Diálogo
STEIN, Ernildo. As ilusões da transparência: Dificuldades com o conceito de mundo da vida. Ijuí: Editora Unijuí, 2012.
Diálogo ou as ilusões da transparência
1. A crise das teorias da consciência ou seu impasse definitivo revela-se uma das vertentes do racionalismo da linguagem
1. A crítica da Escola Histórica, sobretudo de Dilthey a Hegel, rompe com o idealismo alemão e com o racionalismo das Filosofias da consciência, religando-se, contudo, a uma tradição que remonta a Vico e Humboldt, designada humanismo da linguagem, à qual se vincula Heidegger em Ser e tempo e que Gadamer resume, em Verdade e Método, na fórmula de que o ser que pode ser compreendido é linguagem.
2. Essa superação do racionalismo das Filosofias da consciência não impede que ele se reinstaure sob a forma de um racionalismo da linguagem, quando a questão da linguagem, levantada pela hermenêutica, converte o discurso hermenêutico, ancorado na história contingente e circular, em esfera universal onde todo o real deveria penetrar para tornar-se cognoscível, privilegiando-se a compreensão como diálogo.
2. As diversas Filosofias do diálogo querem apresentar uma saída do monologismo da razão
3. As Filosofias do diálogo pretendem reorientar a questão da intersubjetividade, situando a ponte entre razões individuais no sentido, na palavra, no discurso e numa totalidade histórica contingente sobre a qual opera livremente o processo da compreensão, tomando o jogo da pergunta e da resposta como esquema fundador de uma nova racionalidade.
4. A crítica hermenêutica às Filosofias da consciência visa libertar o trabalho filosófico do monólogo da razão, apelando à estrutura de diálogo, tanto pela ideia de mundo da vida quanto pela socialização da subjetividade, substituindo a prestação de contas de uma razão objetivante pela experiência hermenêutica que se aciona mediante regras de aplicação simultaneamente verdade e método, incorporando os limites apontados por Marx, Nietzsche e Freud.
3. Crítica do “cogito” e das ilusões de transparência da consciência de si, o diálogo passa a legitimar o “cogitamus ergo sumus”
5. O diálogo desenvolvido pela hermenêutica incorpora não apenas os limites impostos pelas condições históricas à razão, enquanto totalidade de sentido pré-dada, mas também as condições materiais e econômico-sociais que condicionam a atividade teórica, tornando-se a única alternativa para superar a solidão do individualismo cartesiano.
6. Como instância crítica do cogito, o diálogo aponta as ilusões da transparência da consciência de si, atingindo a hegemonia da consciência naquilo que constitui sua autossuficiência: o esquecimento do enraizamento histórico e do discurso como condição de possibilidade da razão, legitimando-se o discurso como necessariamente coletivo, permanecendo em aberto a questão de se o diálogo se sustenta numa normatividade histórica pré-dada ou num ideal regulador antecipado como norma do discurso e da interação.
4. A razão é linguisticizada, convertida em razão dialogal, prática
7. Afirma-se o autismo da consciência de si e sua incomunicabilidade caso não passe pela proposição, sendo a razão compreendida como linguagem, operável apenas mediante o jogo de linguagem (Sprachspiel), do que resulta a estrutura do diálogo como forma universal de comunicação e elemento universalizador da prática teórica, importando sobretudo saber perguntar e responder.
8. Essa condição de acesso ao mundo canalizado pela lingualidade revela o enraizamento humano na tradição e na historicidade, citando-se a afirmação de Hottois de que a linguagem não é instrumento de uso ocasional, mas o elemento no qual se vive e que não pode ser convertido inteiramente em objeto exterior.
5. Suprime-se em nome da comunidade do diálogo a postura teórica e a reflexão, para dar lugar ao discurso hermenêutico e/ou retórico
9. A razão sofre transformação essencial ao situar-se num espaço público dominado pelos conceitos de comunicação e intersubjetividade, deixando a postura teórica e a reflexão de constituir condição para decidir sobre a verdade e o erro, tornando-se a verdade produto de consenso testado publicamente pela comunidade do diálogo.
10. O proprietário de uma proposição deve submetê-la às condições heterônomas do espaço público de comunicação e intersubjetividade, restando apenas duas atitudes possíveis diante desse espaço — convertê-lo em objeto de crítica ou aceitar suas regras —, prevalecendo a aceitação do jogo e suprimindo-se os elementos da teoria, do monologismo e da introspecção.
11. Elidida a questão do começo absoluto pela afirmação de que “somos um diálogo”, a verticalidade da reflexão cede lugar à horizontalidade hermenêutica, discurso sem começo nem fim que se espraia no espaço público de uma intersubjetividade já sempre dada, tornando-se instrumento para dirimir controvérsias científicas e estabelecer comunicação transparente.
6. Em nome de uma nova transparência: diálogo universal, comunicação sem repressão, antecipação do discurso ideal, hermenêutica cartesiana
12. A crítica ao solipsismo metódico da razão fez o diálogo e suas variantes dominarem espaços essenciais da Filosofia, equipando-se de elementos da Sociologia e da Linguística, substituindo o racionalismo dialógico ao racionalismo das teorias da consciência e ao racionalismo da linguagem, na busca de uma nova transparência.
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A ideia de um diálogo universal apresenta-se como pressuposto e meta de um mundo coletivo transparente sustentado pela compreensão.
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A comunicação sem repressão pretende extirpar a manipulação pelo poder, introduzindo simetria discursiva mediante a antecipação de um discurso ideal, prática regulativa que serviria de índice de verdade e falsidade (index veri et falsi).
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A hermenêutica cartesiana visa a um discurso argumentativo de uso unívoco dos termos, voltado à economia do debate.
7. A razão passa pela História, pela tradição, pela cadeia dos diversos discursos, a caminho da transparência coletiva
13. O cogito teve seu ponto terminal de hegemonia no idealismo especulativo e no saber absoluto, colapso proclamado pela fórmula “cogitamus, ergo sumus”, que substitui a busca da razão solitária na história pela produção tecnológica de consenso, compensando-se a crença na infinitude da razão pela finitude dos diálogos que infinitamente se refazem.
14. O diálogo torna-se lugar de passagem no qual as histórias da razão são produzidas e interpretadas pela cadeia dos discursos, tornando-se possível a transparência de cada história pela presença regulativa de um discurso ideal transparente, produzindo-se do cogitamos um novo idealismo hermenêutico e um convencionalismo retórico.
15. Ao racionalismo monológico do idealismo especulativo sucede o racionalismo dialógico do idealismo hermenêutico, de modo que todo racional passa a ser dialogar e todo dialogar passa a ser racional, sendo-se um diálogo não pela normatividade da razão na História, mas por se normar a própria história ou histórias da razão.
