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Gênese do mundo da vida

STEIN, Ernildo. As ilusões da transparência: Dificuldades com o conceito de mundo da vida. Ijuí: Editora Unijuí, 2012.

Gênese de mundo da vida: mundo e significância

1. A continuidade da introdução ao conceito de mundo da vida retoma o contexto da justificação transcendental e a origem do conceito em Husserl, buscando agora identificar o aspecto imprescindível para que a Filosofia funde a racionalidade das Ciências Humanas, questionando o valor de proposições que apenas apontem características do mundo da vida, sem pretensão de defini-lo teoricamente.

2. O mundo da vida não constitui um objeto, nem soma de elementos naturais ou culturais, nem substância metafísica de caráter supraempírico, tratando-se de um conceito introduzido na Filosofia sobretudo nos anos 20, amplamente utilizado nas Ciências Humanas, cujo caráter transcendental ou a priori permanece, contudo, insuficientemente identificado.

3. Embora o mundo da vida possa ser tomado como representação de um sujeito ou de um conjunto de sujeitos, ligada à subjetividade humana, propõe-se defini-lo desde um ponto de vista que respeite seu caráter transcendental sem remetê-lo à subjetividade como lugar de sustentação, de modo que o conceito não fique vinculado a um eu que representa, ainda que isso implique certo desamparo metodológico ao renunciar-se ao ponto de partida subjetivo habitual da análise dos conceitos transcendentais.

4. Um método fenomenológico descritivo permite afirmar que o conceito de mundo da vida simplesmente se impõe, invencivelmente, como ponto de referência último, sobretudo num tempo de perda dos conceitos metafísicos e transcendentes paralelos ao mundo empírico, perda que conduz à busca de uma base alternativa para a racionalidade das Ciências Humanas.

5. A questão do mundo da vida deve ser colocada independentemente de uma análise da consciência, distinguindo-se uma maneira natural de ser junto às coisas de uma outra maneira que não é natural, exigindo-se um conceito de mundo anterior aos conceitos de natureza, objeto, sujeito e substância, portanto anterior à própria relação sujeito-objeto, sem que se pretenda com isso desqualificar tal relação enquanto modo de conhecimento empírico e das Ciências Humanas.

6. A condição de possibilidade buscada exige uma mudança na representação da unidade homem-mundo, deixando de reproduzir o esquema consciência-mundo ou representação-mundo em favor de uma relação homem-mundo da qual não se consegue sair, relação em que o ser humano nasce e desde a qual passa a ter consciência e a se relacionar com pessoas e coisas, constituindo o mundo um emergir do humano, pensado por Heidegger como ser-no-mundo (In-der-Welt-sein).

7. Um caminho de acesso à questão substitui a noção de conhecimento pelas noções de encontrar, deixar-ser ou fazer ver, deslocando o interesse da relação objetiva entre sujeito e objeto para aquilo que constitui os seres humanos como situados num espaço de encontro que pode ser descrito como mundo, sem que isso implique eliminar a condição do homem como ser posto entre as coisas e em relação com a natureza.

8. Uma atitude de preocupação (Sorge) com o lugar que se ocupa, com as coisas que rodeiam e com a existência que se projeta representa o modo como já sempre se está prevendo e provendo algo, envolvimento que pressupõe um modo de ser do qual não se consegue desvincular.

9. A percepção de que se estava ligado às coisas de modo não intencional, não consciente e não representado torna-se evidente justamente no momento em que essas coisas faltam, como ao notar a ausência de uma cadeira ou de uma cama num quarto, evidenciando um estado positivo de vinculação que não se reproduz conscientemente por meio de uma teoria dos objetos.

10. O modo cotidiano de agir diante dos objetos revela uma sintonia invisível e não consciente pela qual se percebe o sentido familiar das coisas que vêm ao encontro — como reconhecer num ônibus cheio de gente um simples veículo de transporte, e não uma ameaça —, evidenciando uma compreensão geral de significado que não precisa ser reconstruída a cada vez.

11. Quanto mais este mundo familiar se amplia e se automatiza, menor o desgaste exigido para nele viver, ao passo que a necessidade crescente de justificar racionalmente o sentido e a utilidade das coisas aumenta o cansaço e aproxima da dificuldade de suportar a existência no mundo, exigindo múltiplos raciocínios para superar essa estranheza.

12. Teorias que aproximam o comportamento humano do animal, mediante Psicologia comparativa e esquemas de estímulo-resposta, descrevem apenas um aspecto superficial e aparente do ser-no-mundo, pois o que efetivamente sustenta essa realidade é uma outra maneira de ser-no-mundo, não natural, antecipadora ao mundo natural e imprescindível para suportá-lo.

13. A necessidade humana de instaurar significados, nomear e classificar as coisas, sobrevivendo mediante a instalação ao redor de coisas nomeadas, conduz à questão de como, neste mundo familiar, radica o modo próprio de existir, e de como nele se enraíza e emerge a questão do significado em relação a objetos, pessoas, planos, fantasias e projetos futuros.

14. O modo de ser-no-mundo pode ser analisado a partir da relação do ser humano com instrumentos, utensílios e artefatos, aos quais os órgãos sensoriais se acoplam significativamente, organizando-se a existência humana em torno de um universo de utensilidade, instrumentalidade e manufatura que remete ao universo prático e físico.

15. A condição de possibilidade do corpo humano dotado de sentidos situa-se num espaço anterior onde já se encontra a capacidade de entender, fabricar e ampliar instrumentos, ligando-se ao conceito de mundo os conceitos de instrumento, artefato, utensílio e obra, configurando o mundo como uma espécie de oficina ou lugar de operações desde onde o ser humano se compreende operando.

16. O preocupar-se, o prever, o prover e o planejar não podem ser desligados deste operar e trabalhar com artefatos, de modo que o conceito de mundo traz consigo uma dimensão prática que inclui o manejar, o manipular e o trabalhar com instrumentos.

17. Desde este mundo do preocupar-se e do lidar com utensílios o ser humano se compreende a si mesmo por meio de uma pré-compreensão que não se explicita teoricamente, mas que revela o ser humano como portador de qualidades, ideias, projetos, sonhos e temores.

18. Este compreender-se primeiro, segundo Heidegger, é cooriginário com os demais modos de ser, de modo que toda relação com pessoas, animais ou natureza só é possível porque já se está enraizado neste modo de ser-no-mundo, do qual decorrem, igualmente, todas as teorias e todo conhecimento representacional.

19. Existe uma espécie de representação prática e não intelectual do todo, anterior à representação subjetiva, pela qual o ser humano já se encontra organizado no mundo e pode ampliar essa organização a partir de um modo global de perceber as coisas.

20. Para compreender o conceito de mundo como determinante de um conceito de mundo da vida não puramente subjetivo, é necessário perceber que a vida não é um processo puramente natural, mas se articula, estrutura e totaliza enraizada neste mundo, de modo que mundo da vida designa o último lugar alcançado na busca da fundamentação do conhecimento, enquanto mundo articulado com a vida.

21. A vida não se reduz a um trânsito biológico ou fisiológico, constituindo-se necessariamente a partir de um operar, de um preocupar-se, de um dar sentido às coisas e de um compreender-se em função de uma totalidade, de modo que o conceito de mundo passa a ser o lugar onde se instala a significância (Bedeutsamkeit).

22. A significatividade ou significância constitui a origem ou o lugar de onde nascem significados, significantes e significações, ainda que o significar consciente já corresponda a operações ligadas à subjetividade, pela qual o sujeito atribui nomes e organiza um universo semântico e cultural.

23. O mundo da vida, enquanto lugar onde a vida radica e de onde emerge a significância, constitui a condição de possibilidade de todas as significações, sendo uma qualidade própria desse mundo o fato de nele ser possível compreender, comunicar, simbolizar e atribuir significados.

24. O uso de instrumentos, aos quais se atribui destinação e sentido, implica uma compreensão anterior à compreensão explícita, de modo que o comportamento humano ligado ao mundo provém fundamentalmente de já se saber “para que serve” (um “para quê” coconstituído com o próprio ser-no-mundo), permitindo manejar as coisas com menor custo pessoal por acionar aspectos já familiares do modo de ser.

25. O conhecimento prático pressupõe um “mundo prático” anterior à aprendizagem teórica do uso de objetos, mundo que integra o mundo da vida e antecede a ligação consciente e explícita com o que rodeia o ser humano, seja coisas, pessoas ou conhecimentos.

26. Perguntas recorrentes sobre a qualidade, origem e limites deste mundo — quem o produz, quando começa e termina, por que a ele se está ligado — encontram resposta na constatação de que o ser humano nada compreende sem esse mundo, o qual se constitui na medida em que o ser humano se compreende enquanto é.

27. O compreender-se enquanto se é vincula o ser humano a este mundo como tendo de cuidar de si e dele, cuidado que implica lidar com instrumentos, estudar a natureza e ter-se nas mãos sob diversos pontos de vista, constituindo-se o mundo como totalidade prática apanhada como sentido que só desaparece quando se perde este mundo.

28. Não havendo prova a posteriori de como seria a perda deste mundo, sabe-se apenas que ele constitui condição de possibilidade tanto do conhecimento científico quanto do conhecimento filosófico, ligando-se à vida enquanto esta se articula em estruturas de “para quês” e “porquês”.

29. Heidegger distingue dois tipos de entes: os entes puramente subsistentes (objetos naturais, vorhanden) e os entes disponíveis ou “à mão” (zuhanden), sendo o modo de ser-no-mundo fundamentalmente prático e voltado antes para os entes disponíveis que compõem o universo da instrumentalidade e da manualidade.

  • Os entes puramente subsistentes são aqueles desligados do sujeito, que simplesmente são, por si.
  • O lidar com os entes disponíveis constitui uma das características básicas do ser humano, integrando aquilo que a terminologia heideggeriana chama de existenciais, constitutivos da existência (Existenz).

30. O privilégio humano de relacionar-se com entes disponíveis, instrumentos e artefatos manufaturados torna o ser humano um ente não natural, que não age por simples relação estímulo-resposta, trazendo desde o mundo da vida, onde se instala a significância, a munição suficiente para responder ao mundo e envolver na compreensão aquilo que percebe antes mesmo de reagir a estímulos.

31. Três modos fundamentais de subsistência compreensiva completam a maneira fundamental de ser-no-mundo: o conhecer e explorar os entes naturais puramente subsistentes, o lidar com entes disponíveis, e o preocupar-se em direção da própria existência, este último implicando um universo múltiplo de relações consigo, com os outros e com as coisas, no qual se revela o elemento da socialidade.

32. Esta maneira de ser-no-mundo possui caráter transcendental enquanto condição de possibilidade não subjetiva, não dependendo de uma representação de sujeito reflexivo, mas assumindo caráter prático e coletivo do qual não se consegue eximir, evidenciando-se aí a percepção de não se poder ser de outra maneira, o chamado “ter-que-ser” (Zu-sein) heideggeriano.

33. O “ter-que-ser” é modulado pelo aí (Da), sendo um “ter-que-ser” compreensivo, ligado à significância, que se compreende a si mesmo antes da reflexão sem nela se esgotar, e que não abrange a compreensão da própria morte, a qual sobrevém de outra maneira, não como objeto passível de compreensão direta.

34. O mundo da vida assume caráter prático e mesmo ontológico, não havendo outro modo de acesso ao ser como totalidade senão pela compreensão prática do ser humano como ente autorreferido existencialmente, que cuida de si e por isso é ser-no-mundo.

35. O mundo da vida constitui o pano de fundo sobre o qual e no qual tudo isso opera, coincidindo mundo e mundo da vida, neste sentido, com a própria condição do ser humano, de modo que as proposições sobre ele não pertencem à ordem do experimentável, do empírico ou do verificável como verdadeiro ou falso, mas configuram uma descrição pela qual se busca a legitimidade das proposições sobre o mundo empírico em que se vive e trabalha.

36. A qualidade fundamental do conceito de mundo da vida consiste em permanecer presente, não tematicamente, em todas as tematizações praticadas, constituindo-se como aquilo que, sem jamais ser tematizado diretamente, é condição de possibilidade de toda tematização.

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