Conceitos filosóficos
STEIN, Ernildo. As ilusões da transparência: Dificuldades com o conceito de mundo da vida. Ijuí: Editora Unijuí, 2012.
Do uso (aleatório) de conceitos filosóficos
1. Para compreender o quanto o conceito de mundo da vida está arraigado na tradição filosófica e, ao mesmo tempo, o quanto é utilizado fora desse contexto, propõe-se um resumo do que se poderia consignar como uso aleatório de conceitos filosóficos, análise extensível a outros conceitos além do mundo da vida, embora este apresente pretensão e amplitude de uso mais complexas.
2. A comparação entre textos filosóficos e textos científicos, sobretudo das Ciências Humanas, revela dificuldade em separar claramente conceitos de caráter científico e de caráter filosófico, existindo um conjunto de problemas não plenamente definidos quanto à distinção entre linguagem científica e linguagem filosófica.
3. No campo da ciência trabalha-se com conceitos que remetem a objetos ou a construções de objetos, resumindo-se no problema da abstração, enquanto os conceitos filosóficos são sem objeto, constituindo antes articulações de representações que se resumem numa espécie de metaconceitos, podendo-se dizer que a Filosofia trabalha com metaconceitos e a ciência com conceitos.
4. Uma distinção importante situa-se no fato de que os conceitos científicos formam enunciados aos quais se pode atribuir diretamente a propriedade de verdadeiro ou falso mediante recurso ao universo empírico, ao passo que os conceitos filosóficos formam proposições às quais é difícil atribuir tal propriedade por meio de critérios empíricos, ainda que não estejam de todo desprovidas de critérios.
5. Distinguem-se as proposições lógicas, de caráter tautológico, das proposições metafísicas, que não admitem critérios de avaliação empírica, referindo-se antes a um quadro referencial teórico, gerando-se na tradição contemporânea um consenso em torno da aplicação de critérios lógico-semânticos às frases filosóficas, sob risco de reduzir ao sem sentido grande parte da produção filosófica.
6. Torna-se necessário distinguir, ao menos, a tríade palavra, conceito e problema, ao utilizar-se o conceito de mundo da vida como metaconceito ou superconceito de caráter transcendental, sem que se tenha ainda esclarecido plenamente o que significa tal transcendentalidade, sabendo-se apenas, com certeza, tratar-se de um transcendental não clássico, sem subjetividade, dotado de função estruturante, processual, delimitadora e articuladora.
7. As explicações oferecidas sobre o conceito de mundo da vida não convencem necessariamente a todos os que se ocupam dele, constituindo, contudo, a própria introdução dessas distinções um modo relevante de filosofar, já que, na Filosofia, discutir proposições filosóficas ainda é fazer Filosofia, ao contrário do que ocorre nas ciências.
8. Dar conta do caráter, da origem, da finalidade, do alcance e da legitimidade de conceitos e proposições filosóficas constitui o próprio exercício filosófico, podendo-se assim analisar o conceito de mundo da vida enquanto fundo estruturante que oferece critérios de racionalidade às Ciências Humanas e quadro último de justificação filosófica.
9. Não compensa grande esforço em distinguir rigorosamente o uso científico e o uso filosófico do conceito de mundo da vida, podendo-se resumir que, do ponto de vista científico, seu uso é bastante arbitrário e substituível por outros conceitos, enquanto, no campo filosófico, seu uso restringe-se a determinado paradigma e não é facilmente substituível.
10. A exposição introdutória ao conceito de mundo da vida situou-o dentro de um quadro de história das ideias, próximo ao sistema filosófico de cada autor, sendo esse tipo de procedimento — vincular o conceito ao contexto originário de Husserl, ao paradigma heideggeriano ou do mundo prático, ou à obra de Merleau-Ponty e à tradição hermenêutica — mais facilmente defensável, ao passo que o uso aleatório do conceito, tema a ser tratado a seguir, constitui prática recorrente na Filosofia.
11. Usar conceitos filosóficos de modo aleatório, extraídos independentemente de sua gênese do repertório filosófico disponível, implica risco considerável de mau uso, sobretudo o risco de um uso solitário, desprovido dos parâmetros e da moldura de uma tradição determinada que permitam ao interlocutor acompanhar e concordar com esse uso.
12. O uso aleatório de conceitos exige, por consideração ao interlocutor, prestar contas do uso feito, introduzindo, justificando, delimitando e mostrando o alcance do conceito dentro de um contexto de argumentação, pressupondo-se que o interlocutor seja capaz de apreender tais razões e esteja interessado no uso proposto.
13. O substituto da tradição, da gênese ou do paradigma filosófico em que se localiza um conceito é a reconstrução desse conceito, oferecendo-se razões e argumentos sobre os limites e o alcance de seu uso, o que representa já um trabalho racional de justificação e de aprendizado do uso conceitual, ainda que não se valorize tanto o lado histórico ou evolutivo do conceito.
14. Diferentemente dos conceitos científicos, cuja verdade ou falsidade pode ser testada empiricamente, os conceitos filosóficos exigem outro tipo de justificação, própria de uma racionalidade transcendental que pretende ser o critério último da racionalidade científica.
15. O conceito filosófico caracteriza-se por ser altamente mediado, recebendo significado a partir do uso e do contexto de um conjunto de ideias, adquirindo legitimidade pela ramificação que o sustenta em relação a outros conceitos dentro de um paradigma, exigindo-se coerência interna que ofereça ao texto um sentido articulado.
16. Ao desligar-se um conceito de seu contexto histórico original, torna-se necessário criar um contexto atual mediante outros conceitos, configurando uma justificação operatória e descritiva do uso conceitual, proposta que não exclui outras formas de introdução de conceitos filosóficos, mas visa salvar o sentido do discurso filosófico desenraizado historicamente.
17. Esse uso operatório de conceitos constitui uma espécie de reconstrução ajustada ao projeto ou à intenção do discurso filosófico, reduzindo o risco do uso arbitrário e dos equívocos decorrentes da escolha aleatória de conceitos, desde que a reconstrução contextual permaneça compreensível também para os interlocutores.
18. A dificuldade de identificação plena dos conceitos filosóficos decorre de eles não tratarem de objetos, remetendo antes a um objeto abstrato em sentido formal, exigindo-se por isso especial cuidado no estabelecimento de critérios de uso.
19. Os conceitos filosóficos são geralmente polissêmicos, diluídos (o que os franceses chamam de conceito flou), tomando especificidade apenas quando seu uso é restringido, exigindo-se disciplina para fechar o leque de significados quando se busca maior precisão na compreensão.
20. Os conceitos filosóficos permitem uso metafórico, situando-se no lugar de outros conceitos, ideias ou coisas sem se restringirem à univocidade, sendo esse caráter simbólico e metafórico elemento essencial à sobrevivência da Filosofia, sem que isso signifique que toda a Filosofia se reduza a metáfora.
21. O uso justificado dos conceitos filosóficos deve produzir inteligibilidade, sob pena de o discurso filosófico converter-se em banco de neblina ou em impasse improdutivo, não devendo a Filosofia restringir-se a paradoxos, imprecisões e antinomias, mas buscar coerência interna que confira inteligibilidade à linguagem.
22. Existe uma espécie de parentesco ou semelhança de família entre conceitos filosóficos, seja de modo quase genético dentro de um paradigma historicamente determinado, seja de modo construído mediante funcionamento operatório, devendo tal parentesco existir sob pena de os conceitos, se dispares ou contraditórios entre si, produzirem equívocos e anularem a compreensão.
23. Ainda que os conceitos filosóficos possam remeter a pessoas, atos e atividades, e não apenas a objetos físicos, não é a partir desse tipo de referência que se deve qualificá-los como filosóficos ou adequados, mas a partir de sua justificação histórica ou reconstrutiva dentro de um contexto operatório.
24. Conclui-se que o conceito filosófico é um conceito sem objeto, exigindo articulação operatória que reduza a multiplicidade de sentidos a que poderia remeter, dando-se sempre desde uma totalidade virtual, e não atual, própria da qualidade totalizadora dos conceitos filosóficos, que expressa tanto universalidade quanto originariedade, buscando o discurso filosófico sempre um lugar último, um pano de fundo indepassável.
25. A Filosofia não defende posições empíricas, correndo o risco de converter-se em discurso ideológico quando empregada em direção a interesses particulares disfarçados sob conceitos aparentemente universais, sem que, contudo, possa converter-se autenticamente em discurso científico.
26. A ideia de coerência, de elemento operatório e de totalidade universalizante e originária aproxima o discurso filosófico do discurso metafísico, entendido não mais como referência a entes últimos e originários no sentido tradicional, mas a elementos transcendentais que constituem uma totalidade distinta da totalidade objetiva e objetivada da tradição metafísica clássica.
