ERNILDO STEIN – ESTRUTURA DA CONFERÊNCIA "tempo E SER"
ES2001
Formalmente a conferência se apresenta com introdução, três partes e conclusão. Mas, essa dimensão formal emerge, habilmente elaborada, do próprio encadeamento do tema. As palavras e frases-chaves dão uma estrutura unitária que apenas pode ser separada para auxiliar a compreensão e retenção do todo.
Introdução
1. Como compreender a conferência. Atitude de escuta. 2. Por que nomear juntos, tempo e ser? A presença. 3. O ser enquanto presença é determinado pelo tempo. Como se dá essa determinação? 4. O tempo, enquanto permanece, é determinado através de um ser. Como se dá essa determinação? 5. Ser se determina pelo tempo e tempo pelo ser. 6. Mas, o ser não é temporal, nem o tempo entitativo. 7. Ser e tempo são o objeto por excelência do pensamento. 8. Tarefa do pensamento: refletir sobre a relação objetiva que vincula ambos os objetos. 9. Ser não é (entitativo); tempo não é (temporal). 10. Dá-se ser — dá-se tempo. O que é dar? O que é o se? 11. Divisa: pensar o ser no que lhe é próprio; pensar o tempo no que lhe é próprio; pensar a relação objetiva que os liga.
Primeira Parte: o Ser
1. Pensar o ser não apenas em sua relação com o ente. É preciso pensar o ser. Como, apresentar, presentificar, trazer para o desvelamento? 2. É preciso pensar o ser ligado ao dar que joga no desvelar do “dá-se”. O ser é um dom. 3. Por que apresentar? Desde os gregos e na disponibilidade e subsistência ele se manifesta. 4. O ser se dá na profusão de mudanças e parece ter uma história. 5. O “esti gar einai”: “pode” (produzir, dar) o ser. Desde o começo o dá-se se retrai em favor do ser. 6. Um dar que se oculta no dom é destinar o ser. 7. O destino do ser é sua história na profusão de mudanças em cada época (epoche — reter-se). 8. Sempre a seu tempo inserido no destino, que se subtrai, o ser é desocultamento ao pensamento com sua profusão de mudanças epocais. 9. Dar é destinar. 10. Que é o “se”? É o tempo?
Segunda Parte: o Tempo
1. O “se” que dá ser, que o determina como apresentar, poderia ser encontrado no tempo. 2. Vimos que o que é próprio do ser não é nada característico do ser. Assim, também o que é próprio do tempo não vem do tempo vulgar e corrente. 3. Presença e presente não são o presente-agora. 4. A tradição (Aristóteles, Kant) se apoia no tempo vulgar, como sucessão de “agoras”. 5. O presente como presença significa o tempo autêntico. 6. Apresentar e presentificar, que determinam o ser, significam desocultar. Mas, apresentar significa também demorar-se, permanecer. 7. Presença se endereça ao homem, de tal modo que o homem somente recebe o dom do ser do demorar-se da presença ao encontro do homem. Sem isso o homem não é homem. 8. Presença significa o constante permanecer que se endereça ao homem, que o alcança e lhe é alcançado. 9. No passado é alcançado apresentar; no futuro é alcançado apresentar; no presente é alcançado apresentar. 10. Há um recíproco alcançar-se de passado, futuro e presente. 11. Espaço-de-tempo designa o aberto que se ilumina no recíproco alcançar-se de futuro, passado e presente (espaço-de-tempo não no sentido vulgar). 12. O iluminador alcançar-se recíproco de futuro, passado e presente repousa no que é próprio do tempo autêntico. 13. As três dimensões apresentam. Não é um apresentar que brota do presente. A unidade das três dimensões (que apresentam) repousa no proporcionar-se cada uma à outra. Apresentar é o alcançar do tempo autêntico: é a quarta dimensão. 14. O alcançar produz no futuro, no passado, no presente o apresentar sempre próprio a cada um e os aproxima e separa. 15. O alcançar, no qual repousa a unidade do tempo autêntico, é a proximidade que aproxima. Mas, aproxima enquanto afasta. 16. O alcançar mantém aberto o passado enquanto recusa seu futuro como presente. O alcançar mantém aberto o futuro enquanto retém a vinda do presente. 17. Dá-se o tempo. O dar do tempo — alcançar — se determina pela proximidade que recusa e retém. O alcançar como proximidade dá o aberto do espaço-de-tempo e protege o que permanece recusado no passado e o que permanece retido no futuro. 18. O dar que dá o tempo autêntico é o alcançar que ilumina (desvela) e oculta. (O alcançar é dado como abertura e, ao mesmo tempo, como retenção e recusa.) 19. Onde se dá o tempo? Segundo a tradição: na psiche, no animus, na alma, na consciência, no espírito. Portanto, o tempo não se dá sem o homem. Dá o homem o tempo ou é o homem destinatário do tempo? 20. “O tempo autêntico é o que unifica seu trinitário alcançar iluminador, alcançar lúdico do apresentar desde o presente, passado e futuro. Esse tempo já alcançou o homem, de tal modo, que ele somente pode ser homem à medida que está colocado no tríplice alcançar e suporta a proximidade que determina esse alcançar, recusando e retendo”.
Terceira Parte: o “se”
1. Mostrou-se, no passado que presentifica, o não-mais-presente pela recusa do presente; mostrou-se no vir-ao-nosso-encontro que presentifica o ainda-não-presente pela retenção do presente, aquela maneira do alcançar iluminador, que dá ao aberto todo o apresentar. 2. O tempo, pois, parece, assim, o “se” que designamos na locução; dá-se ser. O destino em que se dá ser parece repousar no alcançar do tempo. 3. Mas, o tempo não é o “se” que dá o ser, pois, o tempo mesmo permanece o dom de um “dá-se”, cujo dar protege a esfera em que a presença é alcançada. 4. É preciso determinar o “se” a partir do dar que se mostrou no destinar do ser e no alcançar do tempo. 5. No destinar do ser e no alcançar do tempo mostra-se um apropriar-se e um transpropriar-se do ser como presença e do tempo como esfera, naquilo que lhes é próprio. 6. O que determina ser e tempo naquilo que lhes é próprio é o acontecimento-apropriação. 7. O acontecimento-apropriação determina ser e tempo, tanto no que lhes é próprio (o destinar e o alcançar) como na copertença. 8. O acontecimento-apropriação é, ao mesmo tempo, aquilo que dá o destinar e o alcançar como presença e aquilo que sustenta o “e” que une ser e tempo entre si. 9. O acontecimento-apropriação é o “se” que dá destinando no “dá-se” ser e alcançando no “dá-se” tempo. Ser e tempo aparecem, em sua mútua apropriação, na relação objetiva que os une, através do manifestar-apropriado que se vela no destino e no alcançar revelador. 10. Que é o acontecimento-apropriação? Não podemos dizer que ele se apresenta, pois, tanto o dar, enquanto destinar do ser, como o dar, enquanto alcançar do tempo, nele repousam. 11. O destinar do ser repousa no alcançar do múltiplo apresentar que esconde iluminando, repousa no âmbito aberto do espaço-de-tempo. O alcançar do tempo repousa na unidade com o destinar no manifestar-enquanto-apropria. 12. O próprio repousar de um no outro é determinado pelo acontecimento-apropriação. 13. Acontecimento (apropriação) não tem o sentido vulgar de evento. Nem é um outro nome para o ser. O ser pertence ao acontecimento-apropriação. 14. Não é também um superconceito compreensivo ao qual se subordinam ser e tempo. 15. O “enquanto” do ser enquanto acontecimento-apropriação quer dizer: ser (presentificar, destinado no manifestar-enquanto-apropria); tempo (alcançado no manifestar-enquanto-apropria); ser e tempo (revelam-se no acontecimento-apropriação). 16. Ao dar enquanto destinar pertence um reter-se (ocultar-se). No alcançar do passado e do futuro acontece uma recusa e uma retenção. 17. Recusa e retenção apontam para retração. 18. Os modos de dar determinados pelo acontecimento-apropriação: destinar e alcançar repousam no desvelamento. Mas, aquele que dá se subtrai. 19. Acontecimento-apropriação se caracteriza pela retração. 20. Acontecimento-apropriação não é nem se dá. 21. Acontecimento-apropriação acontece-apropria. 22. “Com isso dizemos o mesmo para o mesmo a partir do mesmo”. 23. Esse mesmo não é algo de novo, mas, o mais antigo do antigo no pensamento ocidental, o originariamente antigo que se oculta no nome aletheia. 24. Todas as palavras-guias do pensamento que se submetem ao apelo do que deve ser pensado estão envolvidas na aletheia.
