se trata de um conceito de Filosofia e de Ciências Humanas em crise.

15. O nascimento das Ciências Humanas ocorre em torno do conceito de mundo da vida, encontrando nele uma unidade de fundamento à qual se pode sempre remeter a origem de seus conceitos, sendo o conceito de crise fundamental e não podendo ser utilizado de maneira indiscriminada e desvinculada de sua origem.

16. O conceito de crise remete também a uma ideia de regresso ou retorno a uma situação concreta, o que caracteriza o mundo da vida como conceito próprio de uma Filosofia concreta, respeitosa da historicidade, aparecendo esse sentido menos em Husserl do que em Merleau-Ponty e nos filósofos que continuaram a utilizar o conceito após os fundadores da fenomenologia.

17. O conceito de mundo da vida alimenta as Filosofias concretas, que buscam respeitar o fator histórico de modo mais próximo da vida e da historicidade, conferindo às ciências uma origem filosófica mais forte do que se fosse tomado apenas como recurso de uma época em crise.

18. O conceito de mundo da vida caracteriza-se como um a priori concreto, de caráter transcendental, não podendo ser desenvolvido a partir de uma experiência simples nem extraído de descrições de experiências determinadas, mas fundado num radical ou arcaico consenso estabelecido pelo lugar estruturante e indepassável em que o ser humano se enraíza, distinguindo-se assim do a priori subjetivo residente no sujeito.

19. A segunda parte a ser respeitada no conceito de mundo da vida é aquela que o identifica como marca de certos tipos de pensamento, estilos de filosofar e paradigmas filosóficos, aspecto tratado com maior atenção em relação ao anterior.

20. O conceito de mundo da vida caracteriza a maneira concreta pela qual filósofos desenvolvem seu trabalho teórico com escolhas que marcam seu estilo de filosofar, configurando um modo implícito de ligar Filosofia e Ciências Humanas.

21. O conceito de mundo da vida nasce de uma Filosofia da vida que trata a vida como tema objetivo da Filosofia, sendo necessário separar o lugar em que esse conceito aparece.

22. O conceito de mundo da vida pode também aparecer no âmbito da epistemologia, quando filósofos de determinada tendência submetem a investigação a uma reflexão fundamentada em bases metodológicas e críticas, distinguindo-se assim o uso do conceito pelos metafísicos da vida do uso feito pelos epistemólogos.

23. Há ainda um terceiro uso do conceito de mundo da vida, de caráter não epistemológico mas gnosiológico, importante não tanto nas teorias das ciências quanto nas próprias teorias do conhecimento.

24. Como elemento de teoria do conhecimento, o conceito de mundo da vida remete não à consciência ou à representação, mas à ideia de mundo enquanto parte da noção de ser-no-mundo (In-der-Welt-sein) e de ser humano como formador de sentido.

25. Nesse sentido, a teoria do conhecimento é substituída por uma descrição fenomenológica do modo de ser-no-mundo, remetendo-se o problema do conhecimento mais radicalmente à historicidade, numa situação anterior à relação sujeito-objeto, superando-se assim o esquema das Filosofias da representação.

26. O conceito de mundo da vida articula-se, portanto, entre uma metafísica da vida, uma epistemologia das Ciências Humanas e uma teoria do conhecimento que busca sua própria superação mediante a analítica existencial heideggeriana, em que o conhecimento passa a ser um existencial e a fenomenologia se torna anterior à teoria do conhecimento.

27. Questiona-se por que o conceito de mundo da vida aparece nesse segundo flanco teórico, e não tanto naquele em que se aproxima de conceitos discutidos no âmbito lógico-semântico, estilo próprio de um filosofar que alinha conceitos num repertório consciente e responsável, sem privilegiar sua origem histórica.

28. A epistemologia tende a manusear os conceitos filosóficos de modo indiscriminado e indiferenciado, procedimento considerado altamente simplificador, pois os conceitos carregam elementos de valor e validade que lhes conferem uma carga valorativa além da mera função formal.

29. Uma epistemologia autêntica deveria trabalhar com conceitos reconhecendo sua dupla dimensão de origem, pois desrespeitar o lastro histórico de referência de um conceito significa desrespeitar também seu próprio lado formal, que só é formal enquanto sustentado por essa referência.

30. Questiona-se até que ponto Habermas estaria inclinado ao nivelamento epistemologizante do conceito de mundo da vida, remetendo-se à crítica de Dieter Henrich sobre o uso não justificado que Habermas faz do conceito, ao ter de distinguir entre mundo da vida como horizonte formal e como fonte alimentadora com conteúdos historicamente determinados.

31. Os filósofos que utilizam o conceito de mundo da vida segundo estilos e paradigmas filosóficos têm a convicção de que filosofar não é algo indeterminado e geral, mas significa possuir um estilo e um modo de trabalho próprios, marcando-se historicamente e diferenciando-se de filósofo para filósofo.

32. No nível lógico-semântico, o estilo de análise e argumentação deve ser universalizável, pois a tarefa da epistemologia é justamente retirar o filósofo de seu isolamento e de sua incomunicabilidade privada mediante um trabalho conceitual limpo e universal.

33. Ainda que os elementos lógico-semânticos sejam sempre necessários à análise de um texto filosófico, reduzir a Filosofia apenas a conceitos, raciocínios, proposições e inferências significaria não fazer propriamente Filosofia, pois há nela um elemento fundamental que consiste em reportar o vivido.

34. Reportar o vivido significa reconhecer que o trabalho teórico de cada filósofo — Descartes, Kant, Hegel, Heidegger — se dá sobre um fundo histórico, político, social, econômico e ideológico que os distingue entre si.

35. A Filosofia constitui simultaneamente discussão lógico-semântica e reportar do vivido, delimitando este último os problemas, as soluções e a linguagem próprios de cada filósofo, situado, como Descartes, pelo princípio epocal de seu tempo.

36. A procedência filosófica de cada pensador marca-se por dois estilos de referência ao discurso filosófico: o discurso lógico-semântico e aquele que concebe a Filosofia como trabalho analítico voltado à redução dos conceitos ao caráter universal.

37. Além da função simplificadora, niveladora e epistemológica, a Filosofia tem a responsabilidade de reportar o vivido, marcado pelos problemas, soluções, linguagens, interdições e ideologias de seu tempo, não existindo propriamente o filósofo desenraizado ou atemporal.

38. Mesmo o epistemólogo que pretende total atemporalidade entra na história da Filosofia por um problema que não é de ordem lógico-semântica, mas pela maneira como enfrentou os tabus de sua época, revelando-se aí também o vivido que representa.

39. Existe, por vezes, uma tentativa de desenraizar o pensamento filosófico mediante análise puramente lógico-semântica, justamente para evitar compromisso com o contexto social, político ou histórico do mundo da vida.

40. Ainda que não se atribuam intenções excessivas aos filósofos que assim procedem, reconhece-se que a fuga ao compromisso constitui, ela mesma, uma forma de compromisso, mostrando o filósofo desenraizado suas próprias raízes ao tentar ocultá-las, como ocorre entre positivistas ou racionalistas críticos que optam por métodos que os eximem de determinadas questões, ou por simples amor a um purismo.

41. Stegmüller denomina de poluição semântica o ruído predominante na Filosofia voltada ao mundo da vida e no campo das Ciências Humanas em geral, em que o aumento dos debates corresponde a um efeito mais poluidor do que esclarecedor, produzindo incomunicação em vez de comunicação.

42. As tendências concretas da Filosofia associadas ao conceito de mundo da vida, embora nem sempre pareçam marca das melhores Filosofias, tiveram consequências extremamente importantes, sem que o conceito se restrinja exclusivamente às Filosofias da vida, ainda que estas — em Dilthey, Ranke, Droysen, Graf von Wartemburg e, em certo sentido, Heidegger — sejam largamente responsáveis por sua origem histórica.

43. Mesmo em Husserl, inventor do conceito de mundo da vida, não foi uma busca de completude sistemática que o levou ao conceito de Lebenswelt, não sendo esse conceito, na tradição filosófica europeia do século 20, independente de filósofos neokantianos como Rothacker, Blumenberg, Gadamer e Apel.

44. Importa saber discriminar os usos do conceito de mundo da vida, remetendo-o a um pano de fundo histórico e às origens dos conceitos utilizados, sob pena de um filosofar irresponsável que não presta contas de suas raízes e motivações.

45. Filosofar de maneira universal, abstrata e desligada de seu tempo revela-se tarefa complexa, ainda que aparentemente mais fácil, por dispensar a prestação de contas das próprias condições e raízes.

46. O filósofo contemporâneo enfrenta dois tipos de problema da verdade: a definição trivial de verdade, como a definição semântica tarskiana, e a verdade como tarefa a se construir, distinção evidenciada por Habermas ao discutir a validade como verdade e a validade como certeza guiadas pelo consenso.

47. A concepção da verdade como tarefa ultrapassa a definição puramente formal e semântica, demonstrando que a Filosofia jamais definiu de uma vez para sempre o lugar do filosofar, possuindo, além de conceitos e formas de argumentação próprios, teorias da verdade que serão aprofundadas para garantir seu uso correto.

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